Na vastíssima Floresta de Jurídica, onde cada árvore tem uma jurisprudência própria e cada cipó cita um precedente do STF, aconteceu, nesta semana, um daqueles episódios que o fabulista, este que vos fala, só acredita porque viu, leu, respondeu e, depois, precisou gargalhar para não chorar. Chegou-me um questionário oficial da Ordem dos Bichos da Floresta,. Tema: eleições para o Quinto Constitucional. Até aí, nada de mais. O extraordinário começou nas perguntas: — Você votaria no candidato do Governador? — Você votaria no candidato da OAB?
O bosque inteiro prendeu a respiração. Pássaros interromperam o canto, o Jacaré Cícero esqueceu a fome, e até a Preguiça Inácio Kraus abriu um olho. Na floresta institucional, Fábio Mitidieri é o Leão do Executivo, ruge decretos, assina orçamentos e, quando o Quinto chega à reta final, escolhe um nome dentre a lista tríplice. Ponto. Não caça voto no curral dos advogados.
— “Desculpem, mas… candidato do Governador?” — bufou o Rinoceronte Juvenal Francisco, batendo o casco no chão, fazendo tremer as súmulas. — “Isso está mais torto do que rabo de jacaré depois de uma enchente!”
E a outra pergunta, então?
— “Candidato da OAB?” — arregalou os olhos a Coruja Clara Machado, ajeitando os óculos de lentes redondas. — “Meus filhotes, desde quando a instituição tem candidato? A OAB organiza, fiscaliza, civiliza. Mas não escala atacante nesse jogo. Se a OAB tem candidato, a eleição já nasceu viciada!”
No centro do redemoinho, o Leãozinho Daniel (que preside a Ordem) ajeitava a juba para a foto, posava com o Pavão Márcio Macedo, gargalhava com o Macaco Getúlio Sobral e… não conduzia coisa alguma: o processo, há mais de um ano, seguia atolado, enquanto a cadeira do Quinto permanecia, circunstancialmente, sob a guarda de um magistrado de escol, grande intelectual, professor de Direito Processual, que dignifica a vaga e a representa com destaque, Manoel Costa Neto, o Elefante do TJ da Floresta, pela inteligência que lhe é própria, apenas cumpria tabela, à espera de que a Ordem finalmente retomasse a direção do rito com a seriedade que o momento exigia, claro que sem apego ao cargo.
As perguntas do questionário abriram a porteira para um leilão de candidaturas. Na beira do rio, a Lebre Ana Lúcia Aguiar, mensageira elétrica, correu de tocas em tocas, contando: — “Atenção, atenção! O Governador teria candidato, a OAB teria candidato, o Tribunal teria candidato, a Defensoria teria candidato, a Procuradoria teria candidato, o Ministério Público, pasmem! — também teria candidato! Só quem não tem candidato é quem tem juízo!”
O rumor se espalhou como fogo em mato seco. De repente, a mata tinha figurino completo: O Tucano Vitor Barreto, elegante, bico afiado, “animal bonito, que roda bem”. Seria ele “o candidato da instituição”?; O Macaco Getúlio Sobral, fotogênico, “sempre na foto com o Leãozinho, MP, Marinha do Brasil e até Almir do Picolé. Saltando da copa do Tribunal ao galho do Ministério Público com a flexibilidade de quem sabe onde pousar? A Pantera Negra Éden Augusto, andar de veludo, fala baixa, “advogado leve” que não se mistura a bailes de penas abertas? O Tamanduá Carlos Pina, faro fino, língua longa para formigueiro burocrático, Procurador-Geral que, feito bicho esperto, percebeu que “isso vai longe” e voltou ao cargo público ? O Pavão Márcio Conrado, ora chamado de Conrado, ora de Márcio, o lindo? Robson Millet, da Defensoria, com postura de quem defende quem precisa, logo candidato da Defensoria? Carla Carolina, a Cutia, também da defensoria, focada, do tipo que atravessa a clareira com a pasta na boca sem derrubar um único papel?
Do lado das togas, falava-se que o Leão do Ministério Público, chamemo-lo de Nilzir, teria “um preferido”. — “Quem? Quem? Quem?” — ecoaram as araras. — “Ora, perguntem ao Macaco Getúlio, ele bate muita foto com todo mundo”, sussurrou o Lagarto Jenison Cruz, espreguiçando-se ao sol. — “Eu, por mim, pego mais cor e menos confusão.”
