A Câmara de Aracaju derrubou oito dos doze vetos apresentados à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, mas deixou uma pergunta sem resposta: quem assumirá as consequências práticas das decisões? No plenário, prevaleceram propostas socialmente atraentes, recheadas de boas intenções e capazes de produzir discursos emocionados. O problema é que orçamento público não se sustenta apenas com aplausos. Cada obrigação precisa de planejamento, competência legal, previsão financeira e condições concretas de execução.
As razões dos vetos foram construídas a partir de análises da Seplog, da Secretaria Municipal da Fazenda e da Procuradoria Geral do Município. Os pareceres apontaram riscos de invasão da competência administrativa, criação de despesas, duplicação de normas, exposição indevida de dados e limitações à gestão orçamentária. Mesmo assim, muitos vereadores preferiram transformar questões técnicas em disputas políticas. Aprovar uma ideia no plenário é fácil. Difícil é administrar o caixa, garantir os serviços e encontrar dinheiro quando a promessa finalmente chega à porta da Prefeitura.
Algumas propostas tratavam de temas importantes, como prevenção ao suicídio, combate à ludopatia, Tarifa Zero e transparência. Ninguém razoável pode ser contra essas finalidades. Entretanto, defender uma causa não significa aceitar qualquer texto ou qualquer mecanismo. A Câmara poderia ter corrigido redações, construído soluções com o Executivo e apresentado alternativas financeiramente sustentáveis. Em vez disso, derrubou vetos e entregou ao Município a obrigação de resolver problemas que os próprios parlamentares não demonstraram como financiar ou executar.
A maior fragilidade, porém, apareceu na condução política de Vinícius Porto. Como líder da prefeita, cabia a ele explicar os vetos, organizar a bancada e construir maioria. O resultado foi exatamente o contrário. Aliados do Governo ajudaram a derrubar praticamente todos os pontos rejeitados pelo Executivo, inclusive em votações de 19 a zero e 18 a zero. No caso da ludopatia, Vinícius começou defendendo a manutenção do veto, ouviu os discursos dos colegas e terminou votando pela derrubada. Mudar de opinião é um direito de qualquer vereador, mas um líder que entra para convencer e acaba convencido demonstra que chegou ao plenário sem articulação suficiente.
No final, a Câmara ficou com o discurso das boas intenções, enquanto a responsabilidade de fazer a cidade funcionar continuou no mesmo endereço. Os vereadores celebraram a derrubada dos vetos, mas será a administração municipal que precisará compatibilizar as decisões com o orçamento, a legislação e a realidade dos serviços públicos. A população deve acompanhar não apenas quem levantou a mão para aprovar propostas populares, mas quem apresentou cálculo, fonte de recursos e solução possível. Porque promessa cabe em qualquer discurso. Já responsabilidade exige muito mais do que um voto no painel.




