O Fabulista já havia pendurado a pena no cabide. Estava engajado nas eleições de 2026, soterrado por processos, pautas políticas, audiências, clientes e uma montanha de documentos que crescia mais depressa do que promessa em campanha eleitoral. Não queria mais saber de floresta, bichos falantes nem conselheiros que só apareciam quando havia fotografia e mesa de doces.

Acontece que um cavalo árabe, grande, inquieto e politicamente prenhe, apareceu diante de sua janela e bateu os cascos com tanta força que derrubou dois códigos jurídicos e acordou um desembargador aposentado. “Fabulista, precisamos abrir os olhos, viu? A floresta está pegando fogo e tem muito bicho dizendo que é apenas iluminação institucional.” O Fabulista suspirou. Precisou de dois dias para compreender o tamanho daquela bicharada e mais dois para descobrir quem havia rugido, quem havia miado e quem simplesmente colocara o telefone no silencioso. Pegou a pena, abriu o velho caderno e escreveu: “Era uma vez uma floresta jurídica na qual todos defendiam a coragem, desde que a coragem fosse exercida pelo animal da jaula ao lado.”

No centro da mata ficava a Grande Ordem dos Bichos da Floresta. Suas paredes eram revestidas de discursos históricos, fotografias solenes e frases sobre liberdade. Todavia, quando a toga começou a pesar sobre as instituições, muitos moradores da floresta descobriram compromissos urgentíssimos com festas, vídeos, processos, eleições e cervejas geladas.

O Pavão recolheu discretamente a cauda, aproximou-se do Lobo e falou: “Foi uma batalha pesada. Você avançava mostrando os dentes, eu respondia abrindo as penas. Quando terminou, tinha pelo preso nos galhos, pena voando pelos corredores e conselheiro fingindo que não conhecia nenhum dos dois.” O Lobo sorriu de canto: “Mas parece que estamos quase fazendo as pazes. Afinal, Pavão, eleição passa, o Quinto continua e a advocacia não pode viver eternamente numa rinha entre bico e focinho.” “Finalmente alguém sensato”, respondeu o Pavão, ajeitando uma pena que jamais estivera fora do lugar. “Façamos as pazes. Você guarda os dentes, eu recolho as penas e ninguém pergunta quem saiu mais depenado.” O Lobo estendeu a pata. O Pavão ofereceu a asa. E assim começou a trégua mais desconfiada da floresta jurídica: os dois sorrindo para a fotografia, enquanto cada um conferia se o outro ainda carregava alguma candidatura escondida no bolso.


Mais adiante, Evânio Moura, o Elefante, caminhava devagar. Era um daqueles animais que carregavam memória, experiência e quilômetros de corredores forenses. Como o Fabulista não encontrou publicação recente do Elefante sobre o episódio, não poderia lhe inventar um discurso verdadeiro. Mas, no universo ficcional da mata, Evânio pegou o telefone de cipó e ligou para Juvenal, o Rinoceronte. “Juvenas, dias ruins podem estar chegando. Esse negócio no STF… eu não sei, não. Quando as instituições começam a se estranhar, até elefante procura capacete.” O Rinoceronte Juvenal ergueu a cabeça e respondeu: “Evânio, isso realmente preocupa. O problema é que, quando a Justiça entra numa guerra contra ela mesma, o cidadão vira espectador, testemunha e vítima, tudo no mesmo processo.”

