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Socorro: até os mortos esperam respostas

Em Nossa Senhora do Socorro, o prefeito Samuel Carvalho conseguiu transformar até o sepultamento dos mortos numa polêmica milionária. O Contrato nº 201/2025, de R$ 5.038.680, foi firmado com o cemitério privado Park La Pace sob a justificativa de que os sete cemitérios públicos estavam sem condições adequadas ou vagas. Ora, quem deixou um serviço tão previsível chegar ao colapso? A 2ª Promotoria de Justiça, no Inquérito Civil nº 2025.02.195.00000085, expediu a Recomendação nº 08/2025, divulgada em janeiro, pedindo a rescisão unilateral. Apontou indícios de conflito de interesses, estudos técnicos insuficientes, dúvidas sobre a vantagem econômica e falta de demonstração da recuperação dos cemitérios municipais. A Prefeitura teve 30 dias para informar providências. Já é outubro: o socorrense quer saber se o contrato foi rescindido, mantido ou pago. Dinheiro público não pode desaparecer no silêncio de um gabinete.

A composição societária do Park La Pace exige respostas sem rodeios. Os registros consultados apontam Rosivan Pereira dos Santos e Oswaldo Kazuhiro Hidani como sócios da empresa (CNPJ 43.583.468/0001-69). Rosivan, apresentado como sócio majoritário, é irmão de Rosman Pereira, secretário de Infraestrutura à época da análise ministerial e, segundo a Promotoria, ex-integrante do grupo empresarial. Isso não prova crime, mas torna indispensável esclarecer quem decidiu, fiscalizou e autorizou pagamentos num negócio de mais de R$ 5 milhões. E há outra pergunta: publicação de 15 de outubro voltou a apresentar Rosman como secretário, após ele ter sido tratado como ex-secretário. Foi reconduzido? Quando? Teve atuação no contrato? Samuel Carvalho pode nomear auxiliares, mas não pode nomear o silêncio como porta-voz da Prefeitura. Onde estão os atos de nomeação, os pareceres e a explicação sobre o possível conflito de interesses?

Os vereadores Luiz Paulo Panzuá e Charlys de Gel questionaram a alegada falta absoluta de alternativas e afirmaram que quatro dos sete cemitérios poderiam ser ampliados. Também trouxeram ao debate o Contrato nº 55/2025, de cerca de R$ 9,87 milhões, com a Nexus Empreendimento e Construção, para manutenção de prédios, praças e cemitérios. Quanto desse dinheiro foi empregado, de fato, nos campos-santos? Quais obras foram executadas e medidas? Em abril, o Tribunal de Contas determinou a abertura de processo de fiscalização após inspeção apontar indícios de pagamento por manutenção não executada, falhas de planejamento, problemas em laudos ambientais e dúvidas sobre a vantagem da contratação privada. Cobrou estudos corrigidos e providências de regularização e licenciamento. A conta política é simples: a gestão declara os cemitérios públicos imprestáveis, contrata serviço particular por milhões e ainda deve explicações sobre a solução escolhida. Isso não é política pública transparente; é um enigma bancado pelo contribuinte.

O Ministério Público de Sergipe, o Ministério Público de Contas, o TCE e a Câmara Municipal devem informar, com documentos, em que pé estão essas apurações. Até 28 de outubro de 2026, nas fontes públicas consultadas, encontramos recomendação de rescisão e processo de fiscalização, mas não confirmação de rompimento efetivo, decisão definitiva, relação integral dos pagamentos ou responsabilização pessoal. A Prefeitura respondeu à recomendação? O MPSE ajuizou ação, firmou acordo ou arquivou o procedimento? O TCE recebeu o plano para recuperar os sete cemitérios? Quem autorizou e atestou os serviços? Samuel precisa responder com contratos, datas e resultados, não com frases de ocasião. A urgência de oferecer sepultamento digno é indiscutível; a obrigação de gastar corretamente também. Aos vereadores que denunciaram, cabe fiscalizar até o desfecho. E aos órgãos de controle, cabe esclarecer se houve irregularidade e quem deve responder por ela, sem antecipar condenações. O povo socorrense não aceita que, depois de tanta denúncia, o único sepultado seja o direito à informação.

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