O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou no Vaticano com um objetivo claro: reafirmar o Brasil como potência moral no debate sobre desigualdade e fome. E, convenhamos, nada melhor do que fazer isso ao lado do Papa Leão XIV, o novo rosto do catolicismo social. O encontro aconteceu nesta segunda-feira, 13 de outubro de 2025, durante o Fórum Mundial da Alimentação da FAO, em Roma.
Ali, Lula celebrou um feito que ele gosta de repetir em alto e bom som: o Brasil saiu do Mapa da Fome pela segunda vez. O presidente ainda aproveitou o momento para convidar o Papa para a COP30, que será realizada em Belém, no Pará, no próximo ano. O pontífice, polido e estratégico, agradeceu e prometeu enviar uma delegação, já que o Vaticano estará imerso nas celebrações do Jubileu.
A cena: o sindicalista diante do Papa
Na Biblioteca do Palácio Apostólico, Lula e Janja foram recebidos por Leão XIV em um clima de cordialidade quase litúrgica. Durante cerca de 30 minutos, o brasileiro fez o que sabe fazer melhor: misturar carisma com discurso político. Disse que “a fé e o compromisso social precisam andar juntos” e lembrou nomes históricos da Igreja no Brasil — Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Luciano Mendes e Pedro Casaldáliga — para reforçar que o combate à fome é, também, uma missão espiritual.
O Papa, por sua vez, falou sobre sua Exortação Apostólica Dilexi Te, um documento que prega o amor ao próximo e a responsabilidade social da Igreja. Lula não perdeu a deixa: elogiou o texto e sugeriu que “a mensagem papal precisa ser lida e praticada por todos”. Soou como uma piscadela ao eleitorado católico, especialmente num país onde a fé ainda move votos.
O discurso da vitória: Brasil fora do Mapa da Fome (de novo)
A principal carta de Lula na visita foi o retorno do Brasil à lista dos países fora do Mapa da Fome. Segundo dados da FAO, menos de 2,5% da população brasileira vive hoje em insegurança alimentar grave. É um número expressivo, ainda que contestado por especialistas. Mas, para o governo, é o símbolo de um país “de volta ao mapa do protagonismo”.
Lula disse que tirou 30 milhões de brasileiros da fome em dois anos e meio e agora quer exportar essa experiência ao mundo. No Fórum da FAO, apresentou a ideia da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, um projeto ambicioso que pretende unir países do Sul global em torno de políticas alimentares inclusivas.
É a diplomacia da panela cheia — e, convenhamos, uma narrativa perfeita para redes e manchetes.
Fé, COP e geopolítica: o convite que vale uma foto
Ao final do encontro, Lula entregou um convite formal para o Papa participar da COP30, em Belém. O gesto é simbólico: levar o líder da Igreja Católica ao coração da Amazônia seria uma jogada de mestre para o marketing ambiental do governo. Mesmo sem presença garantida, só a menção do convite já rendeu manchetes mundo afora.
O presidente ainda brincou dizendo que o Papa “será recebido com o carinho e a fé do povo brasileiro”, mencionando o Círio de Nazaré e a devoção a Nossa Senhora Aparecida — um lembrete de que o catolicismo ainda é uma ponte poderosa entre o Planalto e o povo.
O outro lado do altar: discurso e realidade
Por trás da liturgia e das fotos oficiais, há um ponto que merece reflexão. A retórica de combate à fome, embora nobre, serve também como blindagem política. E Lula sabe disso. Com inflação alta e desgaste no Congresso, falar de justiça social ao lado do Papa é o tipo de imagem que rende mais que mil discursos em Brasília.
Mas a pergunta que fica é simples: quantos pratos estão realmente cheios fora do Vaticano?
Enquanto Lula fala de “mapas da fome”, milhões de brasileiros ainda dependem de doações e programas emergenciais. A diplomacia da fé é bonita no papel, mas o prato vazio ainda não virou peça de museu.
Conclusão
O encontro entre Lula e o Papa Leão XIV foi, acima de tudo, um ato de marketing político e moral. Um jogo de símbolos no qual o governo tenta mostrar que o Brasil voltou — não só à mesa do mundo, mas também ao altar da boa imagem internacional.
A foto com o Papa é poderosa. Mas, no fim, o que vai pesar mesmo é o que acontece fora da moldura: a luta diária de quem ainda espera o pão que a diplomacia promete.
E você, acredita que o Brasil realmente saiu do Mapa da Fome — ou essa vitória é mais simbólica do que real?
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Fontes Principais:
Vatican News, Agência Brasil, Gov.br, Veja, Exame, Pláto BR.