Nesse instante, Getúlio Sobral, o Macaco, desceu pulando de um galho para outro, carregando três processos debaixo do braço e uma banana no bolso do paletó. “Rapaz, que maravilha! Eles estão brigando lá e eu estou com meus processos aqui. Será que isso chega a Aracaju? Já imaginou se o peso dessa toga cai por aqui? Meu Deus do céu! Vai precisar de agravo, guindaste e fisioterapia!”O Macaco deu uma cambalhota, derrubou uma petição e continuou: “Se cair em segredo de Justiça, pior ainda. Ninguém vê a toga, mas todo mundo sente o peso.”
Perto do formigueiro administrativo, Carlos Pinna, o Tamanduá, olhou para o céu com a tranquilidade de quem já tinha problemas suficientes no próprio território. “Estou nem preocupado com isso. O Gov. já está com problema, a cidade tem buraco, professor reclamando e confusão para todo lado, sem água até nas nascentes da Deso e na distribuição da Iguá. Não estou preocupado com o Brasil. Estou preocupado é com Sergipólis e Brasília que procure outro tamanduá.” O Macaco balançou a cabeça: “Tamanduá, quando Brasília espirra, Aracaju compra o lenço.” “Compre com licitação”, respondeu Carlos Pinna, sem alterar o passo.

Enquanto isso, Inácio Krauss, a Preguiça, balançava lentamente numa rede armada entre dois artigos esquecidos da Constituição. Ao descobrir que o Fabulista escrevia sobre o silêncio das antigas lideranças da Ordem, pegou o telefone e ligou para Aurélio Belém, o Super Mouse: “Super Mouse, você viu que o Fabulista está escrevendo? Parece que ele vai dizer que nós não tomamos posição pública sobre essa crise do STF. O negócio está ficando feio!” Do outro lado da linha, a guitarra berrava, a bateria sacudia a floresta e Super Mouse respondia aos gritos: “Deixe disso, Preguiça! Estou curtindo o Rock in Rio! Não vou trocar solo de guitarra por nota da OAB, nem abandonar o refrão para discutir ministro do Supremo. Primeiro termina o rock, depois eu penso na Ordem.”
A Preguiça tentou alertá-lo: “Mas, Super Mouse, a advocacia está esperando uma posição!” Super Mouse aumentou o volume e respondeu inspirado em Freddie Mercury, a voz lendária do Queen: “Meu caro, como cantava o grande Freddie: ‘The show must go on’. O espetáculo tem de continuar! Enquanto a guitarra falar, eu fico no festival. Quando desligarem os amplificadores, recolherem o palco e terminar o último bis, aí eu vejo se ainda sobrou República para defender e OAB para discutir.”

E, tomado pelo espírito do rock, Super Mouse improvisou sua própria estrofe: “A toga pesa, o ministro não sai/// a Ordem espera, o conselheiro não vai./// Se Brasília pega fogo e ninguém dá opinião, aumente a guitarra e esconda a Constituição.” A Preguiça desligou lentamente e voltou para a rede. Super Mouse levantou as mãos, pediu mais rock and roll e decretou: “STF amanhã! Hoje é Queen, guitarra e diversão!”
A Preguiça desligou devagar e voltou para a rede. Super Mouse aumentou o volume. Naquela noite, a guitarra teve manifestação, a bateria tomou posição e até o vocalista soltou a voz. Da antiga oposição da Ordem, entretanto, não saiu nem um acorde institucional. A Preguiça tentou responder, mas demorou tanto que a ligação caiu. O Fabulista procurou pelas redes, vasculhou a mata digital e não encontrou, naquele episódio específico, publicação pública recente da Preguiça e do Super Mouse. Por isso, anotou na margem do caderno: “O silêncio pode não ser concordância, mas também não serve como discurso. Na política institucional, quem não ocupa o espaço entrega o microfone a outro bicho.”

