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Enem: o futuro cabe num abraço

Neste domingo, 8 de novembro, minha neta de 15 anos vai fazer o Enem pela primeira vez. Está no primeiro ano do ensino médio e será treineira. Para ela, é uma experiência; para o coração de um avó, parece que foi ontem que aquela menina aprendia a escrever o próprio nome. Agora, prepara a caneta preta, confere o documento, pergunta se vai dar tempo e tenta esconder o frio na barriga. Eu olho e vejo duas crianças na mesma pessoa: a que ainda merece colo e a jovem que já começa a escolher seus caminhos. Imagino quantas mães acordaram mais cedo para preparar um café, quantos pais revisaram o trajeto pela terceira vez e quantas avós fizeram, em silêncio, a oração que não cabe no grupo da família. Há quem coloque uma mensagem de incentivo no WhatsApp; há quem apenas ajeite a gola da camisa, porque o amor também fala sem palavras. Antes de desejar uma boa nota, eu queria dizer a cada estudante: você já é motivo de orgulho.

Em Sergipe, são 78.224 inscritos, e cada inscrição guarda uma história que as estatísticas não conseguem contar. Nas redes sociais, entre dicas, memes e vídeos de revisão, aparecem o medo de decepcionar a família, o desejo de cursar Medicina, Direito, Pedagogia ou Computação, e aquela pergunta que quase ninguém admite: “E se eu não conseguir?”. Um aluno de Lagarto, Vitor de Santana Nascimento, com deficiência visual, contou durante a revisão final que sonha ser programador. Sua ambição não precisa de piedade, precisa de oportunidade. E uma mãe sergipana, Maria Ivone, falou da alegria de ver a filha surda participar da preparação com acessibilidade. Há também o adolescente da escola particular com apoio de plataformas e aulas extras, e o da escola pública que concilia estudo com a distância, o trabalho em casa e uma internet que nem sempre ajuda. O Enem entrega o mesmo caderno a todos, mas a vida não oferece a mesma mesa de estudos. É por isso que o jovem precisa de incentivo, não de uma cobrança capaz de transformar sonho em sofrimento.

O Governo de Sergipe anunciou 395 veículos em 336 rotas para levar mais de 11 mil estudantes da rede estadual aos locais de prova, incluindo, neste ano, os treineiros do primeiro e segundo anos. É uma providência valiosa, sobretudo para quem mora longe. Mas a pergunta que continua necessária é simples: algum jovem ficará pelo caminho, esperando um transporte que não chegou? Na segunda-feira, outro retrato da educação começa a ser desenhado: 7.300 alunos de 46 escolas municipais de Aracaju farão, até 27 de novembro, as avaliações do Saese, em Português e Matemática. Uma prova abre a perspectiva da universidade; a outra mede a aprendizagem que deveria preparar essa caminhada desde cedo. Entre aplicativos, inteligência artificial, videoaulas e simulados, a tecnologia pode ensinar muita coisa. Não pode, porém, segurar a mão de uma criança que teme fracassar. Isso ainda é tarefa de gente: família, professores, escola e poder público, cada qual assumindo a sua parte.

Por isso, hoje, meu pedido aos pais e às mães é pequeno e imenso: abracem seus filhos antes da prova. Não perguntem apenas quantas questões vão acertar. Perguntem se dormiram bem, se estão com medo, se precisam ouvir que o amor de vocês não depende de uma nota. Aos avós, fica o direito de se emocionar sem pedir licença. Aos treineiros, como minha neta, digo: vocês não precisam provar nada hoje; estão aprendendo a conhecer um desafio, e isso já é bonito. Aos que tentam pela segunda ou terceira vez, lembrem-se: recomeçar não diminui ninguém. Confiram o local, levem documento oficial com foto e caneta preta de material transparente, e cheguem antes das 13 horas, quando os portões se fecham. Depois, respirem. A folha de respostas não mede a bondade, a coragem nem tudo o que vocês ainda podem ser. Que Deus proteja cada menino e cada menina que sai de casa com um sonho na mochila. E que, na volta, qualquer que seja o resultado, haja uma porta aberta, um abraço demorado e alguém dizendo: “Que bom que você chegou. Tenho muito orgulho de você”.

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