A Universidade Estadual de Sergipe (Unese) ganhou lei, reitor, sede anunciada e promessa de vestibular em dezembro de 2026. Só falta mostrar ao contribuinte como a fotografia da inauguração vai se transformar em sala de aula. Criada pela Lei nº 9.847/2025, a instituição foi apresentada ao Tribunal de Contas com sete graduações iniciais, entre bacharelados, cursos tecnológicos e licenciatura, e previsão de aulas no segundo semestre de 2027. Até 3 de novembro, porém, não foi localizado nas fontes consultadas edital de ingresso com vagas, inscrições, critérios de seleção e calendário de matrículas, nem relação completa das disciplinas e coordenações. Sem edital não há matrícula confirmada; sem projeto pedagógico publicado, o estudante compra expectativa, não conhece o curso. A pressa no microfone contrasta com a lentidão dos documentos. E o aluno, que precisa decidir seu futuro, merece conhecer carga horária, modalidade, local das aulas e a situação regulatória de cada graduação antes de qualquer inscrição.
A própria lei revela onde começa a prova de fogo: prevê 105 cargos docentes e 85 técnico-administrativos, concurso para o quadro permanente, possibilidade de cessões e contratações temporárias por seleção simplificada. Também determinou o envio, em nove meses da sanção, de projeto de carreira e remuneração. O prazo terminou em setembro de 2026, mas a pesquisa não confirmou publicamente o encaminhamento desse projeto nem uma tabela salarial definitiva. Quantos professores serão concursados? Quantos temporários? Quem pagará os cedidos, quanto receberão e quando sairá a seleção? A contratação excepcional pode ser legal, mas não pode virar substituta eterna do planejamento. Universidade com prédio e sem professor é novidade pedagógica: inaugura-se primeiro a cadeira vazia. Convém publicar também o calendário de provimento dos cargos e a estimativa anual da folha.
O governador Fábio Mitidieri e a Secretaria da Educação também precisam explicar como a Unese avançará enquanto professores da rede estadual seguem apresentando reivindicações sobre carreira e remuneração. São carreiras diferentes: o piso da educação básica não fixa o salário universitário. Justamente por isso, a nova instituição precisa divulgar regras próprias, critérios para coordenação, qualificação dos docentes e carga horária. O Conselho Estadual de Educação discutiu a regulação da universidade e publicou normas gerais, mas isso, isoladamente, não comprova todas as autorizações específicas dos cursos. A preparação da sede e reuniões sobre engenharias tampouco substituem inventário de laboratórios, equipamentos, laudos de segurança e acessibilidade. Curso tecnológico sem laboratório pode render ótimo vídeo institucional; formar profissionais exige um pouco mais que iluminação e discurso.
Resta a pergunta que costuma estragar a festa: quem vai pagar a conta? A lei admite dotações estaduais e outras receitas, mas a apuração não encontrou planilha consolidada dos custos de pessoal, obras, laboratórios, bibliotecas e assistência estudantil nos cinco primeiros anos. O governo anunciou reserva de 80% das vagas à rede pública e mencionou expansão futura dos cursos; precisa apresentar cronograma, autorizações e sustentação financeira. Ao governador, ao secretário Zezinho Sobral e ao reitor José Ricardo de Santana cabem respostas documentadas: cadê o edital, a carreira, o concurso, a folha e o orçamento de 2027? Criar universidade pública é iniciativa relevante. Cobrar viabilidade não é torcer contra; é impedir que a cerimônia de lançamento seja a única aula com presença garantida.




