Desde menina, trago comigo o amor pelos animais como quem carrega uma parte da própria alma. Eu tinha uns dez anos quando meu pai me deu meu primeiro cachorro,um salsichinha de nome Xang, o companheiro mais fiel que já tive. Cresci com ele, aprendi o sentido de lealdade e chorei como uma criança quando ele se foi. Por um tempo, jurei que não teria outro. Mas o amor pelos bichos é teimoso: volta, pede colo e vence a razão. Vieram outros Xangs, e hoje divido a casa com dois gatos: Chico e Madalena, meus filhos de quatro patas, minha companhia e, de certa forma, meu espelho.
Abro este texto assim, falando de mim, porque acredito que o amor aos animais é também um ato de verdade emocional. É desse lugar o de quem vive, ama e respeita os bichos todos os dias que escrevo sobre um fenômeno cada vez mais evidente: o da política que se veste de afeto, mas se despe de responsabilidade.
Nos últimos anos, multiplicaram-se os discursos de candidatos que se apresentam como defensores da causa animal. Falam com ternura, posam com filhotes, prometem abrigos, castrações, campanhas, leis. Por um instante, muitos de nós acreditamos. Eu mesma me emocionei com a ideia de ver a pauta animal tratada com a dignidade que merece. Mas a experiência nos ensina: discursos não salvam vidas. Ação salva. Estrutura salva. Política pública salva.
O tempo, porém, é implacável com as narrativas. Passadas as eleições, o que se vê é o silêncio das realizações. As promessas viram postagens, as causas viram vitrines e a bandeira pet, tão nobre, vira adereço de campanha.
Um episódio recente mostrou com clareza esse abismo entre o dizer e o fazer. Em Itabaiana, mães de crianças de uma creche reclamaram da presença constante de animais de rua no pátio. Algumas crianças ficaram doentes, outras desenvolveram alergias. O secretário de Educação local, ao tentar explicar o problema, fez um comentário mal interpretado, considerado “infeliz” por parte do público. Mas o que ele descrevia era real: um problema de saúde pública.
A situação exigia serenidade e soluções, recolhimento humanitário, vacinação, castração, educação sanitária, mas acabou virando palco de indignações performáticas. Discursos inflamados substituíram propostas. O essencial se perdeu: como conciliar o cuidado com os animais e a proteção das crianças? Não se trata de escolher entre um e outro, trata-se de ter gestão, planejamento, sensatez.
E é aqui que a pergunta se impõe: onde estão os abrigos prometidos? Onde estão as casas de acolhimento, os institutos de proteção, as campanhas de castração e vacinação? Estão funcionando? Têm estrutura? Prestam contas? Ou ficaram nas redes sociais, entre fotos e frases de efeito?
Essas perguntas não são cruéis, são urgentes. Porque a causa animal não precisa de palanque, precisa de políticas sérias. Animais abandonados são também vítimas do descaso e do improviso. E quando a política prefere aparecer a agir, quem perde são eles e também nós. No caso em tela, uma ativista me disse, com amarga lucidez: “A causa animal virou vitrine, não política pública.” A frase é simples, mas devastadora. Ser símbolo é fácil; ser solução, não.
Enquanto isso, cães e gatos seguem nas ruas, abrigos lutam com doações escassas, e mães continuam temendo pelas crianças nas escolas. O problema não está em amar os bichos, está em transformar esse amor em ação concreta, em estrutura, em compromisso real. É possível, e necessário, cuidar dos animais e das pessoas. A compaixão não é seletiva; é responsabilidade compartilhada.
Falo aqui não como adversária de ninguém, mas como alguém que um dia acreditou. A causa animal é maior do que qualquer nome, partido ou mandato. Ela é ética, empatia e compromisso coletivo. Quem a adota como bandeira deve lembrar que quem levanta uma bandeira precisa sustentá-la com as duas mãos e com ações, não palavras.
Hoje, ao olhar para Chico e Madalena brincando pela casa, lembro de Xang e do que ele me ensinou: amor é constância, e constância é compromisso. Que os que se dizem defensores dos animais saibam que o amor verdadeiro não se anuncia, se demonstra.





Uma resposta
Você está escrevendo muito bem
Com clareza e mostrando o problema com realidade nua e crua
Parabéns continue nessa linha com clareza e objetividade .