Durante décadas, dizer “família Franco” em Sergipe era quase anunciar a chegada de uma carreata oficial. Vinham juntos indústria, banco, televisão, rádio, jornal, mandato e uma árvore genealógica que parecia ter sido plantada no jardim do Palácio do Governo. O patriarca Augusto Franco foi médico, empresário, deputado federal, senador e governador. Antônio Carlos Franco foi deputado federal constituinte e deixou o mandato para assumir a Prefeitura de Laranjeiras. Albano Franco percorreu Assembleia, Senado, Governo do Estado, Câmara Federal e presidência da CNI. Walter Franco ocupou mandato estadual e consolidou sua presença na comunicação. Augusto Franco Neto chegou à Câmara dos Deputados e depois voltou à atividade empresarial. Havia currículo, voto, comando e dimensão própria. Marcos Franco foi deputado estadual por dois mandatos, mas preferiu sair da política aposentado para dedicar-se às empresas. Não eram apenas Francos de certidão. Eram Francos de palanque. O problema é que império sem renovação vira museu, e museu político costuma abrir justamente no horário eleitoral.
É diante desse passado que Marcos Franco tenta retornar à política como candidato a deputado federal pelo PSB. O ex-deputado estadual possui experiência e ocupou a Secretaria de Turismo, mas sua candidatura parece depender demais do álbum da família. Marcos sobe ao palanque acompanhado simbolicamente pelo pai, pelo avô, pelos tios e pelos primos, como se cada retrato antigo valesse cinco mil votos e uma inserção de televisão. Só que eleição não é inventário, mandato não aparece em testamento e urna eletrônica não possui o botão “confirmar sobrenome”. Marcos pode disputar, evidentemente, mas terá de demonstrar que existe politicamente além da genealogia. Porque, quando o candidato precisa apresentar toda a família antes de apresentar a própria proposta, o eleitor começa a suspeitar que o projeto político chegou de carona no porta-retrato.
A possível candidatura de Adélia Barreto Franco expôs essa dificuldade de renovação. Advogada, arquiteta, filha de Albano Franco e filiada ao PSB, Adélia chegou a ser apontada como opção para a Câmara Federal. Depois de conversas, contas e provavelmente uma reunião familiar com mais Franco do que café, decidiu não concorrer e apoiar Marcos. Segundo ela, dois parentes disputando o mesmo cargo pelo mesmo partido poderiam comprometer ambos. Traduzindo do diplomatiquês familiar: a divisão dos votos poderia transformar o sonho de Brasília numa excursão coletiva até a derrota. Seu marido, o empresário Gaspar Carvalho, defendia a candidatura, mas participou do entendimento. Ao final, a família fechou questão em torno de Marcos, numa espécie de convenção realizada sem delegados, sem urna e, aparentemente, com direito a sobremesa.
Adélia continuará chefiando o Cerimonial da Assembleia Legislativa, função que exerce desde 2023, e deixou aberta a possibilidade de disputar uma eleição futura. Ela conhece solenidades, autoridades, precedências e a delicada ciência de descobrir quem se senta na primeira fila sem provocar uma crise institucional. Mas organizar o palco é diferente de conquistar a plateia. Adélia nunca exerceu mandato eletivo nem construiu trajetória própria nas urnas. Ser filha de Albano Franco abre portas, rende cumprimentos e produz saudade, mas não entrega votos em domicílio. Sua desistência pode ter sido sensata, porém revela o tamanho do problema: a família que já escolheu governadores e senadores agora realiza uma peneira doméstica para descobrir quem consegue sobreviver numa chapa proporcional. Antes, os Franco discutiam o comando de Sergipe. Hoje, discutem quem leva o sobrenome para Brasília sem deixar o voto perdido na sala do cerimonial.
A situação empresarial torna a candidatura de Marcos ainda mais delicada. O pedido de recuperação judicial do Grupo ACF foi apresentado em janeiro de 2023 e incluiu Sergipe Industrial Têxtil, Aracaju Investimentos, Comercial Nortista e ACF Participações. Recuperação judicial não é condenação criminal, mas também não é passeio dominical no Parque da Sementeira. É sinal de crise financeira, com trabalhadores, fornecedores e credores esperando respostas. Marcos pretende falar em desenvolvimento, emprego e renda, mas precisa explicar como essas palavras se encaixam na experiência recente das empresas familiares. Quem deseja ensinar economia em Brasília deve, antes, mostrar o boletim da administração dentro de casa. Vídeo de campanha pode ter drone, música emocionante e trabalhador sorrindo. O que não pode ter é obrigação pendente escondida atrás do cenário. Direito trabalhista não é favor, gentileza ou lembrança de Natal. É dívida, e dívida não desaparece quando começa o jingle eleitoral.
O declínio político dos Franco nasce justamente da distância entre a grandeza do passado e a incerteza do presente. Fazem falta figuras com peso próprio como Augusto Franco, Antônio Carlos Franco, Albano Franco, Walter Franco e Augusto Franco Neto. Marcos possui o direito de disputar e Adélia pode tentar futuramente, mas nenhum deles pode exigir que o eleitor transforme saudade em procuração. O clã que já conduziu uma locomotiva econômica e política agora viaja no vagão da nostalgia, acenando pela janela e esperando que o povo reconheça os passageiros antigos. A família Franco não acabou, mas vive um franco encolhimento eleitoral. O sobrenome ainda abre portas, produz fotografias e reúne autoridades. A dificuldade é fazê-lo abrir a urna. E essa, infelizmente para a família, não aceita chave herdada.




