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A marcha que expõe o silêncio e testa os limites da democracia

O Brasil amanheceu, de novo, com um daqueles roteiros que só a nossa política consegue produzir: gente caminhando na BR, celular filmando, bandeira tremulando, discurso de “liberdade” no peito e um recado claro para Brasília. A chamada Caminhada pela Justiça e Liberdade, puxada por Nikolas Ferreira, deixou de ser só performance de rede social e virou um fato político em movimento, com data marcada para desembocar na capital neste domingo, 25 de janeiro de 2026. 

E é aqui que a coisa fica séria, porque não é uma caminhada turística, nem romaria inocente. Ela nasce declaradamente como protesto contra decisões e rumos institucionais, associada à defesa de Bolsonaro e à pauta de anistia para condenados e presos do 8 de janeiro. E quando uma marcha ganha esse conteúdo, ela passa a operar em duas camadas ao mesmo tempo: na camada simbólica, alimenta a narrativa da “perseguição” e da “coragem”; na camada prática, pressiona instituições e testa limites de segurança pública, de ordem e de convivência democrática.

A marcha, inclusive, já recebeu reforço de bastidores que não é pouca coisa. Há reportagem detalhando a logística informal ao redor do ato, com estrutura de apoio montada por simpatizantes, voluntários, e até cenas que viram meme, como a “picanha do Bolsonaro” e o folclore da estrada, esse Brasil que mistura protesto com churrasco e transforma acostamento em camarote. Isso não diminui a mobilização. Ao contrário. Mostra como o evento ganha corpo quando vira comunidade, quando vira “tribo” e quando vira “nós contra eles” embalado em vídeo curto.

Na política, a marcha também não anda sozinha. O deputado federal Rodrigo Valadares apareceu e se somou à caminhada, levando Sergipe para dentro do enredo nacional do ato, com registros de sua participação publicados por veículos locais. Quando parlamentares entram, deixa de ser só manifestação orgânica e passa a ser, também, operação de posicionamento. É política em estado bruto, no asfalto, sem gravata, sem cerimonial, mas com câmera em todos os ângulos.

Agora vem o ponto em que o “morro” aparece, o atrito, a encosta perigosa dessa história. Quem acha que Brasília está olhando isso como se fosse passeio de domingo está lendo errado. A Polícia Rodoviária Federal emitiu alerta sobre riscos e afirmou, em nota divulgada pela imprensa, que não teria sido comunicada previamente do ato, justamente porque um fluxo extraordinário de pessoas numa rodovia federal não é brincadeira. A equipe do deputado, por sua vez, disse que comunicou PRF e ANTT. E aí você vê o retrato perfeito do Brasil atual: um lado diz “avisamos”; o outro diz “não avisaram”; e no meio está a rodovia, com caminhão, carro, família viajando, e a política querendo passar primeiro.

Mais: houve reação política formal. Segundo noticiário, deputados Lindbergh Farias e Rogério Correia levaram pedido à PRF, questionando a continuidade do ato e apontando risco à segurança viária. Ou seja, não é apenas “direita na rua”. É também “instituições e adversários acionados”, cada um jogando no seu tabuleiro.

E no topo do sistema, o Judiciário também se mexeu. O ministro Alexandre de Moraes determinou a proibição de manifestações e acampamentos no entorno do Complexo da Papuda, acolhendo pedido da PGR e citando preocupação com segurança e risco institucional, às vésperas do ato final em Brasília. Isso é o Estado dizendo, em bom português: protesto é permitido, mas tem perímetro, tem limite, tem linha vermelha, especialmente quando o assunto toca sistema prisional e episódios com histórico explosivo.

Do outro lado da trincheira, grandes lideranças do campo conservador também trataram o ato como símbolo e combustível. Silas Malafaia, por exemplo, se manifestou publicamente elogiando a caminhada e, ao mesmo tempo, intensificando ataques políticos ao STF, defendendo inclusive caminhos de enfrentamento institucional. E quando um líder com alcance nacional entra nesse tipo de mobilização, o evento deixa de ser só “caminhada” e vira palco de pressão retórica, de narrativa, de base em aquecimento.

E aí você me pede para ser muito crítico sobre as injustiças que estão acontecendo. Eu vou ser direto. O Brasil virou um país onde uma parte enorme da população sente que não tem mais saída pela via normal do debate público. Quando gente resolve medir a indignação a pé, por 200 e tantos quilômetros, não é porque está sobrando tempo, é porque está faltando canal de confiança. Isso pode ser lido como coragem. Pode ser lido como espetáculo. Mas não pode ser tratado como “nada”.

Só que crítica precisa ser honesta, inclusive com os fatos. Não é verdade que “ninguém noticiou”. Teve cobertura, sim, e de veículos grandes, inclusive falando do alerta da PRF e das medidas judiciais na Papuda. O que dá para dizer, com justiça, é outra coisa: a televisão tradicional e parte da grande imprensa tratam o fenômeno como nota lateral, enquanto as redes sociais tratam como epopeia nacional. Aí nasce o ressentimento, cresce a desconfiança e se abre espaço para a sensação coletiva de censura informal, aquela que não precisa de carimbo, basta o silêncio seletivo.

Amanhã, em Brasília, o que está em jogo não é só a chegada de um grupo cansado, com bolha no pé e bandeira na mão. É a demonstração de força de uma narrativa que quer ser maioria, quer ser “o povo”, quer ser a voz que não se cala. E, do outro lado, a reação institucional que tenta evitar que manifestação vire cerco, que ato vire pressão indevida, que política vire tumulto.

O país precisa de uma coisa urgente: o direito de protestar sem ser tratado como criminoso e o dever de respeitar limites sem transformar limite em “tirania”. Se a política continuar fingindo que não vê a rua, a rua vai continuar indo até a política. E, pelo visto, amanhã ela vai bater na porta de Brasília com o barulho de quem não aceita mais ser ignorado.

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