Eu já passei dos 60 anos. Sou mulher, sou mãe, sou avó e pertenço a uma geração que precisou lutar para que a voz feminina deixasse de ser tratada como ruído de fundo. Por isso, quando assisti a Sophie Cunningham falando, não enxerguei uma inimiga de pessoas trans. Enxerguei uma mulher jovem assumindo o risco de pronunciar uma opinião que muita gente prefere cochichar. Ela disse que deseja proteger meninas nos vestiários e no esporte e que elas não deveriam ser obrigadas a competir contra atletas que passaram pela puberdade masculina. Depois da reação, não se escondeu atrás de uma assessoria nem produziu aquele pedido de desculpas pasteurizado que começa com “lamento que vocês tenham entendido” e termina sem ninguém entender coisa alguma. Sophie reafirmou: considera sua posição uma questão de bom senso e pretende continuar defendendo-a.
Como mulher, eu me recuso a aceitar essa chantagem emocional segundo a qual defender a categoria feminina significa odiar pessoas trans. Não significa. Pessoas trans merecem respeito, proteção, trabalho, segurança, assistência médica e liberdade para viver sem violência. Um adulto tem o direito de construir sua identidade e conduzir a própria existência. O que ele não ganha, junto com esse direito, é a autorização automática para apagar qualquer debate sobre biologia, desempenho, privacidade e segurança no esporte. Direitos civis e critérios esportivos não são a mesma coisa. Misturá-los é uma esperteza retórica muito conveniente. Coloca-se uma mulher contra a parede, chama-se qualquer pergunta de preconceito e espera-se que ela peça desculpas por perceber aquilo que os próprios olhos estão vendo.
Eu também observo esse fenômeno com a experiência de quem estudou o comportamento humano durante décadas. As patrulhas digitais não querem apenas convencer. Querem disciplinar. O objetivo é fazer com que a mulher pense duas vezes antes de falar, uma terceira antes de escrever e uma quarta antes de respirar perto de um microfone. Quem discorda recebe imediatamente um rótulo, porque rótulo economiza argumento. Sophie foi atacada justamente porque não aceitou esse ritual de submissão. E há uma ironia quase histórica nisso: depois de séculos mandando as mulheres se calarem para não incomodar os homens, inventaram uma linguagem moderníssima para mandar as mulheres se calarem em nome do progresso. O figurino mudou. A ordem continua a mesma.
A questão física também não desaparece porque determinada militância resolveu bloqueá-la nas redes sociais. O esporte feminino foi organizado como uma categoria própria porque existem diferenças corporais relevantes para força, potência, velocidade, alcance e impacto. Essas diferenças variam conforme a modalidade e não autorizam a humilhação de ninguém. Mas também não podem ser dissolvidas em um caldeirão de palavras bonitas. A ciência pode discutir critérios, efeitos da terapia hormonal, idade, puberdade e níveis de competição. O que ela não pode fazer é fingir que identidade subjetiva e constituição física são conceitos perfeitamente intercambiáveis. O cronômetro não lê biografia. A tabela não segue influenciadores. E a bola, ainda bem, não possui departamento de diversidade para alterar a trajetória durante o arremesso.
Defendo, portanto, uma solução adulta. Que as federações estudem categorias abertas, divisões específicas e competições próprias para atletas trans, quando houver número de participantes e estrutura adequados. Que cada modalidade estabeleça regras objetivas, transparentes e cientificamente fundamentadas. Isso não é expulsar ninguém do esporte. É tentar incluir sem obrigar a mulher a pagar sozinha a conta da inclusão. A categoria feminina não pode ser tratada como um cômodo da casa que será reorganizado sem consultar quem vive nele. Mulheres não são figurantes de uma revolução discursiva. São pessoas com corpos, histórias, medos, conquistas e direitos que também precisam ser protegidos.
E aqui faço uma correção necessária, porque jornalismo sério não pode aumentar uma história apenas para deixá-la mais bonita. Donald Trump não apareceu diante das câmeras para fazer uma declaração pessoal sobre Sophie Cunningham, nem há registro de que tenha entrado em contato diretamente com ela. Quem falou, em 23 de julho de 2026, foi a secretária de imprensa Karoline Leavitt, em nome da Casa Branca. Segundo a porta-voz, Trump acompanhava o caso e concordava com a defesa do esporte feminino. Isso já representa apoio institucional, mas não é correto colocar na boca do presidente uma declaração que ele próprio não fez.
O que mais me impressiona em Sophie não é o apoio da Casa Branca, nem o fato de seu modelo de tênis da Adidas ter rapidamente desaparecido de grande parte do estoque disponível. Produto esgotado não substitui argumento, embora revele que a patrulha barulhenta talvez não represente a maioria silenciosa. O que me comove é ver uma mulher suportar o peso dos rótulos sem abandonar aquilo em que acredita. Aos 60+, aprendi que a liberdade feminina não está completa quando a mulher pode falar apenas o que recebe aplauso. A liberdade começa exatamente quando ela pode dizer algo difícil, ser contestada e permanecer de pé. Sophie Cunningham não precisa ser transformada em santa nem em inimiga. Basta que seja reconhecida como aquilo que demonstrou ser: uma mulher com coragem para lembrar ao mundo que respeitar pessoas trans não exige apagar as mulheres.




