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Sergipe não precisa escolher entre o verde e o progresso

Sergipe recebeu praias, manguezais, dunas, cânions e o São Francisco. Uma fortuna natural que não pode ser destruída em nome do progresso nem trancada numa vitrine por medo de qualquer investimento. Preservar é garantir água limpa, pesca, biodiversidade e futuro. Desenvolver é criar emprego e renda sem liquidar esse patrimônio. O debate precisa abandonar a caricatura: nem todo empresário é devastador, nem toda exigência ambiental é obstáculo. O problema é quando a natureza vira desculpa para a improvisação ou quando a burocracia confunde proteção com paralisia.

Da Barra dos Coqueiros a Pirambu, de Aracaju à Praia do Saco e a Indiaroba, Sergipe tem potencial para turismo responsável, hospedagem de baixo impacto, gastronomia, ciclovias e negócios comunitários. Isso não autoriza ocupar manguezais, restingas ou dunas protegidas. Exige zoneamento sério, saneamento, estudos e licenciamento previsível. A Reserva Biológica de Santa Isabel, por exemplo, exige proteção rigorosa. Fora das áreas vedadas, projetos compatíveis podem florescer. Nosso litoral não precisa de um paredão de concreto, mas tampouco merece continuar subaproveitado. O coqueiro não concede licença, e o gabinete não deveria enterrá-la numa gaveta.

A Praia do Saco expõe o tamanho do desafio. O acordo judicial homologado em abril de 2026 prevê ordenamento da ocupação e recuperação ambiental, não um cheque em branco para construir. O Estado também apresentou planos para o litoral sul e Xingó. Agora falta transformar promessas em infraestrutura, regras claras, fiscalização e decisões técnicas no prazo. Plano bonito é ótimo para apresentação de auditório; o trabalhador precisa de oportunidade real. Quem pretende investir legalmente merece resposta fundamentada. Quem pretende destruir área protegida merece fiscalização, não tapete vermelho.

No São Francisco, Canindé e seus cânions já demonstram a força do turismo. Propriá, Neópolis, Santana do São Francisco e Brejo Grande podem ampliar roteiros culturais, passeios regulares, pousadas, restaurantes e artesanato, conforme as limitações de cada trecho. A nova orla de Brejo Grande sinaliza investimento, mas obra pública só cumpre sua promessa quando beneficia quem mora e trabalha ali. Ribeirinhos e pescadores precisam participar das decisões e da renda. Não faz sentido vender uma paisagem deslumbrante enquanto o morador continua à margem do próprio desenvolvimento.

Bahia e Alagoas oferecem exemplos de articulação entre turismo, infraestrutura e gestão ambiental, não licenças universais para copiar construções. Cada costa e cada margem têm suas regras. Sergipe deveria copiar o método: planejamento integrado, critérios públicos, diálogo com comunidades e fiscalização eficiente. Por que um empreendedor precisa descobrir, depois de gastar, que ninguém consegue lhe explicar claramente o que é permitido? Segurança jurídica também protege o meio ambiente, porque afasta atalhos e favorece quem respeita as regras.

O caminho é investir na economia do mar, na pesca responsável, no turismo de natureza, em saneamento, energia limpa e pequenos negócios locais. Governo (Federal e Estadual), Ibama, Adema, municípios, universidades, setor privado e comunidades precisam agir juntos. Área protegida deve permanecer protegida; área apta a empreendimento deve ter avaliação séria e resposta objetiva. Sergipe não precisa escolher entre devastação fantasiada de modernidade e imobilismo vestido de virtude. Precisa de coragem para preservar, competência para licenciar e compromisso para fazer a prosperidade chegar às pessoas. A natureza já entregou seu espetáculo. Falta a gestão entrar em cena.

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