O fim de semana dos dois principais nomes na corrida pelo Governo de Sergipe teve cavalgada, missa, convenção, troca de apoio, reunião técnica e fotografia suficiente para abastecer as redes sociais até o próximo feriado. Fábio Mitidieri circulou com a desenvoltura de quem governa carregando agenda, cerimonial e uma pequena seleção parlamentar no banco de reservas. Valmir de Francisquinho trabalhou num estilo diferente: menos carreata institucional, mais movimentos capazes de produzir conversa nas feiras, nos grupos de WhatsApp e nas mesas onde a política é servida junto com café forte. Na sexta-feira, Fábio anunciou o apoio do vice-prefeito de Macambira, Toinho do Trator, enquanto o prefeito Carivaldo Souza permaneceu ligado ao projeto de Valmir. Em política municipal, até a Prefeitura pode ter situação e oposição dentro do mesmo automóvel, basta o prefeito dirigir e o vice pedir para descer no palanque seguinte.
No sábado, Fábio exibiu aquilo que todo governador candidato à reeleição gosta de mostrar: estrutura, aliados e quilometragem. Participou do Raid da Amizade ao lado de André Moura, em uma agenda que reuniu prefeitos, lideranças, cavalgada e tradição sertaneja. Quando a política monta a cavalo, não existe pesquisa qualitativa que resista a uma boa fotografia com chapéu, abraço e poeira na estrada. No mesmo dia, o MDB oficializou apoio ao projeto de reeleição de Fábio e confirmou Alessandro Vieira para o Senado. Foi uma demonstração respeitável de musculatura partidária: Fábio reuniu sigla, senador, prefeitos e comitiva. Só faltou distribuir senha, porque o palanque governista já começa a parecer fila de embarque antes de feriado prolongado.
Valmir, porém, investiu em uma estratégia que não cabe apenas na fotografia: ouvir, organizar e transformar problemas concretos em pauta política. Além da recente conversa com o Sindifisco, na qual recebeu reivindicações da Administração Tributária e defendeu a incorporação das propostas ao plano de governo, a agenda informada à coluna registra uma reunião com professores universitários, intelectuais e técnicos para discutir as bacias hidrográficas e o problema da água em Sergipe. Enquanto uma parte da política mede o sucesso do dia pela quantidade de autoridades espremidas na fotografia, Valmir procura sentar com quem estuda o mapa, conhece os mananciais e sabe que torneira seca não se resolve com legenda bonita no Instagram. Água exige planejamento, infraestrutura e gestão, três coisas que não brotam do chão só porque o secretário de comunicação publicou um vídeo com música emocionante.
O domingo transformou Simão Dias no centro nervoso da disputa. Fábio participou dos festejos de Senhora Sant’Ana, recebido pelo ex-prefeito Marival Santana e acompanhado por Luciano Pimentel, Luciano Bispo, Ibrain Monteiro, Zezinho Sobral e Cláudio Mitidieri. Era uma comitiva do tamanho de uma sessão solene: tinha deputado, vice-governador, pré-candidato e sobrenome suficiente para preencher a ata. A presença do governador foi legítima, politicamente relevante e cercada de referências às obras estaduais no município. Mas, enquanto Fábio chegava com a tropa institucional, Valmir recebia o apoio do atual prefeito Cristiano Viana, do PT. Simão Dias conseguiu, no mesmo domingo, oferecer missa, procissão e uma mudança de palanque porque, em ano eleitoral, até o santo precisa conferir de que lado está cada fiel.
A adesão de Cristiano Viana teve peso especial por não representar apenas a chegada de mais um nome à oposição. Tratava-se de um prefeito petista, até então situado no campo político ligado ao governador, anunciando apoio a Valmir e Priscila Felizola. Cristiano mencionou a gratidão ao ex-governador Belivaldo Chagas e reclamou da desaceleração de investimentos no município. Valmir respondeu elevando a temperatura do discurso, falando em coragem, pressão política e liberdade de escolha. Naturalmente, denúncias de intimidação precisam ser demonstradas e não podem ser convertidas em verdade apenas porque foram pronunciadas diante de um microfone. O fato objetivo, contudo, permaneceu em pé: enquanto o governo visitava Simão Dias com uma numerosa comitiva, o prefeito da cidade mudava de lado. A fotografia sorria para Fábio; o fato político caminhava na direção de Valmir.
O retrato das 72 horas, portanto, mostra duas maneiras distintas de disputar Sergipe. Fábio aposta na capilaridade da máquina, na reunião de partidos, na presença de parlamentares e na multiplicação de agendas pelo interior. É uma campanha que gosta de volume: muita gente, muitos cargos, muitas fotografias e uma quantidade de aliados que já exige lente panorâmica. Valmir procura combinar adesões politicamente simbólicas com reuniões setoriais e discussões sobre temas que atingem diretamente a população, como tributação, saneamento e segurança hídrica. Nenhuma das estratégias garante voto por decreto, evidentemente. Mas o fim de semana deixou uma lição desconfortável para o governo: possuir a comitiva mais numerosa não impede que uma liderança atravesse a rua. Na política, como no abastecimento de água, pressão demais numa ponta pode provocar vazamento na outra.




