O Governo de Sergipe decidiu olhar longe: publicou em março de 2026 o Decreto nº 1.403, com diretrizes para enfrentar a violência contra a mulher até 2033. Planejar é necessário. O problema começa quando o calendário ganha mais destaque do que a mulher que precisa de socorro nesta noite. Uma vítima ameaçada não pode esperar o próximo ciclo de metas, a reunião intersetorial ou a fotografia da assinatura oficial. O compromisso do governador Fábio Mitidieri precisa ser medido por proteção efetiva, não pelo tamanho do horizonte escrito no papel. Porque agressor não consulta plano estratégico antes de bater à porta.
Há políticas e resultados que merecem registro: na primeira fase da Operação Mulher Segura, entre fevereiro e março, a polícia contabilizou 52 prisões, 83 medidas protetivas acompanhadas e 311 vítimas atendidas. A Casa da Mulher Brasileira informou 1.001 atendimentos de junho a agosto, dos quais 73% envolveram residentes de Aracaju. São iniciativas relevantes, mas também provocam perguntas incontornáveis: como se distribui a proteção fora da capital? Quantas mulheres conseguem acolhimento imediatamente, sem percorrer repartições? Quantas medidas protetivas recebem fiscalização sistemática? A publicidade costuma anunciar o número de atendimentos; a fiscalização precisa examinar a qualidade e a continuidade da assistência.
Um levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas em 2026 acrescenta um retrato desconfortável: os municípios declararam 4.415 casos de violência contra a mulher, mas apenas 49,3% informaram possuir protocolo formal de atendimento e 46,7% disseram ter canal próprio para denúncias. Esses dados municipais não podem ser atribuídos automaticamente como falha exclusiva do governo estadual; mostram, porém, a dimensão do desafio de coordenar uma rede de proteção que depende de Estado e prefeituras. O que Sergipe precisa conhecer é o orçamento executado, a presença de equipes especializadas, os tempos de resposta e os protocolos reais de encaminhamento. Rede de proteção não pode ser uma expressão bonita que termina exatamente onde começa a necessidade.
Combater a violência contra a mulher exige polícia preparada, atendimento humanizado, saúde, assistência social, Justiça e mecanismos para interromper o ciclo de ameaças. Exige também transparência: indicadores comparáveis, metas acompanhadas publicamente, avaliação independente e correção rápida do que não funciona. O governo deve prestar contas dos avanços, sem esconder as lacunas; os municípios precisam responder por sua parte. Não se trata de desmerecer o planejamento até 2033, mas de lembrar que a urgência tem endereço, telefone e rosto. Se a gestão consegue organizar uma agenda para os próximos sete anos, precisa demonstrar como protege a mulher nos próximos sete minutos. O calendário administrativo pode esperar pela próxima solenidade. A vítima, não.




