PUBLICIDADE

24 horas: Fábio buscou Lula em Brasília; Valmir ficou em Sergipe atrás dos R$ 2,5 bilhões

Nas últimas 24 horas, ficou mais fácil perceber quem conseguiu produzir um assunto próprio e quem ainda está tentando encontrar um lugar à mesa. Fábio Mitidieri foi a Brasília gravar material eleitoral com o presidente Lula e voltou com aquilo que qualquer candidato governista gostaria de colocar no horário eleitoral: a imagem presidencial funcionando como selo político. É um ativo considerável num estado em que o lulismo possui peso eleitoral. Só que política tem dessas ironias deliciosas. Enquanto Fábio buscava Lula para a fotografia, a oposição buscava uma antiga declaração do próprio Lula para colocar a Deso novamente no colo do governador. Assim, a melhor imagem de Fábio veio acompanhada da pergunta que sua campanha provavelmente preferiria deixar fora da legenda: onde foram parar os cerca de R$ 2,5 bilhões ligados à concessão?

Foi justamente aí que Valmir de Francisquinho teve as 24 horas politicamente mais interessantes.Não porque tenha produzido o maior evento, nem porque tenha posado ao lado da figura nacional mais importante, mas porque fez algo que campanhas costumam gastar muito dinheiro tentando conseguir: colocou uma pergunta simples na cabeça do eleitor. “Cadê os R$ 2,5 bilhões?” é uma frase que dispensa consultor de marketing e tradução simultânea. Valmir conseguiu trazer a eleição de volta para Sergipe, para a água, para a tarifa, para o serviço público e, sobretudo, para o dinheiro. Melhor ainda para sua estratégia, apropriou-se de uma fala de Lula contra privatizações justamente quando Fábio tenta vestir a camisa do chamado “Time de Lula”. É uma construção política sofisticada porque transforma o maior cabo eleitoral do adversário também em elemento de constrangimento. O calcanhar de Aquiles permanece sendo sua situação jurídica, assunto que continua circulando e que sua campanha não controla inteiramente. Ainda assim, nas últimas horas, foi Valmir quem conseguiu obrigar os outros a reagirem ao tema que ele escolheu. Em campanha, isso costuma valer mais do que ocupar espaço. Vale determinar sobre o que o espaço será ocupado.

Ricardo Marques também teve movimento. A declaração à Justiça Eleitoral de que não possui bens em 2026, depois de ter informado patrimônio em 2024, produz uma curiosidade inevitável e deverá acompanhá-lo em entrevistas. Não há, por si só, irregularidade nisso, mas campanha eleitoral é uma fábrica especializada em transformar ponto de interrogação em manchete. Ricardo também escolheu um tema coerente com sua biografia de jornalista ao defender o sigilo constitucional da fonte e criticar os riscos que enxergou em decisões judiciais envolvendo profissionais da imprensa. Foi inteligente na escolha do terreno, dialogando ao mesmo tempo com liberdade de imprensa, STF e eleitorado conservador. O desafio continua o mesmo: aparecer não é exatamente pautar. Ricardo precisa fazer a discussão estadual olhar para ele, e não apenas registrar que ele entrou nela.

Emanuel Cacho, por sua vez, escolheu a crítica aos “caciques” e aos acordos de gabinete. É um discurso que possui boa sonoridade eleitoral porque permite criticar tanto governo quanto oposição sem precisar escolher um dos dois para bater. Há inteligência conceitual nessa tentativa de ocupar a terceira via institucional, denunciando compadrio e decisões políticas tomadas por pequenos grupos. O problema é que política não vive apenas da qualidade da frase. Vive da quantidade de gente que a escuta. Nas últimas 24 horas, a mensagem de Emanuel circulou, mas não alcançou musculatura suficiente para disputar a primeira prateleira do debate. É como chegar elegantemente vestido à festa depois que os fotógrafos já decidiram quem estará na capa.

Helton Monteiro enfrentou problema ainda mais elementar: a escassez de pauta própria. Seu nome segue vinculado à candidatura do PSOL e à presença da esquerda fora do campo governista, mas, no recorte analisado, não surgiu um fato com repercussão suficiente para furar a polarização. Isso não significa ausência de campanha. Significa algo pior para quem disputa eleição: campanha sem tradução jornalística. Quando a atividade política acontece e ninguém a transforma em conversa pública, ela corre o risco de existir apenas para quem já está dentro dela.

Taty Cristina vive dilema semelhante, embora possua um diferencial que nenhum dos adversários pode copiar: é a única mulher entre os seis candidatos ao governo. Num cenário em que representação feminina, empreendedorismo, economia popular e políticas para mulheres poderiam fornecer uma faixa própria de discurso, sua campanha ainda não converteu esse ativo em protagonismo. Nas últimas horas, a candidatura existiu mais no quadro oficial da disputa do que no centro da conversa política. E política, infelizmente, não premia potencial. Premia ocupação de espaço.

No fim das contas, as últimas 24 horas produziram uma fotografia curiosa. Fábio ganhou a imagem nacional, mas Valmir ganhou o assunto local.Ricardo tentou abrir uma terceira pista, Emanuel formulou uma alternativa discursiva, enquanto Helton e Taty ainda procuram uma pauta que possa ser reconhecida como propriedade política de suas campanhas. A eleição começa a revelar uma divisão menos ideológica e mais comunicacional: de um lado, quem entra no noticiário; do outro, quem consegue decidir qual será o noticiário. E foi justamente aí que Valmir saiu melhor do retrato. Enquanto Fábio foi a Brasília buscar Lula, Valmir ficou em Sergipe procurando os bilhões da Deso. Um trouxe a fotografia. O outro trouxe a pergunta. E, em eleição, fotografia ajuda muito. Mas pergunta sem resposta costuma durar bem mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *