A advocacia brasileira atravessa um momento delicado e a fragilidade institucional da Ordem dos Advogados do Brasil é o sintoma mais visível disso. A OAB, que historicamente foi farol de resistência democrática, hoje parece um órgão sem bússola, sem contraponto e sem coragem de contrariar o poder. A eleição de Beto Simonetti para a presidência nacional, em 2022, com 77 dos 80 votos possíveis, consagrou uma gestão praticamente sem oposição. E essa unanimidade forçada, ao invés de fortalecer, enfraqueceu a instituição: onde não há disputa de ideias, sobra acomodação e falta vigilância.
Simonetti chegou ao cargo com o discurso de defesa intransigente das prerrogativas, mas sua atuação se resumiu a notas e manifestações protocolares. Em episódios graves, como a restrição do STF ao uso de celulares por advogados no plenário, durante julgamentos de alta repercussão, a reação da OAB foi ruidosa, mas vazia: muita indignação e pouca proposta concreta. Não houve articulação prévia, não houve construção de alternativas que conciliassem prerrogativas e segurança; houve apenas discurso de palco, feito depois do fato consumado. É esse tipo de conduta que transforma a OAB em espectadora tardia da história.
Enquanto isso, problemas estruturais continuam ignorados. A ausência de auditorias independentes visíveis, a falta de transparência ativa sobre o desempenho financeiro das seccionais e a inexistência de planos nacionais eficazes de proteção às prerrogativas mostram uma gestão mais preocupada com a liturgia do cargo do que com o enfrentamento real das mazelas que afligem a advocacia. A OAB nacional, que já foi espaço de embates ideológicos e técnicos que oxigenavam a categoria, hoje parece um bloco monolítico, onde críticas viram quase heresias. E quando não há oposição, não há freios, só silêncio.
Simonetti tenta agora a reeleição, mas sem apresentar autocrítica, nem reconhecer que a OAB perdeu protagonismo político e capacidade de pressão institucional. A Ordem deixou de ser voz ativa no debate público e passou a se comportar como apêndice cerimonial do sistema de Justiça. Essa docilidade cobra preço alto: advogados processados injustamente ficam sem defesa institucional, prerrogativas são violadas sem reação, e a sociedade deixa de ver a OAB como um contrapoder confiável.
Não há, até hoje, denúncias comprovadas de corrupção ou improbidade contra Simonetti. Mas o problema é outro e talvez mais grave: é a irrelevância que sua gestão impôs à OAB. A instituição não precisa de escândalos para perder autoridade; basta se omitir. E quando uma entidade que nasceu para defender a advocacia deixa de questionar, fiscalizar e propor, ela não apenas trai sua missão: ela renuncia a ela. A advocacia brasileira não precisa de unanimidades dóceis; precisa de uma OAB viva, plural, combativa e não de uma ordem que se cala enquanto se apaga.




