A disputa pelo Governo de Sergipe começou oficialmente com todos os ingredientes de uma boa comédia política: convenções, discursos emocionados, pesquisas apertadas, decisões judiciais, pedidos de impugnação e candidatos que ainda precisam andar pelas ruas com uma placa no pescoço dizendo: “Olá, sou eu quem aparece com 1%”. Nas últimas 24 horas, Fábio Mitidieri comemorou uma liderança numérica que cabe dentro da margem de erro; Ricardo Marques finalmente conseguiu realizar a própria convenção sem que alguém desligasse a luz do salão; Dr. Helton Monteiro foi lançado pelo PSOL em um encontro simples, tão simples que o microfone provavelmente voltou para a caixa antes de a militância chegar em casa; Emanuel Cacho confirmou que também deseja governar Sergipe; e Valmir de Francisquinho, como já virou tradição, teve de disputar uma eleição, enfrentar processos, responder aos adversários e ainda encontrar tempo para dizer que continua candidato. Há gente que precisa apenas subir no palanque. Valmir, pelo visto, precisa subir no palanque carregando o palanque, a escada e dois volumes do Código de Processo Civil.
Fábio Mitidieri atravessou o dia com a tranquilidade aparente de quem tem governo, estrutura, secretários, aliados, fotografia oficial e um batalhão de pessoas sempre disponíveis para bater palma na hora certa. A pesquisa o colocou numericamente à frente, mas o chamado empate técnico funciona como aquele garçom que entrega a conta justamente quando o cliente começava a comemorar. Não há vantagem confortável, não há passeio eleitoral e muito menos eleição resolvida. Fábio possui a máquina pública, a exposição permanente e uma convenção cuidadosamente preparada, mas continua olhando pelo retrovisor e encontrando Valmir no mesmo lugar, firme, próximo e aparentemente impossível de desaparecer. O problema do governador não é apenas liderar; é explicar por que, mesmo com toda a estrutura à disposição, ainda não conseguiu abrir uma distância segura. É como correr uma prova de Fórmula 1 dirigindo o melhor carro, abastecido, com equipe completa, e perceber que o sujeito vindo de Itabaiana continua emparelhado, sorrindo pela janela e perguntando se está tudo bem.
Valmir, por sua vez, teve a agenda praticamente sequestrada pelo jurídico. Em vez de discutir água, saúde, emprego e segurança, precisou explicar decisão do STJ, alcance de liminar, recurso, impugnação e desincompatibilização. Seus adversários parecem acreditar que, se não conseguem vencê-lo politicamente, talvez seja possível derrota-lo com uma chuva de petições. O problema é que cada tentativa de retirá-lo do jogo reforça justamente a imagem que mais lhe interessa: a do candidato perseguido, enfrentando estruturas maiores e permanecendo de pé. É preciso cuidado para que o tapetão não termine funcionando como cabo eleitoral. O eleitor comum pode não compreender a diferença entre agravo interno, recurso especial e efeito suspensivo, mas entende perfeitamente quando percebe que existe muita gente trabalhando para impedir que determinado nome apareça na urna. Quanto mais tentam apresentar Valmir como um problema jurídico, mais ele aparece para parte da população como um problema político para quem está no poder. E adversário considerado irrelevante não costuma receber tanta atenção, tanto processo e tanta madrugada mal dormida.
Enquanto os dois principais concorrentes travam a batalha central, Ricardo Marques, Helton Monteiro e Emanuel Cacho disputam o direito de transformar presença formal em candidatura eleitoralmente reconhecida. Ricardo realizou uma convenção com energia, apresentou vice e garantiu que não trabalha com desistência, o que já é uma evolução importante numa campanha em que passaram vários dias discutindo justamente se ele desistiria. Dr. Helton entrou na corrida defendendo serviços públicos, diálogo social e oposição à concessão da água. Fez uma convenção modesta, coerente com a realidade do PSOL em Sergipe, sem fingir que havia uma multidão onde existia uma reunião organizada de militantes. Já Emanuel Cacho aceitou ser candidato porque, segundo ele, a convenção é soberana. A frase é bonita e democrática, embora também tenha aquele sabor de alguém que foi buscar café na cozinha e, quando voltou, descobriu que havia sido escolhido para disputar o Governo do Estado. Os três possuem propostas, disposição e tempo de televisão a conquistar. Falta agora conquistar algo um pouco mais complicado: o eleitor.
A fotografia dessas 24 horas mostra uma eleição dividida em dois campeonatos. No primeiro, Fábio e Valmir brigam voto por voto, atenção por atenção e manchete por manchete. No segundo, Ricardo, Helton e Cacho tentam provar que a disputa não pertence exclusivamente aos favoritos. Fábio procura transformar estrutura em confiança popular; Valmir tenta transformar resistência em força eleitoral; os demais buscam transformar candidatura em conhecimento público. A ironia é que o candidato submetido à maior pressão foi também aquele que demonstrou maior capacidade de permanecer no centro do debate. Quando todos falam dele, mesmo para ataca-lo, acabam reconhecendo sua dimensão política. A campanha ainda está começando, mas já apresenta uma conclusão incômoda para muita gente: Valmir pode enfrentar decisões, ações, federações, secretários, adversários e comentaristas, porém continua ocupando o espaço que realmente importa. Enquanto alguns organizam convenções para anunciar que existem, ele precisa apenas aparecer para que todos saibam que a eleição começou.




