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EDITORIAL: SOCORRO, O TABULEIRO QUE NUNCA DORME

Nossa Senhora do Socorro não é só a segunda maior cidade de Sergipe, é um ringue político a céu aberto. Aqui ninguém “apenas vota”; todo mundo se sente um consultor eleitoral de luxo. São quase 200 mil “cientistas políticos” improvisados, cada um com uma teoria genial sobre alianças, cada um dando palpite como se fosse marqueteiro de governador. Em Socorro, a discussão de bar não é sobre futebol, é sobre quem vai apoiar quem. E, cá entre nós, isso torna a cidade o palco mais divertido, imprevisível e explosivo da política sergipana.

Com 2026 batendo à porta, o tabuleiro já está em chamas. Velhos caciques tentam segurar suas bases como quem agarra areia com as mãos, enquanto novos nomes surgem empurrando a porta do poder com os dois pés. Nos bastidores, alianças improváveis estão sendo cozinhadas em fogo baixo, com promessas, favores e apertos de mão escondidos dos holofotes. E, como sempre, em Socorro o passado nunca morre: ele volta para cobrar a conta, cutucando velhas feridas e lembrando que, aqui, política tem memória de elefante.

Samuel, o prefeito de hoje, chegou ao cargo montado numa máquina eleitoral de respeito. Foi um “produto premium” embalado por ninguém menos que Fábio Henrique, o engenheiro político da sua vitória, que emprestou base, experiência e, principalmente, o peso do seu nome, como também das benesses do outro Fábio, o Fábio Mitidieri. E em Socorro, o nome de FH ainda é senha que abre portas, derruba muros e, às vezes, cala desafetos. Naquela época, Samuel era vendido como o prefeito do diálogo, o cara que sentaria na mesa com vereadores, tomaria café com as lideranças e manteria a base unida no grito… ou melhor, no aperto de mão.

Mas o Samuel de hoje parece ter trocado a xícara de café por uma porta trancada. Está isolado no gabinete, apostando que máquina pública ganha eleição sozinha, e colecionando críticas como quem coleciona multas de trânsito. Reuniões com vereadores? Só por intermediários de Toledo ou doutor Heitor. Encontros com apoiadores? Raridade, quase lenda urbana. Um vereador resumiu nos bastidores: “Samuel governa para secretários, não para quem coloca voto na urna”. E, em Socorro, isso é pedir para levar puxão de tapete. Porque a cidade tem memória afiada: foi assim com Fábio Henrique, que, ao apostar em sua esposa Silvinha, deu de bandeja a legenda que catapultou Padre Inaldo para o centro do tabuleiro. Aqui, história não se esquece, ela volta, ri da sua cara e se repete.

Enquanto Samuel se tranca no gabinete, Júnior de Fábio Henrique faz o caminho inverso, e com a energia de quem sabe que eleição se vence com aperto de mão, não com ar-condicionado. Ele não herdou só o sobrenome: herdou a máquina eleitoral do irmão, a lealdade de quem sempre esteve no grupo e, principalmente, aquele respeito que se conquista com presença. Júnior aparece onde Samuel desaparece: está nos bairros, conversa com lideranças, senta em mesas comunitárias e, acima de tudo, fecha apoios um por um, como quem coleciona figurinhas raras.

Hoje, 10 dos 15 vereadores de Socorro que apoiam o prefeito estão com ele: Lalo, Alan Mota, João Mochila, Jéssica de Wellington, Betinho, Chicão, Clessinho, Jeová, Aldon e Jó Sobrado. Isso representa entre 8 e 10 mil votos certos, ou seja, metade da eleição já carimbada antes mesmo do jogo começar. O resto virá de fora, onde o grupo de Fábio Henrique continua musculoso e organizado. Se Júnior confirmar a candidatura pelo MDB, como todo mundo especula, a disputa vira quase um “cheque pré-datado”, só falta o banco político compensar.

Entre todos os personagens, o tenente-coronel Toledo é, sem dúvida, o mais interessante e o mais comentado nos bastidores. Ele é a verdadeira “metamorfose ambulante” da política socorrense. Já vestiu o colete de secretário de Fábio Henrique, depois virou braço-direito do Padre Inaldo que era inimigo político de Fábio e hoje é homem de confiança de Samuel também desafeto do padre Inaldo. Toledo é como água: se molda ao recipiente, mas nunca perde a essência.

Para alguns, é puro oportunismo; para outros, é o pragmatismo elevado à arte. Sabe onde está o poder, enxerga o movimento antes dos outros e muda de lado com a naturalidade de quem troca de paletó. Um vereador confidenciou, rindo: “Toledo tem cheiro de vitória. Ele nunca fica do lado que perde.” E, em Socorro, essa fama vale mais que qualquer santinho.

