A construção de uma segunda ponte entre Aracaju e a Barra dos Coqueiros é uma aposta pessoal do governador Fábio Mitidieri. Uma aposta que custará aos sergipanos cerca de um bilhão de reais. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples: existe alguma justificativa técnica capaz de sustentar um investimento dessa magnitude?
A resposta é não. Do lado da Barra dos Coqueiros não existe um polo turístico que justifique essa obra. O litoral norte, além disso, é uma área de proteção ambiental, onde o próprio ordenamento territorial impede um grande adensamento urbano. Também não convence o argumento de que a ponte servirá para ligar o porto de Sergipe ao sul do estado. Isso significaria despejar, na zona urbana da Coroa do Meio, um intenso fluxo de caminhões transportando cargas industriais.
Do ponto de vista urbanístico, seria um completo contrassenso. Há ainda quem tente justificar esse investimento dizendo que ele resolverá o trânsito entre Aracaju e a Barra dos Coqueiros. Ora, estamos falando de uma obra que custará mais de sete vezes o valor investido na construção do Hospital do Câncer. Sustentar que esse gasto bilionário se destina apenas a melhorar a mobilidade urbana demonstra um profundo desconhecimento de como o trânsito funciona.
O problema nunca foi a ponte. Temos hoje uma ponte com quatro pistas, distribuídas nos dois sentidos, cuja capacidade atende confortavelmente ao volume de veículos que por ela circula. O verdadeiro gargalo está nos acessos. É na entrada e, principalmente, na chegada a Aracaju que o trânsito trava. É ali que surgem os congestionamentos. A culpa não é da ponte. A Avenida José Conrado de Araújo pode receber intervenções que aumentem significativamente a fluidez em direção à ponte. A Avenida João Rodrigues também possui condições para ser ampliada, distribuindo melhor o tráfego para importantes corredores da cidade, como as avenidas Coelho e Campos, Airton Teles e Simeão Sobral. Com um projeto inteligente de engenharia de tráfego, esse problema pode ser resolvido em muito menos tempo e por uma fração do custo.
E não estamos falando apenas de obras. Hoje existem sistemas de semáforos inteligentes que utilizam câmeras e inteligência artificial para controlar os fluxos em tempo real, reduzindo congestionamentos e aumentando a eficiência da circulação. Em outras palavras: com apenas 20% do valor previsto para essa segunda ponte — cerca de 200 milhões de reais — seria perfeitamente possível solucionar o problema que realmente aflige quem faz diariamente esse percurso.
Por isso, vender uma segunda ponte como solução para a mobilidade urbana não passa de um discurso conveniente. O verdadeiro problema permanece onde sempre esteve: nos acessos. Tudo indica que essa obra atende muito mais a um projeto político do que às reais necessidades da população. Depois de um governo que realizou pouco diante dos desafios de Sergipe, um empreendimento bilionário, visualmente impactante e de forte apelo eleitoral surge como a vitrine perfeita para uma campanha de reeleição. A pergunta que fica é inevitável: estamos diante de uma obra pensada para melhorar a vida dos sergipanos ou de um monumento erguido para produzir votos?




