Fábio Mitidieri chegou à entrevista da TV Sergipe com uma vantagem que nenhum treinamento de comunicação pode fabricar: três anos e meio sentado na cadeira de governador. Conhece a máquina, domina os números, sabe onde a pergunta aperta e certamente foi preparado para atravessar os temas difíceis sem deixar a compostura pelo caminho. Falou com segurança, organizou frases e apresentou realizações. O problema é que eleição não é concurso de oratória, e segurança verbal não substitui água na torneira, professor valorizado ou atendimento médico funcionando. Fábio parecia pronto para a entrevista, mas não pareceu pronto para responder por Sergipe. É uma diferença pequena na televisão e gigantesca na urna.
Na crise da água, apareceu a maior contradição da noite. O governador admitiu que “em muitas áreas o serviço não melhorou”, reconheceu que ainda não está satisfeito e pediu compreensão porque seria impossível resolver cinquenta anos de problemas da Deso. A frase tenta parecer prudente, mas carrega uma confissão política: o modelo escolhido pelo próprio governo ainda não entregou o resultado prometido. Chamar de concessão e não de privatização pode ser tecnicamente importante para advogados, contratos e discursos oficiais. Para a dona de casa diante da torneira seca, porém, a classificação jurídica não enche um balde. O consumidor não toma banho com semântica administrativa. Se o serviço não melhorou, como reconheceu o próprio governador, alguém precisa responder por que a concessão avançou mais depressa do que a água.
Na educação, Fábio fez o movimento clássico de quem percebeu que a frase passou do limite: reconheceu que a expressão dirigida aos professores não foi adequada, disse que pediu desculpas e correu para os números da alfabetização e das escolas climatizadas. O pedido de desculpas é necessário e deve ser reconhecido, mas não encerra o problema. Enquanto ele falava, professores estavam em greve, ocupavam a Secretaria da Educação e cobravam o cumprimento de uma decisão relacionada à carreira. Ar condicionado melhora a sala, mas não substitui respeito profissional, segurança jurídica nem solução salarial. A escola pode estar climatizada e o relacionamento do governo com o magistério continuar em temperatura de incêndio. A pergunta essencial ficou sem resposta: qual é a proposta concreta e quando o impasse termina?
Na saúde, o governador preferiu construir uma vitrine com o Hospital do Câncer e investimentos apresentados como símbolos de uma gestão bem-sucedida. É compreensível que um candidato exiba aquilo que considera seu melhor figurino administrativo, mas governar não é escolher apenas o ângulo mais elegante da fotografia. O cidadão avalia a saúde pela consulta que consegue marcar, pelo exame que não demora uma eternidade, pela cirurgia que sai e pela porta hospitalar que efetivamente se abre. Invocar grandes obras sem enfrentar a experiência diária de quem depende da rede pública transforma propaganda em analgésico: alivia o discurso por alguns minutos, mas não trata a doença. Fábio apresentou a promessa institucional da saúde, quando o eleitor queria ouvir sobre a realidade humana da fila.
Até nas propostas de futuro, a entrevista deixou perguntas maiores que os anúncios. O VLT de aproximadamente setenta quilômetros e investimento estimado em R$ 600 milhões parece sedutor, assim como os bilhões ligados ao petróleo, ao gás e ao descomissionamento de plataformas. Mas estudo não é obra, previsão não é dinheiro garantido e investimento nacional não significa automaticamente emprego para sergipano. Faltaram cronograma, projeto executivo, recursos assegurados, custo de operação e metas de contratação local. Depois de três anos e meio, Fábio já não pode apresentar intenção como se fosse estreia. Quando um governador promete o futuro, o eleitor tem o direito de perguntar por que essa pressa visionária só ganhou nitidez justamente quando a campanha chegou.
Comparando erro com erro e promessa com promessa, a entrevista de Valmir de Francisquinho foi mais plausível. Não necessariamente porque tenha respondido tudo ou apresentado soluções imunes à crítica, mas porque conseguiu desenhar caminhos mais compreensíveis e transmitir a sensação de que sabia aonde queria chegar. Fábio, mesmo mais treinado, mais informado e protegido pela experiência do cargo, ficou preso à difícil tarefa de explicar por que os problemas que herdou continuam sendo herança depois de quase um mandato. Ao dizer que “Sergipe sabe escolher”, tentou transformar a eleição em reconhecimento de sua gestão. Talvez tenha razão sobre a capacidade de escolha do povo. O risco para ele é que Sergipe também saiba comparar. E, naquela noite, Valmir apresentou horizonte, enquanto Fábio ofereceu justificativas.




