O Rio Sergipe não é apenas um traço azul no mapa. É memória, trabalho, alimento e parte da identidade de um povo que aprendeu a viver olhando para suas águas. Mas o retrato apresentado pelo Ministério Público Federal merece indignação: nas vistorias de 5 e 17 de novembro de 2025, realizadas com apoio da Marinha, foram identificados trechos com erosão, assoreamento e instabilidade das margens. Não se trata de boato de beira de cais. São constatações oficiais, registradas para orientar providências ambientais. Enquanto a natureza dá sinais de desgaste, a população merece saber o que já foi recuperado. Rio não precisa de discurso emocionado em solenidade. Precisa de proteção permanente.
O Governo de Sergipe, por meio dos órgãos competentes, deve explicar quais medidas adotou ou planeja adotar diante desse diagnóstico, quanto pretende investir e como acompanhará os resultados. A Adema tem responsabilidade no licenciamento e na fiscalização dentro de suas atribuições, mas a recuperação de uma bacia envolve também municípios, União e responsáveis por impactos específicos. É fácil anunciar projetos e inaugurar placas; difícil é apresentar cronograma, meta e margem recuperada. O rio não lê postagem oficial, não aplaude cerimônia e tampouco se cura com fotografia de autoridade de colete. Se a gestão tem ações concretas, que as apresente com documentos, valores e prazos.
O Ministério Público Federal já fez a sua parte ao levar equipes ao rio e produzir evidências. Agora é legítimo cobrar o acompanhamento dos encaminhamentos e a atuação articulada com o Ministério Público de Sergipe, especialmente suas Promotorias com atribuição na defesa do meio ambiente. Que se esclareça quais áreas exigem intervenção urgente, quais empreendimentos devem cumprir medidas mitigadoras ou compensatórias e como serão ouvidas comunidades ribeirinhas e pescadores. O próprio MPF apontou possibilidades como plantio de mangue e técnicas de estabilização. Fiscalizar não é perseguir o desenvolvimento. É impedir que o preço de uma obra seja cobrado, silenciosamente, da natureza e de quem depende dela.
Há algo profundamente injusto quando uma cidade celebra a paisagem do rio, mas trata sua recuperação como assunto para amanhã. Amanhã pode significar mais sedimentos, margens frágeis e riscos para um patrimônio que não pertence a nenhum governo. Sergipe precisa de crescimento, pontes e investimentos, sim, mas precisa igualmente de licenciamento sério, transparência e compromisso com a vida. O apelo é simples: Governo do Estado, órgãos ambientais e instituições de controle, apresentem o diagnóstico completo, um plano de recuperação verificável e prestação pública de contas. Porque a natureza não dispõe de assessoria de imprensa para responder a promessas. Quando o Rio Sergipe perde suas margens, é a nossa própria história que começa a desmoronar. Já se passaram mais de um ano e não temos respostas. Com a palavra o MPF e MPE!




