Sergipe não foi a Milão para colecionar crachás nem a Lille para posar com sanfona: foi, ou deve ter ido, para fechar negócio. A Gastech é uma vitrine global; quem vai sem agenda volta com foto. Fábio Mitidieri foi com pauta, e isso é o caminho certo. Mas, daqui para frente, o critério é binário: ou essas missões se convertem em obras, plantas, armazenagem, cabotagem, royalties e folha de pagamento aqui, ou viram turismo oficial com roteiro premium.
A agenda energética faz sentido: BP, Equinor, GNA, Worley, Lorinvest/GNLink, conversa boa, nomes quentes, tema estratégico. A agenda logística também: TMIB, ZPE, Complexo Portuário, estudo técnico, desenho de corredor. E a agenda cultural não é firula: forró é soft powerque empurra o funil do turismo. Tudo certo no mapa. Agora, o que separa “visão” de “versão” é execução com régua pública. Sem ela, o duto é promessa e a sanfona, figurino.
O norte precisa estar colado na porta da repartição: cada real, cada milha e cada reunião têm de se reverter em Sergipe. Como? Com critérios que qualquer contribuinte entenda. — Metas e prazos: quantos MoUs viram contratos? Quantos contratos viram canteiro? Quando? — Transparência: publicar os termos, contrapartidas e cronogramas (TMIB, ZPE, acessos viários, energia). Painel público, atualização mensal. — Conteúdo local: metas de compras e serviços em Sergipe; não adianta o gás entrar pelo porto e a renda sair pelo avião. — Trabalho e qualificação: vagas, trilhas de formação técnica, metas de contratação regional. — Ambiente e licenciamento: cronograma realista, condicionantes claras e fiscalização à vista. — Turismo com lastro: da França ao litoral sergipano, medir conversão (passagens, ocupação, gasto per capita) e ajustar a rota cultural para o que funciona, não para o que rende manchete.
É possível elogiar sem bater continência. Mitidieri acerta ao carregar na mesma mala gás e forró, porto e promoção, Capag A e vitrine internacional. Esse é o desenho correto. Mas o mérito não é um fim; é um compromisso: viagem boa é a que volta com número na mão. O resto é espuma de risotto.
Porque, no fim, o teste é simples: o sergipano sente ou não sente? Sente quando o cais ganha guindaste, quando a ZPE tem placa e gente, quando a fatura de hotel enche aos fins de semana, quando o jovem do SENAI sai empregado, quando o imposto pago ontem volta em obra hoje. Não sente quando o anúncio vira coleção de logotipos, quando a empreitada depende de “ajustes” eternos, quando o cronograma escorrega e a culpa é sempre do clima.
Queremos e devemos cobrar um governo que dance o xote da entrega: dois pra lá (acordo), dois pra cá (obra), gira (emprego), marca (receita). Se Milão foi balcão e a França, vitrine, ótimo. Agora é caixa: contrato assinado, cronograma publicado, obra iniciada, meta batida. E, se algo derrapar, que se explique em público o porquê e o como corrigir. É assim que se transforma missão em política de Estado e simpatia em segurança jurídica.
Mitidieri está no caminho certo. Para permanecer nele, precisa manter o passo: menos selfie, mais KPI; menos “em breve”, mais data; menos release, mais medição. Se a energia chega pelo duto e o forró pelo ouvido, que os dois cheguem juntos ao holerite do sergipano. Aí, sim, a orquestra toca afinada e ninguém confunde viagem de trabalho com passeio.