No espelho d’água, o Pavão Conrado praticava o rodopio, e as penas, vaidosas, aplaudiam a si mesmas. — “Queridos, queridos, queridíssimos,” dizia o Pavão, numa voz que penteava o ar, “se a floresta inteira me quer, o que posso eu fazer? Não posso negar o que o espelho grita!”
Lá de baixo, o Jacaré Cicero abriu o bocão: — “Pavão, desce mais um tantinho pra gente conversar sobre humildade…” O Macaco Getúlio quase caiu do galho de tanto rir: — “Ká.. ká…ká! Jacaré, fecha a boca que a maré está subindo; se não, engole só vento e sai falando grosso!”
A Cabra Tatiana Silvestre bateu os cascos e discou para Marília Menezes, a ex-CAM de causas difíceis: — “Marília, explique-me: para que me inscrever se a OAB já tem candidato? E se o Governador também tem? Eu vou concorrer contra um arranjo? Contra uma pesquisa indecente?” Marília, que já farejou muita trilha falsa, respondeu: — “É pergunta indecente, é pergunta louca, é pergunta que desrespeita o rebanho. Se a eleição não é imparcial, não é eleição, é teatro sem plateia.”
O Pastor Alemão Alessinho entrou na linha, deixou de ser pastor e latiu como um Golden: — “Essa pesquisa não se sustenta. É como querer ensinar Constituição ao vento: ele escuta, mas não obedece.” A Pantera Éden ronronou: — “Meu amigo, se o Leãozinho tem candidato, e se o Tribunal tem um Pavão de estimação, e se o Governador virou oráculo de preferência… então a caça virou carrossel. Eu, pantera, não corro atrás de plumas.”
O Lobo Fabiano Feitosa caminhava de orelhas atentas, farejando a ventania. Tocou-lhe o Tamanduá Carlos Pina: — “Lobo, seja franco: quem é o candidato do Governador?” — “Pode ser você, pode ser o Pavão, pode ser o Jacaré, pode ser a Ursa Clarice (filha do bravo Eduardo, urso das bibliotecas), pode ser até o Gato Coroa Waguinho que nem candidato é e passa invisível na margem com sua lancha cheia de gatas. Eu, Lobo, sigo leve. Quem corre demais não enxerga o abismo.” O Tamanduá coçou o focinho: — “E se for eu?” — “Então será você. E se não for, não terá sido. Leveza, meu amigo. Le-ve-za.”
Super Mouse Aurélio Belém com capa de urgência e botas de pressa, varria a mata como um vendaval: — “Preguiça Inácio, meu conselheiro, diga-me: isso tem solução?” A Preguiça Inácio Krauss abriu um olho, depois o outro, alongou uma sílaba: — “Soooo-luuuu-çãooo… tem, sim. Mas não com o Leãozinho. O processo já mofou. A cadeira do Quinto ficou ocupada por magistrado enquanto o questionário da Ordem virava charada de salão. O primeiro passo é parar de brincar com o tabuleiro.” — “Mas e se eu correr mais?” — insistiu ABES. — “Se correr mais, passa da porta.”
Da varanda com vista para o mar, o Caçador CAM (Carlos Augusto Monteiro) girava uma taça de vinho (Angélico Zapata), rótulo que só aparece para quem caça as próprias tempestades no exterior. Olhou para o horizonte, ligou o viva-voz e chamou: — “Leãozinho.” — “Padrinho?” — miou o Leãozinho. — “Você mandou fazer uma pesquisa com perguntas viciadas, deixou o processo um ano no brejo, e ainda posa de dono da clareira? Que loucura você fez, meu afilhado.” — “Padrinho, me desculpe, padrinho, eu… eu não vi as perguntas.” — “Pois esse é o problema: um presidente que não vê as perguntas não enxerga as respostas. Fique na sua. Se preciso, o Caçador desce ao vale. Mas saiba: ordem sem ordem é selva sem trilha.”
No chão, sobre um toco que já serviu de tribuna a tantos, o Super Mouse Aurélio Belém ajeitou o microfone: — “Companheiros da floresta, a eleição do Quinto é dos advogados. Não é do Governador que só escolhe ao final, não é da OAB que organiza, não patrocina, não é do Tribunal que julga, não apita. Questionário com viés é pano de fumaça. Mais de um ano de atraso é desrespeito. E a cadeira ocupada por magistrado é anomia institucional. Eu vou às rádios, aos galhos, aos brejos e às clareiras. Vou repetir até a coruja Clara Machado dormir: sem imparcialidade, não há legitimidade.” A mata aplaudiu. Alguns por convicção, outros por medo da repercussão, outros porque o aplauso é um vício antigo de bicho social.
Na clareira magna, convocou-se Assembleia. A pauta foi lida pelo Panda Clodoaldo Júnior com voz de ata. A palavra circulou como cuia em roda de compadres.

