PUBLICIDADE

A Ordem dos Bichos e a eleição sagrada

Esta fábula é uma obra de ficção científica florestal. Qualquer semelhança com fatos, bichos ou campanhas reais não é mera coincidência ou apenas fantasia jurídica. Durante quarenta e cinco dias, o Fabulista caminhou pela Ordem dos Bichos como quem atravessa campo minado sorrindo. Escreveu, cutucou, elogiou, ironizou e, claro, levou umas mordidas. Teve bicho que não gostou dos textos, reclamou em WhatsApp, em corredor, até em áudio de três minutos. Ele respondia sempre com a calma de quem sabe que crítica é parte do jogo, não tragédia: “Posso não concordar com nenhuma palavra que tu digas, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la.”

Sim, tinha suas preferências (ninguém é árvore para ser neutro), mas caminhou entre todos com serenidade, sem ódio, sem exageros e sem vender “imparcialidade de vitrine”. Na sabatina, observou a fauna política-jurídica bem de perto: viu nervos, vaidades, empolgações e fugas éticas. Dali nasceu a grande descoberta: três grupos de seis, os “halogênios da floresta”, o Grupo 6A político. Na tabela periódica real só existe um. Na tabela da floresta, surgiram três. O Quinto distorce até a química.

Conversou com quase todos os bichos-candidatos; todos acessíveis. E todos, de algum modo, merecedores. Mas a urna é canalha: só cabem seis. No caminho, foi atacado por um bicho de um grupo querido, relevou. Na verdade, cada advogado parecia viver sua própria campanha paralela. Sinal de vitalidade… e de descontrole.

Também apareceram criaturas do submundo que nem de bicho merecem ser chamados, tentando usar melanina como arma política, questionando autodeclarações e espalhando veneno. Foram rapidamente apagados da narrativa. A floresta sabe quem são. Sigamos com a fábula:

Nem o sol tinha decidido se subia ao céu ou se voltava para debaixo das cobertas, e a Floresta da Ordem dos Bichos já rugia em alvoroço. Hoje é o grande dia: 19 de novembro, Dia da Bandeira e o tão esperado Quinto Florestal, aquele ritual onde promessas florescem, vaidades ganham asas e a conversa mole corre solta, disfarçada com a elegância de “debate técnico”. A mata despertou com cheiro de expectativa e gosto de confusão.

No gramado em frente a Ordem dos Bichos, esticaram uma faixa verde-amarela tão berrante que até o Tucano Victor teve que ajeitar o bico pra não ofuscar com o brilho. Em letras garrafais, tremulava o grande anúncio: O QUINTO FLORESTAL É O TEMPERO DA DEMOCRACIA. A faixa não estava ali por acaso. Na Floresta dos Bichos, o Quinto Florestal sempre foi tratado como aquele condimento raro, aquela especiaria mítica que promete equilibrar o caldo da Justiça. Era a maneira da floresta garantir que, de tempos em tempos, um bicho que veio do chão batido, da advocacia, do dia a dia dos processos, das dores dos “procurandos sociais”, pudesse subir aos galhos mais altos para lembrar aos magistrados de toga que Justiça não nasce nos gabinetes: nasce na lama, na trilha, no calor, no cheiro do processo real.

Era assim que a floresta explicava para os mais jovens: — O Quinto é como se a Justiça, de vez em quando, precisasse de uma “colher de pau viva” para mexer o caldeirão institucional. Um bicho vindo da rua, da correria, do contato humano, pra lembrar aos que já vivem no galho alto que a floresta inteira existe, não só os ramos mais confortáveis.

Para os procurandos jurídicos, aqueles bichos simples que vivem batendo às portas da Justiça com a cara, a coragem e um pedido meio amassado, o Quinto era sempre uma promessa sussurrada entre as folhas: “Quem sabe, dessa vez, alguém lá de cima lembra da gente.” Mas promessa, na floresta, é igual tempero forte: perfuma muito, alimenta pouco. Daí a faixa, o frenesi e o glamour tragicômico que sempre vem embutido no ritual. O Quinto Florestal nunca foi apenas uma vaga. Era o mito da mata: o grande rito em que a advocacia finge que escolhe, a OAB finge que manda, e todo mundo finge que não está participando de uma eleição jurídica magistralmente fantasiada de solenidade democrática.

