O sol manso de domingo pela manhã dourava a Praia do Refúgio em Aracaju, enquanto caminhávamos sem pressa. O mar parecia uma testemunha silenciosa de tantas histórias que vêm e vão com as ondas, como as ondas…Foi quando uma parada rápida de um amigo que estava conosco interrompeu nosso passo, mas foi um olhar atento que mudou o rumo daquela manhã e do dia.
“Olha ali”, com o coração já na ponta dos olhos. Virei-me e vi a cena: uma senhora de joelhos na areia e um senhor, ao seu lado, curvado, tentando levantá-la com o cuidado de quem carrega um cristal precioso. O instinto humano — aquele que nos faz correr antes mesmo de pensar — falou mais alto. Não deu tempo de pedir licença. Só rompi o espaço entre nós e segurei o braço dela. — A senhora está bem? Caiu? Consegue se levantar? — perguntei, com o fôlego curto da preocupação.
O que se seguiu foi um resgate de poesia pura. Aqueles fios brancos traziam o sotaque doce de Minas Gerais e o aconchego do Rio Grande do Sul. Ela, de Três Corações; ele, de Santa Maria. Duas linhas geográficas que se cruzaram e caminham juntas há 59 anos. Estavam ali, vivendo o último dia de férias na nossa Aracaju e fazendo algo inimaginável, mas humano… Ela olhou para mim, com a serenidade de quem tem o coração blindado pelo afeto, e desarmou toda a minha urgência com um sorriso carinhoso:
— Não se preocupe! Não caí: estava vivendo um sonho. E ele o fotografou, disse-me doce e sorridentemente.
Rimos juntos… eu, com o peito aliviado e a alma escancarada. Ela não tinha tropeçado na areia: tropeçou na própria felicidade de estar viva, ali, presente, grata pelo instante. E ele, o eterno companheiro, não tentava apenas erguê-la, mas acompanhá-la nesse sonho simples e muito abrangente de anos. Eles ainda sabiam ajoelhar-se diante da beleza do mundo. Se a gravidade insiste em nos puxar para o chão, o amor daquela mineira e daquele gaúcho provou que a gente também pode cair para cima, direto no meio de um sonho. O sonho dessa senhora era simples, mas de uma profundidade imensa: ser fotografada com a água do mar, passando por cima de seu corpo.
Quanta amorosidade, quanta completude e sensibilidade! Para muitos, pode parecer apenas um registro de viagem; para ela, era um ritual de renascimento. Esse gesto carregava o simbolismo da entrega total à vida. Deixar-se banhar pelas ondas, caída e, depois, de joelhos na areia, significa purificação, a lavagem do tempo e a celebração da própria longevidade. Inclui o desafio da conquista e de se superar.
A água que passa pelo corpo não machuca, mas acolhe, renova as forças e abençoa uma trajetória que já dura quase seis décadas ao lado do mesmo amor. Estar ali, entregue à imensidão do Atlântico, era a sua forma mais pura de dizer “obrigada” ao universo. Ao eternizar aquele instante, seu apaixonado e cuidadoso marido não capturou apenas a espuma do mar, tocando a pele da sua mulher… Eternizou a sua alma que, mesmo com o peso dos anos, mantém o coração jovem o suficiente para se emocionar com o toque da natureza.
Voltei para casa certo de que o amor e a vida, quando vividos de verdade, nos fazem ajoelhar diante do mundo — não por fraqueza, mas por pura gratidão. Viver, afinal, é ter para onde voltar em pensamento quando o corpo pedir sossego. O sonho daquela menina de cabelos brancos nos lembra que a motivação para acordar amanhã seja tal qual a teimosia de querer sentir a água do mar, batendo nos pés e cobrindo o corpo, com a certeza de ter alguém, ali e do lado, pronto para registrar a intangibilidade do instante mágico.
E ele, o seu marido, eterno fotógrafo, conseguiu capturar o exato milésimo de segundo em que o tempo para, a alma sorri e a vida cochicha no ouvido de ambos: “Viu só? Valeu a pena cada curva do caminho até aqui”. Enquanto houver um sonho para molhar o corpo e um amor para acompanhar o instante, haverá, sempre e acima de tudo, motivos de sobra para viver… … motivos de sobra para viver e agradecer.