Breno Messias, o Cavalo, não se conformou. Galopou até o lago onde Júlio Rochadel, o Cisne, ensaiava um discurso diante do próprio reflexo. “Júlio, você precisa se somar à gente. Tem influência entre os conselheiros. Precisamos fazer o Conselho Estadual trabalhar com mais firmeza e ajudar a convencer o Conselho Federal. O Leão dos Leões, José Alberto Simonetti, precisa ouvir a floresta.” O Cisne respirou fundo e respondeu: “Meu amigo Cavalo, estou preocupado com a situação. Muito preocupado. Mas preciso organizar a comemoração dos 35 anos do meu escritório, no dia 16. A festa está tomando um tempo enorme.” O Cavalo arregalou os olhos: “Júlio, a República pode desabar!”. “Pode, mas a lista de convidados também”, respondeu o Cisne, alisando as penas.
Pedrinho Barreto, uma das Águias Conselheiras, sobrevoava aquela cena. De repente, desceu em velocidade, pousou sobre uma pilha de atas e disparou: “O Brasil está perdido. Esse Morcegão já deveria ter sido afastado há muito tempo!” A mata inteira silenciou. Até o Macaco parou de pular.O Fabulista interveio: “Calma, Águia. Na floresta constitucional, ninguém deve ser retirado pela vontade de um bicho, por mais alto que ele voe. Investigação, prova, contraditório, procedimento legal e competência constitucional. Sem isso, a águia vira gavião de tribunal.” A Águia recolheu as asas, mas manteve os olhos no horizonte.

Vitor Barreto, o Tucano Digital, apareceu carregando um celular, um tripé, uma luz circular e sete ideias para vídeos de sessenta segundos. “Vou gravar um vídeo sobre isso”, anunciou. “Qual será a posição?”, perguntou a Cotia Carla Carolina. O Tucano coçou o bico: “Primeiro preciso descobrir qual é o meu rumo. Depois escolho o enquadramento, a música e, se sobrar tempo, a opinião.” A Cotia olhou para o céu, balançou a cabeça e guardou algumas castanhas para o inverno institucional. Não disse palavra. Seu silêncio, porém, parecia desaprovar tanto a crise quanto a fauna preocupada em escolher filtro antes de escolher posição.

Na clareira das confraternizações, Edem Augusto, a Pantera Negra, chamou Antônio Correia Matos, o Gorilão: “Vamos tomar uma cervejinha? A crise está braba.” O Gorilão aceitou: “Se não resolvermos a República, pelo menos resolvemos a sede.” Nesse momento, Waguinho, o Gato Coroa, penteou os bigodes e decretou: “Cerveja nada! Vamos abrir um vinho, preparar algumas vodcas e buscar aquele uisquinho reservado às calamidades constitucionais.” Badaró, o Furão, farejou a festa e avisou: “Ligue a lancha, Waguinho! Estamos chegando. Esse negócio do STF não está com nada.” Do alto de uma árvore, Marcos Passos, a Águia Conselheira, observou: “Vão mesmo tomando o vinho, porque esse STF está acabado. Só não bebam tanto a ponto de acordarem pensando que a crise foi resolvida.” O Gorilão examinou a garrafa vazia: “A crise não acabou, Águia. Quem acabou foi o vinho.”

De repente, Sérgio Lucas, a Pomba da Asa Branca e cantor oficial de forró da floresta, chegou com microfone e sanfona: “Hoje quem canta sou eu!” E improvisou: “Quando olhei a mata ardendo, procurei uma solução; o Conselho olhou para Brasília e Brasília criou comissão.” Por último apareceu Clodoaldo Júnior, o Panda, com sua calma habitual. Abriu um espumante e anunciou:“Brindemos ao STF e ao Xadão!” O Gato Coroa perguntou quem era Xadão, e o Furão respondeu: “Deve ser parente do Chatão.” O Panda explicou: “Um é ministro, outro é personagem da fábula e o terceiro é quem chega à festa querendo explicar Direito Constitucional depois da quarta dose.” No final, o STF continuou em crise, mas os bichos produziram três brindes, uma viagem de lancha e uma decisão unânime: culpar o Xadão, o Chatão e, subsidiariamente, o garçom