E assim, entre vaidades infladas, promessas recicladas e discursos tão cheios de “compromisso com a sociedade” que até o vento revirava os olhos, a Ordem dos Bichos da Floresta se agitava para o grande espetáculo do ano: o ritual do Quinto Florestal. Era o momento em que a bicharada inteira, do alto da copa ao chão batido, fingia que mandava alguma coisa, enquanto decidia quem seria o próximo bicho a ser catapultado do nível da lama para o topo da árvore da Justiça. Não por mérito de asas, garras ou sabedoria ancestral, mas pelo velho e bom voto da floresta, que é tão imprevisível quanto anta em piso molhado.

A primeira a chegar foi a Abelha Ana Lúcia, já voando em zigue-zague, com uma pastinha de anotações e um cronograma mental de tudo que precisava ser resolvido antes mesmo da eleição começar. — Bom dia, coleguinhas! (ela zunia, organizadíssima). — Por favor, fila da consciência democrática à direita, fila da hipocrisia à esquerda, que é pra não misturar muito, senão confunde. A Girafa Robson, sempre calma, apareceu logo depois, ajeitando o crachá com o pescoço comprido. — Ana, minha amiga, se você separar a hipocrisia, não vai sobrar ninguém na fila da consciência (ele murmurou lá de cima). — Vai faltar bicho.

A Capivara Arício veio caminhando tranquila, com cara de quem já viu muita confusão e sobreviveu tomando café e rindo por dentro. — Não comecem sem mim, que eu sou o mediador emocional dessa floresta (ele avisou). — Se o caldo engrossar, eu deito no meio e mando todo mundo respirar. De repente, surge o Pavão Márcio Conrado, todo produzidinho, com uma sacola. Ele abre e tira… máscaras. Máscaras com o próprio rosto. — Atenção, atenção! Campanha do Pavão: “vista a cara da responsabilidade” (ele anuncia, distribuindo). 

O Macaco Getúlio agarra uma máscara, vira de um lado, vira do outro, coloca no rosto e cai na risada. — Rapaz, isso aqui é marketing ou é filme de terror? (debocha). — Se der errado no Quinto, dá certo no Halloween. A Ursa Clarisse pega outra máscara com um suspiro paciente. — Márcio, meu filho, se essa floresta tivesse juízo, você distribuía era ficha de terapia, não máscara (ela diz). — Que o problema aqui não é esconder a cara, é encarar a consciência. O Jacaré Cícero aparece meio de lado, sorrindo com aqueles dentes que sempre parecem sorriso e ameaça ao mesmo tempo. — Deixem o Pavão, gente…  (ele tira onda). — Cada bicho com sua estratégia. Eu, por exemplo, prefiro aparecer sem máscara. O lago já é turvo, pra quê piorar?

Lá no canto, a Cutia Carla Carol chega com passos rápidos, um monte de sementes na mão e uma expressão meio cansada de quem já foi discutida demais. — Vou logo avisando: hoje eu não discuto cor, tom, código Pantone nem luz de ring light, hoje eu só discuto Justiça. Quem quiser falar de melanina, que vá pra banca do “Black & White” ali com o pessoal da OAB. O Guaxinim Matheus Chagas, que já vinha se aproximando com jeitinho calculado, pigarreia. — Olha, Cutia, já que você tocou no assunto…  (ele começa, com cuidado) — Eu só gostaria de registrar, em ata espiritual, que eu continuo sendo pardo, tá? Não vou mudar de tom conforme a nuvem, não. O Macaco Getúlio não perde a deixa. — Matheus, meu irmão, relaxa. Na floresta de hoje, tem bicho que muda de cor conforme o edital, conforme a selfie e conforme o grupo de WhatsApp. Você ainda está é muito coerente.

A Capivara Arício entra no meio, pacificadora: — Vejam pelo lado positivo, meus amigos. Pelo menos a discussão de cor trouxe uma vantagem: o povo finalmente aprendeu que “pardo” não é só o papel do cartório. Chega então o Rinoceronte Juvenal, passos firmes, sem pressa, cara de quem não precisa provar nada pra ninguém. — Eu só queria lembrar (ele anuncia grave) que o Quinto precisa de alguém que já levou na cara, já entrou em fórum caindo aos pedaços, já tomou café ruim em sala de audiência. Se o bicho nunca advogou de verdade, não pode querer pousar no tronão achando que é enfeite.