Se Toledo se move como um foguete barulhento, Jorginho Araújo, secretário da Casa Civil do Estado, age como um cirurgião político: silencioso, preciso e sempre certeiro. É o típico jogador que prefere o sussurro ao microfone. Discreto e calculista, Jorginho já garantiu Heitor Lucas e Teta do Camarão no bolso e, pelo que se comenta nos corredores, deve fisgar mais dois ou três vereadores antes mesmo do tiro de largada oficial.

Diferente de Samuel, Jorginho entende o básico da política socorrense: poder se conquista com garfo e faca, almoçando com a base, e não com memorandos enviados do gabinete. Ele conversa, ouve, negocia e sempre fecha acordos longe dos holofotes. É o tipo de peça que ninguém percebe crescendo… até que, quando se dá conta, o tabuleiro já virou. Em Socorro, quem subestima o silêncio de Jorginho acaba engolindo poeira.

Se tem um grupo que joga com disciplina militar em Socorro, é o segmento evangélico. Pastor Joanan e Pastor Everaldo são os generais dessa tropa que cresce ano após ano. O último censo aponta 34,8% de evngálicos na cidade, mas os números enganam: a força evangélica vale por dois, porque milita, mobiliza e entrega voto com precisão de relógio suíço.

Joanan, com presença constante em cultos, reuniões comunitárias e eventos religiosos, já se coloca como candidato natural, fala de política sem falar de política, o que o torna ainda mais palatável para os fiéis. Everaldo segue no mesmo ritmo, apostando no contato direto, no aperto de mão e na promessa de que “a mudança vem de Deus”. Em Socorro, subestimar o voto evangélico é como entrar em campo sem goleiro: fatal.

Na oposição, quem mais cresce é Clécia e cresce com método. Ex-candidata a prefeita, ela vem costurando apoios com a paciência de quem tricota voto por voto. Sempre presente em eventos, ela aposta no contato direto, no olho no olho e vem construindo, tijolo por tijolo, uma imagem de renovação que agrada principalmente ao eleitorado conservador.

Sua força está justamente aí: no campo da direita, onde um apoio nacional de um Tarcísio de Freitas, por exemplo, pode transformá-la na principal puxadora de votos do segmento. Clécia já tem histórico de boa votação e carrega um trunfo raro: é vista como “nova”, mas fala com firmeza de quem não treme diante dos caciques. Um empresário confidenciou em tom de aposta: “Se Clécia tiver estrutura, é a única que pode bater de frente com os grandes.” E, em Socorro, quando gente graúda começa a falar isso, é porque a maré está virando.

Por fim, temos padre Inaldo, o verdadeiro grande jogador do tabuleiro político de Socorro. Respeitado até por adversários, ele é mais que um candidato: é uma instituição política viva. Inaldo reúne três atributos raros em um só líder: militância fiel, capacidade de articulação cirúrgica e um carisma que atravessa grupos políticos.

Seu nome continua sendo o mais temido e respeitado da cidade. Estima-se que ele garanta entre 8 e 10 mil votos com a facilidade de quem já sabe o caminho das urnas, contando com o apoio sólido de vereadores estratégicos como Panzuá e Charles de Gel. Mas o segredo do padre não está apenas nos números, está na maneira como ele constrói alianças com calma de xadrezista e golpe de mestre quando necessário.

O histórico fala por si: Inaldo não só se elegeu e se reelegeu com votações expressivas, como também foi peça-chave na vitória de Carminha Paiva para deputada estadual. Em Socorro, ninguém ignora Inaldo impunemente, porque subestimar o padre é como entrar num jogo de xadrez e esquecer que a rainha, no tabuleiro dele, sempre dá xeque-mate.

Nem todos seguem o script de Samuel ou de Fábio Henrique e é exatamente isso que torna o tabuleiro de Socorro tão imprevisível. Delmando Filho já declarou apoio ao sobrinho de Vardo da Lotérica e Eliel Felipe está alinhado deputado Adailton Martins. Maria da Taiçoca, fiel a Jefferson Andrade, votará em Maísa Mitidieri a pedido dele. Leozinho  tem carinho por Luciano Bispo, enquanto Paulo da Piabêta vai com o deputado Netinho de Angélica.

Esses movimentos deixam uma lição clara: ninguém controla totalmente o jogo político de Socorro. Aqui, cada vereador joga para si, mas sempre com um olho no presente e o outro, bem aberto, no futuro.

Se as peças permanecerem onde estão, o desenho do tabuleiro parece claro: Padre Inaldo segue consolidado com votação alta; Júnior de Fábio Henrique está praticamente eleito; Clécia cresce na direita e pode surpreender; Jorginho Araújo continua costurando alianças nos bastidores e sairá bem votado na cidade; e Samuel corre o risco de repetir erros do passado, afastado da base e confiando demais na máquina pública.

Mas, em Socorro, 15 meses são uma eternidade política. Aqui, alianças mudam como o vento, amigos viram adversários de um dia para o outro e quem hoje está no topo pode virar carta descartada antes mesmo do primeiro santinho ir para a rua. No xadrez socorrense, só uma regra que nunca falha: quem cochila, perde.

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