Júlio Filgueira não é um personagem lateral nessa história. É o principal articulador estratégico e o rosto público da Vila Vaticano dentro do Governo de Sergipe. Paulista, publicitário e consultor em planejamento, ocupou funções nas prefeituras de São Paulo e Guarulhos, passou pelo Ministério do Esporte e chegou a Aracaju em 2016, convidado pelo então prefeito Edvaldo Nogueira, amigo e companheiro político de longa data. Em 2017, assumiu o planejamento estratégico da Prefeitura. Depois, coordenou o programa de governo de Fábio Mitidieri, participou da transição e chegou ao comando da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Inovação. Não foi eleito. Não possui uma base popular própria. Seu poder vem do método, da confiança e do acesso ao gabinete. Isso não o desqualifica, pelo contrário parece uma terapia tântrica. Mas explica por que um homem que chegou há menos de dez anos passou a desenhar o futuro de uma região construída durante quase dois séculos pela memória, pelo comércio e pelo suor do sergipano. O problema não é Júlio ter vindo de fora. O problema é o projeto parecer ter sido concebido olhando Sergipe de fora.
O governo afirma que o Viva-SE pretende valorizar a “sergipanidade”. A palavra é bonita. Quase tão bonita quanto a maquete. Mas a principal intervenção do programa recebeu o nome de “Vila Vaticano”. É preciso reconhecer a história para não cometer injustiça: Vaticano já era a antiga alcunha do conjunto de sobrados localizado nas proximidades do Beco dos Cocos, nome relacionado à imponência que aquelas construções possuíam no início do século passado. O governo, portanto, não inventou a expressão. Inventou foi a embalagem. Pegou um apelido histórico de uma área popular, comercial, boêmia e operária e o transformou em marca sofisticada para hotel, polo gastronômico, mirante e hub de inovação. Em vez de explicar essa memória, vendeu uma Roma tropical para turista fotografar. Aracaju poderia celebrar uma Vila do Forró, uma Vila do Beco dos Cocos, uma Vila dos Mercados ou uma Vila Inácio Joaquim Barbosa, o presidente da Província que transferiu a capital de São Cristóvão para Aracaju em 1855. Personagens, lugares e símbolos locais não faltam. Faltou apenas olhar para eles antes de procurar uma identidade com passaporte europeu. A Vila Vaticano pode até ter endereço em Aracaju. A propaganda, por enquanto, parece feita para italiano ver.
Na última semana, segundo relatos apresentados por representantes locais, empresários foram chamados para uma reunião sobre o projeto, enquanto a imprensa permaneceu do lado de fora. O encontro privado é revelador não apenas pelo que foi discutido, mas por quem teve direito a uma cadeira. O poder ouviu quem possui imóveis, capital e capacidade de investimento. Resta saber quando ouvirá quem possui apenas um contracheque. Estimativas levantadas pelo comércio apontam cerca de 2.500 empregos diretos e até 10 mil ocupações indiretas naquela região. São balconistas, carregadores, motoristas, vendedores, fornecedores, pequenos lojistas e famílias inteiras ligadas ao movimento do Centro. O Estado pode indenizar paredes. Pode pagar pelo metro quadrado. Pode até produzir um laudo tão espesso quanto a própria maquete. Mas não existe valor venal para a clientela perdida, para o empregado dispensado ou para o comerciante que passa dois anos esperando a prometida relocação. O projeto ainda consumirá meses apenas com estudos, desenhos e projetos de engenharia, já na reta final do mandato de Fábio Mitidieri. O governador pode ser reeleito ou deixar o governo. Júlio Filgueira pode continuar secretário ou atualizar o currículo. O comerciário não pode suspender a fome da família até que a política decida quem ficará no Palácio. PowerPoint não paga aluguel. Renderização em três dimensões não coloca comida na mesa.
O mesmo raciocínio vale para o Hotel Palace, pois há relatos que em tese sua recuperação seria tecnicamente inviável e talvez precisasse ser demolido. Inviabilidade, no entanto, não é opinião de mesa. É conclusão de engenharia. Precisa de laudo estrutural, orçamento comparativo, análise das fundações, estudo das edificações vizinhas e avaliação do impacto econômico. Debaixo do Palace funcionam lojas. No mezanino e em outros espaços, comerciantes mantêm mercadorias e estruturas de apoio. Para onde irão essas pessoas? Onde guardarão os estoques? Quem pagará a paralisação? E como será realizada uma eventual demolição ao lado do Maria Feliciana, outro edifício antigo, sem que vibrações, máquinas pesadas e retirada de toneladas de entulho produzam riscos adicionais? Dinamite não respeita discurso oficial. Retroescavadeira não conhece marketing institucional. Recuperar o Hotel Palace, total ou parcialmente, caso os estudos demonstrem viabilidade, seria uma solução mais inteligente do que abandonar um patrimônio público para depois inventar outro hotel a poucos metros dali. Antes de demolir o passado, o governo precisa provar que tentou salvá-lo. E antes de retirar comerciantes, precisa dizer onde essas pessoas irão trabalhar no dia seguinte. Demolir primeiro e pensar depois é planejamento estratégico apenas para a poeira.
A parte fluvial pode avançar sem carregar nas costas toda essa operação imobiliária. Recuperar atracadouros, fortalecer os tototós, melhorar a relação da cidade com o Rio Sergipe e criar áreas públicas de convivência são iniciativas defensáveis. O rio não precisa ser usado como papel de presente para embrulhar desapropriações, hotéis, demolições e negócios ainda pouco explicados. Curiosamente, o próprio Júlio Filgueira já afirmou que não se pode pensar um plano separado da realidade objetiva onde ele será implantado. A frase envelheceu bem. Falta apenas aplicá-la. A realidade objetiva do Centro não é a maquete. São as lojas abertas, os homens descarregando mercadorias, as mulheres atrás dos balcões, os depósitos cheios e as famílias que dependem daquele movimento. Planejamento que não escuta essas pessoas não é participação. É decoração administrativa. Sergipe não precisa importar uma identidade para parecer moderno. Precisa modernizar sem expulsar, preservar sem encenar e investir sem esconder a conta. Antes de construir um Vaticano no Centro, o governo deveria garantir algo mais simples: que o Centro continue tendo Sergipe dentro dele.