A Formiga João Pedro, carregando um papel maior do que ele, levanta as antenas. — Eu confirmo (diz, sério, arrumadinho). — Quem tá acostumado com gabinete refrigerado não sabe o valor de um protocolo às 17h59. Isso deveria contar ponto na eleição. Lá perto, o Cisne Durval pousava com aquela elegância natural de quem nasceu para deslizar sobre os lagos. Mexia uma mariscada imaginária, daquelas que ele prepara na casa de praia, com sol batendo na varanda, cheiro de maresia e ar de quem sabe viver. Movia a concha no ar como maestro de orquestra gourmet quando chamou o fabulista, bem no meio da confusão política: — Meu amigo… a coisa é séria. (disse ele, com aquele tom sereno que engana). — Nunca pensei que fosse tão difícil disputar um Quinto… ainda mais um Quinto assim, desse jeitinho. Mas tô na ativa, viu? Preparado. E lhe digo mais: isso era algo da minha vida que eu precisava viver. E, me orgulha muito.

A Koala Samira chega com sua calma característica, tão serena que até o Leão relaxaria. Observando de perto, seu pai, o promotor Pedro Daud,  um Koalão imponente, a acompanha com um olhar cheio de orgulho, murmurando baixinho: “Essa é minha filha.” Com um sorriso suave, Samira propõe à bicharada uma roda restaurativa ali mesmo, lembrando a todos que a Justiça precisa de menos briga e mais escuta. Sua presença pacífica cria um momento raro de silêncio e harmonia na floresta. O Macaco Getúlio ri. — Samira, minha amiga, roda restaurativa aqui é feijoada com fila de abraço falso e promessa de gabinete aberto. Isso aqui parece mais programa de auditório do que cerimônia democrática.

A Ovelha Acácia Lélis, sempre tranquila e com aquele olhar elevado de quem enxerga longe sem precisar subir em galho nenhum, observava a floresta com serenidade quase pastoral. — Lá de cima,  ou melhor, lá da minha calma,  é até bonito de ver,  (ela suspirou) — Metade da advocacia tirando selfie, a outra metade fingindo neutralidade. Todo mundo dizendo que vai votar “com consciência”. Mas ninguém diz com qual.

O Tucano Victor Barreto chega elegante, mas visivelmente incomodado. Conta que alguns dos seus próprios colegas estavam brigando entre si e até expulsando outros bichos do grupo de WhatsApp que ele criou, apenas porque pensavam um pouco diferente, algo que ele considera pequeno para a grandeza que o Quinto Constitucional exige. Com sua diplomacia natural, o Tucano critica o clima da eleição e diz que o Quinto, que deveria ser o mecanismo de equilíbrio da Justiça da Floresta, está virando uma eleição jurídica: de um lado o bloco do voto camarão, do outro o bloco do gabinete aberto, e no meio a segurança jurídica, coitada, pedindo socorro. Para ele, o Quinto deveria elevar o nível da floresta, trazer diversidade técnica e fortalecer a ponte entre o chão da mata e a copa do Tribunal mas, do jeito que anda, está apenas revelando vaidades, impulsos e criancices digitais.

A Calopsita Filipe Cortes já tinha escrito livros, passado em concursos que até o Tucano admirava e era conhecido por uma inteligência tão afiada que parecia ter sido polida a bico de papagaio. Sempre atento, ele deu um assobio curto que silenciou meia floresta. — Só pra organizar o som… (anunciou, erguendo uma asa como quem decreta ordem no caos). — Quem for prometer gabinete aberto, por favor, passe antes na minha mesa pra retirar o folheto de “realidade funcional”. Não vamos criar expectativa em estagiário, que depois é só frustração e terapia. A frase caiu na roda como um tapa educado: firme, proporcional e absolutamente necessário.

O Golden Alessander abana o rabo imaginário, sereno, olhando pros dois lados. — Eu não prometo gabinete aberto (ele diz, calmo). — Eu prometo porta justa. Nem escancarada a ponto de virar corredor de condomínio, nem trancada a ponto de virar lenda. Quem tiver causa séria, entra. Quem tiver conversa fiada, manda áudio.

O Corvo Azul Kleidson pousa num galho alto, ajeita as penas com solenidade e abre as asas com uma elegância quase filosófica. — Daqui de cima, a coisa é simples (comenta, com aquela voz que parece vir de um livro antigo). — Muita pluma, pouca profundidade. O discurso é bonito, cheio de brilho, mas quero ver quem, na hora de julgar de verdade, vai lembrar que por trás de cada processo existe alguém que não está aqui no espetáculo da campanha, mas que depende, e muito, da Justiça que vocês dizem defender. O silêncio que se seguiu foi aplaudido apenas pelo vento.

Chega planando a Cegonha América, com expressão serena, carregando um calhamaço de votos de confiança invisíveis. — Eu trago, sim, regeneração (ela diz, doce). — Mas regenerar não é fingir que está tudo lindo. É admitir que a Justiça precisa mudar de rota, que o Quinto virou campeonato de popularidade e que a OAB esqueceu o preto no branco pra virar Black & White de ego. A Girafa Robson Milet, lá do alto, concorda com a cabeça. — É isso. A Ordem hoje é um blend de vaidade com discurso identitário (ele completa). — Se colocar gelo, vira drink; se colocar toga, vira plenário. Chega trotando a Cabra Tatiana Silvestre, firme, determinada, com jeito de quem sobe morro sem fazer drama— Montanha por montanha, eu já subi várias (ela afirma). — Só não aceito é transformar o Quinto em trilha de selfie. Quer subir? Sobe trabalhando. Quer ficar? Fica julgando direito. O resto é firula.

A Cutia Carla ergue as orelhas, farfalhando como antenas em modo alerta. — Falando em firula… (ela dispara, com aquele tom de quem vai lançar a flecha certa). — Alguém já explicou o tal do voto camarão pro pessoal da mata? Porque esse negócio de “votar só em um e esquecer os outros cinco” parece mais uma dieta eleitoral maluca: corta tudo, deixa só o preferido e pronto, fica magro de opção e gordo de estratégia. A provocação caiu na roda como castanha seca: todo mundo mordeu. O Vagalume Joab chega piscando, calmíssimo, trazendo uma luminosidade diplomática. — Meus amigos (ele diz, com voz mansa), quem dera a energia que vocês gastam em estratégia de voto camarão fosse aplicada em estudo de processo civil. O mundo estaria melhor, os prazos estariam em dia e ninguém ia prometer o que não pode cumprir.

O Lobo Fabiano surge com a mão no peito e um sorriso corajoso, daqueles que só quem conhece a própria dor consegue dar. — Falar em promessa não cumprida é comigo mesmo (ele brinca, tentando suavizar o que viveu). Mas a floresta inteira sabia: o Lobo não foi apenas candidato; foi sobrevivente. Durante toda a campanha enfrentou uma enxurrada de fake news, ataques rasteiros, distorções planejadas e disparos subterrâneos que teriam derrubado qualquer outro bicho menos preparado. Em vez de reagir com ódio, ele reagiu com firmeza, dignidade e uma serenidade quase pedagógica, mostrando que força verdadeira não faz barulho, resiste. — Eu, com esse coração remendado aqui, ainda sou chamado de “coração valente” (completou, com ironia suave). — E digo mais: se fosse alguns de vocês passando o que eu passei… já tinham pedido liminar pra sair da eleição. A verdade é que o Lobo honrou o nome do slogan. Seu coração não era apenas valente: era teimosamente humano. Aguentou pancada, mentira, intriga, montagem, fofoca e covardia e, mesmo assim, não perdeu a postura, não saiu da linha, não esqueceu do propósito.

O Gambá Henry Clay surge discretamente, mas o cheiro de comentário irônico o antecede. — O problema não é o coração do Lobo (ele solta).  O problema é a cabeça de quem acha que o Quinto é reality show. Quer fazer prova? Faz concurso. Quer fazer campanha? Aguenta meme. Lá no canto, o Jacaré Cícero sorri de novo, meio de lado. — Concurso pra desembargador do Quinto? (ele cogita). — Prova objetiva, discursiva, oral, títulos, curso de formação… — E sem feijoada (completa a Abelha Ana). — Aí também já é abuso de autoridade, né?  O Macaco Getúlio protesta. — Sem feijoada, o fabulista não tem texto, o advogado não tem desculpa e o candidato não tem foto. Aí acabou a graça.

