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Sergipe entre o forró, a festa e o truque da política

Junho chegou e Sergipe entrou naquele estado emocional que só o sergipano entende. A cidade muda de cheiro, de som e de temperatura afetiva. Tem sanfona no ar, milho cozinhando, roupa escolhida com cuidado, cabelo arrumado, família combinando horário, trânsito apertado, gente indo para o Arraiá do Povo, gente indo para o Forró Caju, gente indo apenas para se sentir parte de alguma coisa. Porque festa popular, antes de ser evento, é pertencimento. É o povo dizendo: eu existo, eu celebro, eu ocupo a rua, eu também tenho direito à alegria.

Mas, enquanto o palco acende, outro palco também se monta, menos iluminado e muito mais calculado. É o palco da política. Nele, não há sanfona inocente. Há discurso ensaiado, pesquisa sendo vendida como fotografia da alma popular, pré-candidato testando sorriso, grupo político medindo aplauso, adversário fingindo tranquilidade e eleitor sendo tratado, mais uma vez, como plateia a ser conduzida. E é aqui que Sergipe precisa prestar atenção. Porque, psicologicamente, junho é perigoso. A emoção coletiva deixa o povo mais aberto ao encanto, ao barulho, à repetição e à aparência de consenso.

O sergipano é inteligente, desconfiado e sentimental ao mesmo tempo. Dança forró, come pamonha, reclama do trânsito, comenta pesquisa eleitoral e ainda pergunta quem está por trás de cada manchete. É quase uma neurociência própria. Mas justamente por isso precisa tomar cuidado com o truque mais antigo do poder: misturar festa com narrativa. Quando a cidade está feliz, o discurso entra mais macio. Quando o povo está distraído, a propaganda veste chapéu de palha e aparece sorrindo no meio da multidão.

Tem político que olha para o São João e não vê cultura. Vê oportunidade. Vê câmera. Vê legenda. Vê pesquisa. Vê palanque disfarçado de arraial. E aí começa a coreografia: um aparece perto do povo, outro comemora número como se pesquisa fosse urna, outro tenta transformar presença em popularidade, outro acredita que meia dúzia de fotos no meio da festa substitui anos de serviço público. Não substitui. O povo pode até dançar junto, mas não necessariamente vota no par.

E aqui vai o alerta de Bia ao sergipano: cuidado com a emoção que te pedem para sentir. Cuidado com a pesquisa que querem que você aceite como destino. Cuidado com o discurso que chega embalado em festa, fogueira e sorriso fácil. A psicologia política sabe disso há muito tempo. O ser humano decide muito menos pela lógica fria do que gostaria de admitir. Decide por impressão, repetição, afeto, medo, pertencimento e memória. Por isso, quem controla o ambiente emocional tenta controlar também a escolha futura.

Mas junho também traz outro lembrete, mais duro e mais necessário. A festa é linda, mas a responsabilidade continua sendo a melhor atração da noite. Enquanto uns querem apenas o retrato bonito da multidão, a vida real exige cuidado. A Polícia Rodoviária Federal aumenta a fiscalização porque sempre há quem confunda alegria com imprudência, bebida com coragem e volante com brincadeira. Não é. O melhor São João não é aquele que termina em vídeo bonito. É aquele que termina com todo mundo voltando para casa vivo.

No fim, Sergipe vive uma mistura poderosa de festa, política, trânsito, segurança, desejo e manipulação simbólica. E a pergunta que fica não cabe em nenhuma pesquisa: quando o último trio se calar, quando a última banda descer do palco, quando o último foguete riscar o céu e quando a última manchete tentar dizer ao povo o que ele deve pensar, o que terá mudado na vida real?

Porque o sergipano não mora no palco. Mora no bairro. Não vive dentro da pesquisa. Vive na fila do posto, no ônibus cheio, na escola do filho, no salário apertado, na rua esburacada, na esperança cansada de todo dia. O São João passa. A fotografia passa. A pesquisa passa. A eleição passa. O que fica é a vida concreta. E essa, meu querido Sergipe, não aceita maquiagem, não dança conforme release e não sobrevive de playback.

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