Foi então que apareceu Carlos Augusto, o Caçador CAM. Ele não estava perseguindo o Morcegão Xandão, procurando votos no Conselho Federal nem cobrando manifestações dos conselheiros. Caminhava pela mata com uma lupa, procurando um possível nome para substituir o Leãozinho no futuro. “Deve ser uma mulher”, murmurava. “Uma figura leve, agregadora e capaz de atravessar a floresta sem pisar na cauda de ninguém.” Uma onça perguntou Daniel, o leãozinho ao padrinho: “Mas quem é essa fêmea misteriosa?” O Caçador sorriu: “Se eu revelar agora, deixa de ser caça e vira campanha.”
Enquanto a bicharada discutia festas, eleições, vídeos, cervejas, escritórios e sucessões, o Leãozinho da Ordem dos Bichos da Floresta, atravessou a floresta levando debaixo do braço uma carta aprovada por unanimidade pelo Conselho Pleno da OAB Sergipe. Não era apenas um rugido para as redes sociais. Era um documento dirigido ao Conselho Federal. Na versão ficcional da fábula, o Leãozinho subiu numa pedra e falou: “Bichos da advocacia, a prudência não pode servir de fantasia para a omissão. Nem toga, nem procuradoria, nem presidência de Ordem coloca alguém acima da Constituição. Se existem fatos graves, é preciso investigar com rigor, abrir as provas, respeitar o devido processo e exigir responsabilidade.”
Dessa vez, a fala da fábula refletia uma posição real. Em Brasília, Danniel sustentou as propostas aprovadas pela OAB Sergipe. O Conselho Federal deliberou pela solicitação de investigação, pelo acesso da OAB aos autos, pela criação de um grupo de trabalho e pela análise de medidas jurídicas, inclusive eventual representação por crime de responsabilidade. O presidente sergipano declarou oficialmente que “não é admissível omissão” e que “ninguém está acima da lei e da Constituição”. O Leãozinho continuou, já no terreno propriamente fabuloso: “Não estou pedindo condenação antecipada. Estou exigindo apuração. Quem pede prova não ataca a democracia. Quem exige devido processo não ameaça o tribunal. A Ordem existe para falar principalmente quando o silêncio parece mais confortável.”

O Leão dos Leões, Simonetti, comandante da OAB da Mata Federal, ouviu o rugido vindo de Sergipe, reuniu os animais do Conselho Federal e determinou a criação de um grupo para acompanhar as apurações. Foi algum movimento, mas ainda faltou uma posição verdadeiramente firme. Não houve derrubada do castelo nem afastamento do Morcegão, apenas mais uma comissão caminhando lentamente pelos corredores da floresta federal. O assunto finalmente saiu da gaveta, mas permaneceu sentado na sala de espera institucional, aguardando que o Leão dos Leões trocasse o rugido administrativo por uma atitude à altura da gravidade do caso.
No encerramento, o Fabulista reuniu os bichos e perguntou: “Quem deseja falar sobre a crise?” O Pavão abriu a agenda. A Preguiça fechou os olhos. O Super Mouse aumentou o volume da música. O Cisne conferiu a lista da festa. O Tucano ligou a câmera, mas ainda não escolheu a opinião. A Pantera chamou outra rodada. O Gorilão perguntou se havia petisco. O Macaco protocolou uma petição. O Tamanduá voltou a cuidar dos professora es e da falta d’água no Estado. E o Caçador CAM continuou procurando a misteriosa fêmea da sucessão.

Somente o Leãozinho permaneceu no centro da clareira, segurando a carta. A moral da fábula é simples: numa floresta cheia de conselheiros estaduais, conselheiros federais, ex-presidentes e candidatos a futuros presidentes, sobrou currículo, fotografia e animal de estimação. Faltou bicho disposto a colocar o pescoço na janela. Quando a advocacia precisou de um rugido, boa parte da fauna apresentou atestado de compromisso particular. O Leãozinho Danniel, porém, rugiu, levou a carta a Brasília e ajudou a produzir uma resposta concreta. Pode se discutir a intensidade do rugido, o momento e os efeitos jurídicos. O que não se pode dizer é que ele ficou escondido no mato. No fim, o Morcegão continuou voando, o Conselho Federal criou uma comissão e a floresta voltou à rotina. A única providência realmente unânime foi tomada no bar: dali em diante, toda cerveja seria servida sem sigilo, com ampla defesa do tira gosto e direito a recurso contra a conta.