A Capivara Arício coça a cabeça, pacífica. — Gente, eu só queria que a OAB lembrasse que a função dela é unir a bicharada, não criar bloco, ala, subgrupo, comissão da comissão. A Calopsita Filipe assobia: — Hoje tem bloco “Quinto Negro”, “Quinto Livre”, “Quinto da Fé”, “Quinto da Galera do Café” e, se você procurar direito, encontra até o bloco “Quinto dos Indecisos”. Cada um com seu banner, sua cor e seu grupo de WhatsApp. 

A Cutia Carla solta um riso curto, meio cansada, completa: — E no meio disso tudo, quem realmente luta por representatividade vira alvo de desconfiança, enquanto isso, tem bicho que nunca pisou num CRAS, nunca entrou numa comunidade, mandando áudio sobre “povo” como se fosse antropólogo. O Guaxinim Matheus levanta as mãos: — E eu, que virei objeto de análise cromática e até já teve colega me olhando de lado pra ver se a luz do sol me deixa mais claro ou mais escuro.

O Corvo Azul Kleidson balança a cabeça. — “Tribunal da melanina em sessão” (ele recita, teatralmente). — Réu: advogados autodeclarados. Juízes:  comissão, selfie e ring light. E o povo, onde é que entra nisso? A Koala Samira suspira, como quem abraça o mundo. — Eu preferia que a gente discutisse mais “quem sabe julgar” e menos “quem rende mais post” (ela diz) — A Justiça não precisa de influencer, precisa de magistrado.

A Cegonha América completa: — E precisa de memória. Porque daqui a pouco a eleição passa, a feijoada acaba, as máscaras rasgam, e quem ficar no tronão vai decidir a vida de quem nem sabe que hoje tem festa. O Pavão Márcio ajeita as penas, dá uma volta, para no centro. — Tudo bem, vocês podem fazer piada com a máscara mas no fim, meus amigos, quem for pro Tribunal vai ter que tirar todas as máscaras. Se não tirar, o processo tira. O Jacaré Cícero olha pra ele, meio sério, meio rindo. — E a OAB, Pavão, tira quando?  (ele provoca). — Porque, do jeito que vai, ela virou uma grande boate temática: OAB Black & White. Um blend de ego com discurso identitário, servido com gelo e certificado.

A Formiga João Pedro ergue uma patinha, concordando. — E que seja alguém que lembre que o processo não é figurante (ele completa). — É protagonista. O Rinoceronte Juvenal respira fundo. — E que continue simples, mesmo sentado lá em cima (ele pode). — Porque se inchar o ego, não cabe no gabinete. O Cisne Durval gira a concha na panela. — E que não esqueça de olhar pro lago inteiro, ele diz. — Não só pro próprio reflexo.

O Tucano Victor ajeita o bico: — E que fale menos “meu gabinete estará sempre aberto” e mais “meu voto estará sempre fundamentado” (ele propõe). — Isso, sim, muda a floresta. A Cabra Tatiana dá um passo firme à frente. — E que suba o morro sem pisar na cabeça de ninguém (ela exige). — Porque a queda em ribanceira institucional é feia. O Lobo Fabiano sorri, mão no peito. — E que tenha coração… valente ou não (ele conclui). — Mas que seja humano. A Capivara Arício encerra, manso: — Então, tá resolvido. Hoje a gente vota. Amanhã a gente aguenta. E depois de amanhã a gente lembra que, com Quinto ou sem Quinto, a briga continua sendo pela mesma coisa: uma Justiça que sirva a quem nunca foi convidado pra essa feijoada.

