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Editorial: ANDRÉ MOURA VIROU PROBLEMA OU DESCULPA?

Na política sergipana, o abraço de campanha costuma ter prazo de validade menor que promessa de palanque. André Moura percorreu municípios, articulou prefeitos, reuniu lideranças e dividiu com Fábio Mitidieri a tarefa de construir uma vitória eleitoral. Não elegeu a si próprio senador: recebeu 377.669 votos e ficou fora das duas vagas, conquistadas por Rogério Carvalho e Alessandro Vieira. Daí nasce uma pergunta incômoda: por que a máquina de alianças que funcionou para reeleger o governador não produziu o mesmo resultado para o candidato ao Senado de sua chapa? É fácil posar para a fotografia com o aliado. Difícil é explicar o que aconteceu quando as urnas revelaram que o retrato não correspondia inteiramente ao voto. O broche no peito do governador era visível; o empenho de todos os seus aliados por André, nem tanto.

Circulam no ambiente político relatos de que integrantes da base e pessoas ligadas a áreas como Educação, Saúde, Assistência Social, Meio Ambiente e articulação governamental deram preferência eleitoral a Rogério Carvalho ou Alessandro Vieira. São afirmações que pedem nomes, evidências e o exame da atuação de cada agente, especialmente porque apoio partidário não se confunde automaticamente com uso da estrutura administrativa. Mas a cobrança política é legítima: houve orientação clara para defender a chapa integral ou cada aliado recebeu licença informal para escolher seu senador? Se o governador sustenta que apoiou André, cabe explicar o alcance desse apoio e se procurou coordenar sua base. A pergunta não transforma Fábio em culpado pela derrota, tampouco apaga a autonomia do eleitor. Apenas lembra que liderança política não se mede pela quantidade de adesivos na lapela, mas pela capacidade de reunir aliados em torno de um compromisso.

O segundo turno presidencial virou uma justificativa conveniente para novos atritos. André seguiu a orientação nacional da Federação União Progressista e apoiou Flávio Bolsonaro; Fábio permaneceu com Lula. O curioso é que André não estava sozinho. Gustinho Ribeiro, Laércio Oliveira, Yandra Moura e Capitão Samuel também participaram do movimento político favorável a Flávio. Por que a cobrança pública se concentrou tanto em André? Jackson Barreto elevou o tom ao associá-lo às milícias do Rio de Janeiro, afirmação grave que não prova qualquer vínculo criminoso e exige responsabilidade de quem a profere. Divergência eleitoral merece debate, não sentença improvisada em microfone. O próprio Fábio reconheceu a orientação partidária de André e disse respeitá-la. Se o governador respeita em público, importa saber como seus interlocutores se comportam nos bastidores. Uma aliança não acaba necessariamente com uma ruptura anunciada; às vezes termina em pequenas doses de silêncio.

A presidência da Assembleia Legislativa acrescenta outra frequência à sintonia entre AM e FM. O União Brasil elegeu seis deputados estaduais; o PSD, cinco. Cristiano Cavalcante, reeleito e integrante do União Brasil, colocou seu nome à disposição e defendeu uma alternância entre as legendas, mencionando Jorginho Araújo, do PSD. Há notícias de entendimento sobre o primeiro biênio, mas a decisão cabe aos deputados, em eleição interna. A eventual apresentação de Marcelo Sobral como alternativa e as resistências a nomes específicos merecem confirmação pública dos envolvidos. De todo modo, a disputa evidencia uma questão concreta: o governador aceitará negociar o comando da Casa com aliados de peso ou a preferência do PSD se tornará condição de fidelidade? A Alese não é extensão do gabinete do governador. E a matemática parlamentar, ao contrário de certas fotografias de campanha, não permite apagar uma cadeira com edição de imagem.

Outra conversa que circula nos bastidores envolve a Secretaria da Agricultura, hoje associada politicamente ao espaço de André, e a hipótese de que essa estrutura seja redesenhada em favor do PT. Não há confirmação suficiente, até aqui, para tratar uma eventual substituição ou transferência como decisão tomada. Justamente por isso, a resposta precisa vir dos interessados, com transparência sobre critérios administrativos e compromissos políticos. Também não há prova de que Fábio tenha autorizado uma operação para expulsar André de seu círculo; o que existe são divergências públicas e perguntas concretas sobre reciprocidade, espaços de poder e disciplina da base. A sintonia AM e FM, vendida como harmonia durante a eleição, parece enfrentar interferências. Cabe ao governador dizer se continuará conduzindo a própria orquestra ou se permitirá que cada músico toque uma partitura diferente. Porque, em Sergipe, a ingratidão pode até não deixar registro em ata, mas costuma fazer um barulho danado quando o som do palanque é desligado.

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