Fui ao teatro em busca de arte, sofisticação, reflexão existencial e talvez até aquela falsa sensação de superioridade intelectual que a gente sente ao sair dizendo “nossa, que montagem profunda”. Saí com sono, uma leve dor na lombar, a certeza de que Julia Lemmertz continua elegantíssima e a conclusão mais importante da noite: em Sergipe, a melhor comédia continua sendo a gestão da água. A peça prometia discutir o caos moderno, a solidão tecnológica e os afetos líquidos. Pois conseguiu. Principalmente a parte líquida, porque bastou citarem a Iguá e o teatro quase desabou de tanto rir.
O Teatro Tobias Barreto, e a montagem de Simples Assim, baseada nas crônicas de Martha Medeiros, chegaram com aquele currículo respeitável de quem entra na sala já pedindo aplausos. Julia Lemmertz, Georgiana Góes, Pedroca Monteiro, direção de Ernesto Piccolo, reflexão sobre o amor em tempos de Wi-Fi fraco e gente emocionalmente indisponível. Tudo lindo no release. Tudo sofisticado no folder. Tudo muito conceitual no Instagram. O problema foi que, logo no início, o sistema de microfones resolveu participar da dramaturgia e falhou nos primeiros minutos, quase sabotando a estreia. Foi uma ironia quase poética para uma peça que justamente fala da nossa dependência tecnológica. Nem o microfone aguentou a modernidade.
A abertura tinha tudo para ser brilhante: um âncora de telejornal anunciando tragédia atrás de tragédia até confessar, em colapso existencial televisionado, “cheguei no meu limite”. Confesso que me identifiquei profundamente. Eu também cheguei no meu limite, mas foi ali pelo segundo bloco, quando a peça resolveu transformar ansiedade contemporânea em reunião premium de grupo de WhatsApp. Um casal que só se ama pelo celular, uma mulher que contrata uma dublê de si mesma, uma moça que abandona o amante para ir para Marte. Em Aracaju, isso não se chama dramaturgia experimental. Isso se chama sexta-feira sozinha.
Como mãe e avó emocionalmente aposentada e mulher que já enfrentou fila de cartório e reunião escolar no mesmo dia, eu respeito profundamente a proposta antropológica da peça. Mas também respeito meu bocejo. A direção era conservadora demais para um texto que prometia irreverência. Havia momentos em que eu não sabia se estava vendo teatro contemporâneo ou aguardando ser chamada no consultório de um dermatologista de luxo, lembrei do meu saudoso doutor Fedro Portugal. Ah! Que homem inteligente e gentil. Sua consulta era mais que uma comédia, era um divã eterno. Voltando a comédia. O riso vinha tímido, educado, quase com pedido de desculpas. O público olhava para o palco como quem olha para uma fatura de condomínio: tentando entender onde foi parar a alegria.
Até que aconteceu. O milagre cênico. O verdadeiro clímax dramático. O momento em que o povo saiu do estado vegetativo e entrou em comunhão popular. Alguém no palco fez uma piada sobre a flata d’água e a concessionária (Iguá). Pronto. O teatro veio abaixo. Gargalhada coletiva. Ressurreição emocional. Até quem já estava cochilando acordou como se tivesse ouvido o próprio nome no Diário Oficial. Foi a melhor cena da noite e, curiosamente, nem estava no folder conceitual de Martha Medeiros. Porque ali havia o ingrediente mais poderoso do humor: a verdade.
Em Sergipe, falar de água já virou stand-up automático. Basta alguém dizer “a água chegou” e metade da plateia ri, a outra metade chora e uma senhora no fundo pede para filmar porque quer provar ao síndico que isso realmente aconteceu. O povo talvez não entenda uma concessão pública inteira, mas entende perfeitamente quando abre a torneira e sai apenas ar, esperança e uma nota oficial explicando que tudo está sob controle. A gargalhada foi coletiva porque era um trauma compartilhado. Não era uma piada. Era um depoimento.
E foi aí que a arte venceu a política. Em trinta segundos de ironia, o palco conseguiu dizer mais sobre o desconforto popular com a venda da água do que muitas entrevistas oficiais com ar-condicionado e PowerPoint. Porque o humor tem essa crueldade elegante: ele não argumenta, ele expõe. E expôs lindamente.
Na saída, o bônus cômico da noite: avisto o senador Alessandro Vieira e Milton Andrade. E ali estava outra peça, talvez melhor que a do palco. Alessandro, que não sorri nem quando recebe boa notícia no Pix, seguia com aquele semblante clássico de quem parece estar auditando até o próprio café da manhã. O sorriso dele é uma coisa protocolar. Um sorriso em PDF. Um sorriso com parecer técnico. Imaginar Alessandro numa comédia pastelão é como imaginar um voto de embargos emocionado: existe, mas depende de perícia.
E Milton Andrade ali, elegantemente colocado no centro simbólico da maior gargalhada da noite, ouvindo uma plateia explodir justamente quando o assunto era água. Foi quase uma performance de constrangimento em tempo real. O homem assistiu ao povo rir daquilo que, para muita gente, deixou de ser serviço e virou personagem fixo do humor sergipano. Aquilo não era apenas uma piada de palco. Era uma audiência pública com trilha sonora e iluminação cênica. Confesso que saí sem lembrar metade das falas existenciais sobre afetos líquidos, mas lembrando perfeitamente da piada sobre a Iguá. E talvez isso explique tudo. Martha Medeiros escreveu sobre relações interrompidas. Sergipe adaptou para a realidade local: aqui o que mais se interrompe é o abastecimento.
No fim, a peça queria discutir a simplicidade da vida moderna, mas quem roubou a cena foi a velha e conhecida relação tóxica entre o sergipano e sua torneira. O espetáculo prometia reflexão sobre amor, solidão e humanidade. Entregou também uma excelente crítica hídrica involuntária, o que, sinceramente, foi muito mais eficiente. E talvez seja isso o verdadeiro teatro contemporâneo. Você entra procurando ficção e sai lembrando que a melhor comédia continua sendo a vida real. Principalmente quando ela vem acompanhada de conta alta e um reservatório vazio.