O Elefante Evânio Moura ergue a tromba com a suavidade de quem já carrega décadas de floresta nas costas e declara para a bicharada reunida: “Meus amigos, hoje é um dia importante para a advocacia sergipana. E digo mais: eu particularmente gostei muito da atuação de todos os candidatos. Foram éticos, foram sinceros. Todos sabem que tenho preferência pelo Pavão, isso não escondo… mas o que importa é caminharmos juntos. Hoje, mais do que nunca, é dia de união.” Antes que o silêncio se acomodasse, o Rinoceronte Juvenal, pesado como uma tese jurídica de mil páginas, entrou na roda fazendo até o chão vibrar. “Muito bem dito, Elefante… mas convenhamos: essa campanha foi cara. Teve bicho gastando como se estivesse disputando chefia da selva: marketing, drone, influencer, banner em cupinzeiro. Bonito? Sim. Barato? Nunca. Eu mesmo não gastei nada. Campanha se faz com história e palavra. Mas tudo bem… que vença o melhor. Só não esqueçam: são seis vagas, e eu sou o pesadão da história.”

Longe dali, a Pantera Negra Éden Augusto discava com a precisão de quem sempre tem um plano. “E aí, Tamanduá, tudo certo?” Carlos Pina atendeu com aquela calma filosófica de quem parece ter saído de um boteco iluminado por lamparina e de homenagem do TCE. “É, Pantera… é Pantera… nós começamos e não terminamos. Me pediram algo, pensei, desisti. E você, por que desistiu?” A Pantera deu um riso rouco. “Porque eu vi que chance eu não tinha. Simples assimE o Lagarto Genisson também desistiu.” Nesse instante, o Lagarto apareceu carregando livros debaixo do braço. “Eu desisti porque estou escrevendo outro livro sobre regras de futebol! Eu não podia entrar nesse jogo sem dar uma falta em ninguém. Aliás, sem dar uma falada.” Os três riram, cada um com seu motivo oculto, cada um com suas razões confessáveis, e todos sabendo que a floresta inteira também sabia. 

Foi então que surgiu, felino, bronzeado e com óculos espelhado, o Gato Coroa Waguinho Ribeiro, ronronando com sua voz arrastada de quem já viu de tudo e vive em modo verão. “Gente, para disso… vamos andar de lancha, tomar umas, ver as gatas… e tudo bem, a lancha já tá acesa! Vamos nessa, pessoal! Deixa de tristeza.” Os três se entreolharam e caíram na gargalhada. Porque, no fundo, sabiam: na floresta ou na marina, com ou sem Quinto, o Waguinho sempre tinha um plano mais leve ou, no mínimo, um cooler pronto.

Logo ao amanhecer, Leãozinho, inquieto como filhote de mico, liga para o padrinho Caçador CAM: “Tio! Tio! O que eu faço hoje no Quinto?” O Caçador respira fundo e responde com aquela voz de experiência que parece vir da mata antiga:  “Calma, Leãozinho. Hoje é dia de calma. Vá para o escritório… ou melhor, vá pra academia, tome água de coco na orla, se puder dê um mergulho pra lavar esse peso da mente. Depois volte e alinhe sua equipe pra ajudar nosso candidato. Sem ansiedade. Hoje é estratégia.” Leãozinho concorda, respira fundo, veste a roupa de academia e segue o conselho, não por obediência, mas por pura necessidade de não surtar.

No restaurante mais famoso da floresta, debaixo de luminárias feitas de troncos antigos, os veteranos se encontram: os Falcões Edson Ulisses e Clóvis Barbosa, acompanhados da Preguiça Inácio Krauss mais informada da selva. Clóvis coça a cabeça, olhando pro nada e pra tudo ao mesmo tempo. “Esse Quinto foi frio. Frio demais. Campanha sem objetivo, sem força. Na minha época tinha festa, tinha vibração, tinha discurso que tremia as folhas da copa. Hoje? Hoje não vi nada disso.” Edson Ulisses, o Falcão, ajeita a barba e concorda: “Nosso tempo era outro, Clóvis… mas vamos ver no que isso dá.” A Preguiça, com seu sorriso lento, interrompe os dois veteranos: “Que nada, Falcões… vocês é que estão ultrapassados! Foi uma guerra da gota serena. A bicharada me ligava o dia todinho! Advogado brigando, condenando outro, falando mal, parecendo que cada advogado era candidato. Aqui embaixo o pau comeu! Comeu tanto que até o Macaco Getúlio levou pancada! O Lobo foi pra Delegacia dos Bichos Virtuais, a Ursa Clarisse também teve que ir… e ainda vão sair mais confusões até cinco da tarde, Ave Maria!” E ela sorri devagar, como quem se diverte com o caos que só quem é lento o suficiente consegue observar em câmera lenta.

