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TCE em família? Maísa, Érica e a cadeira que já movimenta os bastidores

A possibilidade de Maísa Mitidieri chegar ao Tribunal de Contas não surgiu ontem, depois da eleição. O nome dela já circulava havia tempo nas conversas políticas sobre a sucessão no TCE, e agora a discussão ganha peso porque Flávio Conceição continua integrando a Corte em 2026 e sua futura substituição pertence à cota da Assembleia Legislativa. Pela legislação estadual, quatro das sete vagas de conselheiro são escolhidas pela Alese e três pelo governador, sempre obedecendo à origem constitucional da cadeira. Ou seja, formalmente não é Fábio Mitidieri quem simplesmente aponta o sucessor. Politicamente, porém, imaginar que um governador com ampla interlocução parlamentar ficará apenas assistindo à escolha seria desconhecer como esse tipo de processo funciona.

O ponto mais sensível está justamente no sobrenome. Maísa acaba de ser reeleita para o terceiro mandato de deputada estadual com 41.559 votos e tem trajetória política própria. É advogada, biomédica e irmã do governador Fábio Mitidieri. Portanto, qualquer eventual candidatura sua ao TCE precisará ser analisada pelo currículo, mas também pelo efeito institucional de concentrar ainda mais poder político em torno de uma mesma família. O Tribunal existe para fiscalizar gestores e recursos públicos. Por isso, quando alguém ligado diretamente ao núcleo político do Executivo passa a ser cogitado para uma cadeira vitalícia de controle externo, a pergunta deixa de ser familiar e passa a ser republicana: como preservar a aparência e a prática da independência?

É nesse ambiente que também aparece Érica Mitidieri, esposa do governador, primeira-dama e integrante da estrutura de governo. Ela já ocupou secretaria estadual e mantém presença institucional ativa; em dezembro de 2025, inclusive, recebeu do próprio TCE a Medalha do Mérito Gumersindo Bessa. A ideia de uma disputa interna entre Érica e Maísa pela futura vaga circula como narrativa de bastidor, mas não há declaração pública ou documento confiável que permita afirmar que Érica tenha formalmente reivindicado a cadeira. E talvez isso torne o cenário até mais curioso: antes mesmo de existir candidatura oficial, a sucessão já produz a imagem de duas mulheres do mesmo núcleo familiar orbitando uma das cadeiras mais poderosas do Estado.

Sergipe, aliás, não pode fingir espanto com a presença da política no Tribunal de Contas. A própria Constituição estadual faz da escolha de conselheiros um processo político, com participação direta da Assembleia e, em determinadas vagas, do governador. O problema não é descobrir agora que há política no TCE. O problema começa quando a política passa a transmitir a sensação de que certas cadeiras têm destino traçado antes de qualquer sabatina, comparação pública de currículos ou disputa efetivamente aberta.

Se Maísa vier a disputar a vaga, deverá ser julgada por seus requisitos legais, trajetória e capacidade técnica. Se Érica algum dia formalizar interesse, o mesmo vale para ela. Mas justamente porque ambas pertencem ao núcleo familiar do governador, a transparência precisa ser ainda maior. Tribunal de Contas não pode parecer extensão de gabinete, prêmio de consolação ou cadeira reservada por sobrenome. Família pode dividir projeto político, campanha e fotografia de Natal. O que não pode parecer dividido antecipadamente é uma vaga criada para fiscalizar o dinheiro público.

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