A Coruja Clara: — “A pergunta ‘candidato da OAB’ viola a lógica. A instituição não torce; arbitra. Se torce, contamina. Se contamina, deslegitima. Se deslegitima, derruba a ponte entre a advocacia e a confiança pública.”

Rinoceronte Juvenal: — “Perguntar por ‘candidato do Governador’ confunde competência com conveniência. Governador não tem candidat, não é curral eleitoral. Escolhe depois. Se escolhe antes, atropela.”

Macaco Getúlio: — O tribunal quer o Pavão? O MP quer não sei? O espelho quer o Pavão? Pois que o Pavão queira a floresta, mas a floresta precisa querer a lisura.”

Tamanduá r: — “Se demorar muito, eu volto pro formigueiro. Cargo público e candidatura não dançam forró de mão dada.”

Lebre Ana Lúcia: — “Corri e ouvi: tem candidato em todas as siglas da selva. Sobra ego, falta edital.”

Preguiça Inácio: — “Quem tem pressa em pergunta empaca a resposta.”

Pavão Mácio Conrado: — “Eu só brilho. Não tenho culpa se a mata gosta de luz difusa.”

Cutia Carla Carolina: — “Levo documentos de um lado ao outro. No fim, alguém precisa lembrar que papel não voa sozinho.”

Super Mouse ABES: — “Sem imparcialidade, não há quórum moral.”

Caçador CAM — “Se a Ordem perder a ordem, o pior bicho governa: a inércia.”

Elefante Evânio Moura finalizou— “Companheiros, se a OAB passa a torcer por candidatos, e o Governador se antecipa em preferências, pergunto: como podemos falar em legitimidade do Quinto Constitucional se a própria essência do instituto que é equilibrar poderes e garantir a pluralidade se converte em instrumento de hegemonia? Afinal, quando a escolha deixa de ser de todos e vira de alguns, não corremos o risco de transformar um mecanismo de freios e contrapesos em mero reflexo das vontades de ocasião?”
E, enfim, todos olharam para o Leãozinho Daniel, que mordia o próprio lábio como quem mastiga um regimento.

Leãozinho: — “Eu… mandei fazer a pesquisa. Não vi as perguntas. Desculpem.”
Silêncio. Depois, um coro de folhas, como chuva fina, respondeu por todos: “Condução”. Naquela noite, a lua fez de luminária. O Magistrado do TJ, Elefante Manoel Costa Neto ainda estava sentado na poltrona do Quinto, balançando o pé como quem se acostuma. A mata inteira sabia que o assento não era dele. A mata inteira sabia que o processo estava atrasado. A mata inteira sabia que o questionário era um tropeço institucional. E a mata inteira percebeu que, quando o presidente vira Leãozinho de pelúcia, a floresta, por mais brava que seja, vira parque de diversão para vaidades.
Eleição sem imparcialidade é teatro sem plateia. Pesquisa enviesada é bússola que aponta para o próprio umbigo. E Ordem sem ordem é selva sem trilha, onde até Pavão vira farol e Jacaré ri de boca cheia. Mais de um ano de atraso, cadeira do Quinto ocupada por magistrado, e um presidente que “não viu as perguntas”, ou diz que não leu, isso não é fábula; é diagnóstico. E, se ninguém conduzir, a mata volta para a idade do cipó.