Enquanto isso, lá no alto, no Tribunal da Justiça da Floresta, os grandes se entreolhavam com aquela mistura de cochicho, fofoca e tensão que só aparece em véspera de Quinto Constitucional. Havia preocupação por todos os lados. Preocupação sincera, preocupação estratégica e, sobretudo, preocupação interessada porque na eleição do Quinto sempre existe uma preferência oculta, um nome que brilha mais no palácio, outro que reluz mais no tribunal e um terceiro que pisca melhor para o Executivo. Diziam, sem dizer, que o Tribunal da Floresta pendia para um nome vistoso, aquele das plumas longas, impecáveis, difíceis de ignorar. No Governo, por outro lado, o encanto recaía sobre um coração valente. E, dentro dessa dança silenciosa, cada poder tentava olhar o tabuleiro sem ser visto.

Foi então que a Grande Guardiã do Tribunal, a que carrega nas costas o peso das decisões e nos olhos a prudência de décadas, ligou para sua Corregedoria, com voz firme e baixa: — Precisamos estar atentos. Atentos a todos os movimentos. E repetiu, como mantra estratégico: — Todos os movimentos. Deputados, aprovação de leis, governador, Ministério Público, Tribunal de Contas… ninguém pode escapar do nosso radar. Respirou fundo e prosseguiu: — É por isso que eu gosto tanto daquele Vagalume, o Joab… vive acendendo uma luz aqui, outra ali, iluminando o que os outros não veem. E sempre escuto o Elefante Evânio; aquele ali, quando fala, traz paz até pra galho seco. Precisamos manter harmonia, tranquilidade… e, acima de tudo, não contrariar o Rei Leão do Executivo, Fábio Mitidieri. No final, a cartada é dele.

Enquanto isso, do outro lado da colina, no Palácio do Executivo, o Leão Fábio Mitidieri descansava com uma serenidade quase monástica. Parecia viver uma fase iluminada: inteligência afiada, espírito calmo, humor estável, coisa rara para um leão de governo. Chamou seu assessor mais fiel, a famosa Muriçoca Jorginho, que nunca pousava quieta, e perguntou: — E aí, Jorginho? Como está o Quinto? O que você acha do nosso preferido? A Muriçoca deu dois voos curtos, desviou de um papel, pousou no ombro do Leão e respondeu: — Leão Fábio… digo a você: está difícil. Mas fizemos um bom trabalho nos bastidores. Entre os seis, ele estará. Agora, entre os três… precisamos ficar alertas e zumbir forte no ouvido do Tribunal da Floresta. O Leão balançou a juba com gravidade. — Tem razão, Muriçoca. Vou chamar a equipe. O resto… o resto deixemos acontecer como a floresta exige.

E assim, enquanto a bicharada guerreava lá embaixo, roncava, votava, intrigava, fofocava e prometia mundos e fundos, os grandes lá de cima, Tribunal, Executivo e Legislativo Florestal, afinavam a orquestra invisível que realmente decide o destino da mata. Na Floresta dos Bichos, a democracia não é perfeita. Mas, pelo menos, rende boas conversas. E crônica, meu amigo… crônica não falta nunca. Mas que fique a lição: mais importante do que quem sobe ao galho mais alto é quem consegue atravessar a floresta sem perder a própria essência.

Os 28 bichos que se colocaram à prova merecem mais do que votos: merecem respeito. Porque, em tempos de egos inflamados e atalhos tentadores, escolher disputar o Quinto com coragem, com rosto descoberto, com história e cicatriz, já é por si só um gesto de bravura. Uns subirão. Outros não. Mas todos, se souberem ouvir o barulho do mato e o silêncio das raízes, sairão maiores. Na floresta, quem perde uma eleição pode, ainda assim, ganhar um lugar de honra. Porque, no fim, o verdadeiro mérito não está em conquistar o trono… mas em não se esquecer de onde veio ao tentar alcançá-lo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *