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A última fábula (que não foi a última): O Mico, o Leãozinho e o surto na Floresta Jurídica

Era uma manhã calma na Floresta Jurídica. Os galhos balançavam preguiçosos, os autos dormiam nas pilhas de papel, e o fabulista, este velho escriba, pensava em se aposentar das fábulas. Já tinha narrado de tudo: pavões vaidosos, tamanduás silenciosos, corujas viajadas, até um tucano de paletó. Mas naquele dia… naquele dia ele largou a caneta e murmurou: — “Chega de fábulas. A realidade já está fantasiosa demais.” Até que o telefone da árvore tocou. Era o Macaco Getúlio, esbaforido: — “Fabulista! Liga o rádio da floresta! O Mico Valter Neto surtou!” O fabulista arregalou os olhos, escancarou o bico e gritou: — “Voltem os tambores! Reabram o teatro! Essa história merece ser contada.”

No centro da Floresta Jurídica, onde fica o Grande Ninho da Ordem (uma árvore robusta, com galhos regulamentados e ninhos numerados por comissões), o Mico Valtinho, também conhecido como Walter Neto, surgiu aos gritos: — “Eu sou advogado! Eu mato qualquer um aqui e nada acontece!” Empunhava… uma colher de pau. A Lebre Ana Lúcia, que estava ali só para renovar a senha digital da certidão negativa, pulou três metros e gritou: — “Esse mico tá doido! Vai brigar com o Leãozinho?! Só faltava isso!”

O Leãozinho Daniel, presidente da Ordem da Floresta de Sergipólis, estava em reunião com o Tamanduá Carlos Pina, discutindo sobre ética e café. Calmamente, interrompeu o diálogo e chamou: — “Segurança, tragam a rede. Temos um mico surtado na casa.” Eram às 12h34. O sol esquenta as folhas do galho executivo. O Leãozinho corre em círculos pelo gabinete com a juba desalinhada. O Caçador CAM limpa a espingarda ao lado da portaria.

Leãozinnho: “Padrinhoooo! Meu padrinhooo! Me ajude, por favor! O mico tá vindo! O mico tá vindo! Ele disse que vai voltar com uma faca e que vai me matar!” Suando pela juba, ofegante, o Leãozinho se esconde atrás da estante dos autos findos. Do outro lado, com olhar firme e passo de caçador veterano, surge Carlos Augusto, o lendário Caçador CAM, com seu coldre de jurisprudência e bota de mandado judicial.

CAM: “Calma, meu afilhado. Respira. Tá tudo sob controle. O mico pode ser esperto, mas aqui quem comanda a selva somos nós.” Leãozinho: “Mas padrinho, ele disse que ia me matar! Que é advogado, que pode tudo! Invadiu aqui, xingou geral, falou que ia voltar às duas pra matar todo mundo! Eu tô tremendo mais que código novo em curso de atualização!” Caçador dá um passo à frente, ergue o queixo e solta sua voz de autoridade ancestral. “Pois escute bem o que vamos fazer, Danielzinho da Selva… Primeiro: já mandei instaurar novo processo disciplinar no Tribunal de Ética da floresta. Suspensão preventiva? Já tá assinada. Se ele voltar, estará mais fora do que liminar vencida. Segundo: já redigi a ordem proibindo esse mico de botar os pés, as mãos ou a calda em qualquer galho da Ordem aqui em Sergipe. Se ele passar perto, vai ouvir o som da jurisprudência. Terceiro: mandei reforçar a segurança da portaria. Ninguém entra com banana, quanto mais com faca. Quarto: já preenchi a guia da esfera criminal. Crime de ameaça, desacato, perturbação do sossego institucional. Ele vai responder por cada palavra cuspida na raiva. E quinto, meu afilhado… vai tomar um chá de boldo com maracujá. Ninguém governa a floresta em pânico. Leão tem que rugir. Nem que seja baixinho, mas antes assine tudo porque o presidente é você”.

O Leãozinho respira fundo, enxuga a juba com uma petição antiga e tenta recuperar a altivez. Depois de assinar tudo sem ler disse: “Obrigado, padrinho… Eu achei que ia morrer hoje. Já tava pedindo medida protetiva ao TJ da Floresta… e comprando câmera pra por no meu carro. Eu juro, ando com medo até de lagartixa agora.” Caçador CAN põe a mão no ombro do Leãozinho e diz: “Leão que é leão não foge de mico. Mas também não subestima louco com crachá. Agora vai lá, segura tua Ordem, segura tua dignidade… e deixa o resto com o velho CAM.” O Leãozinho respira fundo, mira o espelho e sussurra pra si mesmo: “Na selva da advocacia… só sobrevive quem tem padrinho.”

O surto espalhou-se como fumaça em processo eletrônico. O Elefante Evânio Moura, sábio e sereno, ligou para o seu velho amigo Juvenal Rocha, o Rinoceronte. — “Juvenal… tu viu que o Mico invadiu a Ordem ameaçando o Leãozinho e os demais bichos?” Respondeu o Rinoceronte — “Rapaz… isso é coisa de gente desatinada. Mas vindo de quem vem… é esperado. A floresta abriga cada figura, né?” Continuou o Elefante— “Pois é. E o pior: temos advogado com atestado de louco exercendo profissão. Valtinho era um bom advogado. Inteligente. Elogiado. Mas depois… pirou o cabeção. Agora quer se tornar o Tarzan do Direito.”

Do alto dos Andes, empoleirada numa árvore boutique com vista para os alfajores, Clara Machado, a Coruja, interrompeu o mate argentino e pegou o telefone com as asas trêmulas: — “Anaaaa! Que babado, minha filha! Um Mico surtado invadindo a Ordem? Querendo esbofetear o Leãozinho? E o Caçador CAN… cruzou os braços? Ficou só olhando??”

Do outro lado da linha, a Lebre Ana Lúcia, que estava em pleno treino de agilidade na pista de prazos, deu um pulo e rebateu: — “Meninaaaa, foi um surto completo! O Mico entrou gritando que tava com faca, dizendo que ia matar o Leão, a diretoria, o cafezinho, o porteiro e até a impressora! Ameaçou voltar às duas da tarde pra fazer um massacre jurídico! Eu fiquei tremendo mais que prazo final de domingo.” — “E o Caçador, Ana? O CAM?!”, insistiu a Coruja, abrindo bem as penas de indignação.

— “O Caçador? Oxeee! O Caçador já armou foi o cerco! Baniu o Mico da floresta, acionou as cláusulas da Lei da Selva, mandou instalar câmeras, reforçou a portaria com dois jacarés treinados e uma anta concursada. Até a rede de banana ele cortou! Agora, se o Mico botar as patas ali, é direto pro tronco ético-disciplinar, sem direito a habeas banana!” 

Completou a Coruja — “Ave-Maria! E o Leãozinho?” Disse a Lebre — “Menina… o Leãozinho tava se tremendo todinho! Gritava: ‘Meu padrinhoooo! Me salve, padrinhooo!’ Com a juba toda desalinhada, parecia mais um gato molhado do que rei da selva. Mas o Caçador já botou ordem! O Mico que tente voltar… vai encontrar a floresta armada com a Constituição numa mão e o BO na outra!”

As duas riram, meio nervosas, meio aliviadas. E a Coruja, pousando o telefone, comentou baixinho: — “A cada dia, um animal novo tenta ser rei… mas esquece que na Floresta Jurídica, a Justiça voa, corre e… atira também

Enquanto isso, o Tucano Vitor Barreto, elegante como sempre, arrumava a gravata frente ao espelho do bebedouro da floresta e comentava com a Cabra Tatiane Silvestre: — “Tatiane, isso é coisa de roteiro da Netflix. Um mico querendo assassinar o Leão é, no mínimo, um caso de delírio processual com surto clínico.” Respondeu a Cabra: — “Louco é louco, Tucano. E o pior: tem carteira da Ordem!”

Em outro canto da floresta, onde a grama é cortada por jardineiros terceirizados e a brisa vem com cheiro de água tônica, Edem Augusto, a Pantera Negra, espreguiçava-se sobre uma pedra quente quando pegou o telefone e ligou para seu velho comparsa de risadas, o Gato Coroa Waguinho Ribeiro, que estava na varanda da lancha, olhando a chuva com cara de sábado cancelado.

— “E aí, gatão das águas mansas? Já soube da última do teu afilhado, o Walter Mico? O bicho surtou de vez! Invadiu a Ordem com uma faca na cinta, gritando que ia dar um tiro no Leãozinho! Disse que ia voltar às duas pra fazer justiça com as próprias patas!” Do outro lado da linha, com uma mão no telefone e outra no copo de gin, o Gato Coroa soltou um miado abafado: — “Oxe, Pantera! Não vi, não! E olha que fiquei o final de semana inteiro em casa, viu? A chuva me brecou geral, nem consegui velejar. Fiquei só assistindo Netflix e limpando a quilha da lancha… Agora me diga: esse Mico tá achando que é quem? Rambo dos primatas?”

— “Rambo nada, rapaz… esse aí tá precisando de um galho de psiquiatra e um banho de valeriana. E depressa!” — retrucou a Pantera, gargalhando com aquele ronronar felino de quem já viu coisa demais no meio jurídico. O Gato deu uma risadinha contida, olhou para o céu cinza e suspirou: — “Rapaz… o problema é que na Floresta Jurídica, todo dia tem animal querendo ser manchete. Uns com sentença… outros com surto.”

Ambos riram alto, como dois gatos velhos que já assistiram muito advogado virar meme. E voltaram, naturalmente, ao que mais lhes interessava naquele momento: — “Mas me diga, Pantera… tu prefere o mojito com hortelã fresca ou aquele toque de limão galego, hein?” Porque na floresta… o caos passa, mas o mojito é sagrado.

Aurélio Belém, o Super Mouse, manteve-se em silêncio. Estava em luto. Sua mãezinha havia partido para a grande floresta celestial. E mesmo sendo o mais ágil dos roedores, sabia a hora de calar, por respeito, por dor… e por decência. A floresta estava triste com o passamento da Sra. Joana Angélica.

Sob a sombra do Código Civil, a Preguiça Krauss se arrastava lentamente e comentou com o Tamanduá Carlos Pina: — “E aí, viu a confusão do mico?” Respondeu o Tamanduá — “Esses são casos criminais. Minha advocacia é ética, elitizada. Não me meto nessas tramas de selva.” A Preguiça coçou a barriga, olhou pro nada e disse: — “Tá certo… mas que é babado, é.”

O Macaco Getúlio, ansioso por mais fofoca, liga a cobrar para o Elefante Evânio: — “Elefante! Me diz aí, o Pavão comentou alguma coisa?” Respondeu o Elefante — “Macaco… procura teu lugar, rapaz. Tu tá parecendo o Mico.” Rejeitado, o Macaco pulou de galho em galho e tentou o Pavão Márcio Conrado. Ligou uma vez… nada. Duas vezes… só caixa postal. Três vezes… bloqueado. O Pavão, em sua varanda, apenas ajeitava as penas e dizia: — “Fabulista que lute.”

Por fim, o telefone do Urso Panda tocou. Era o Macaco, ainda procurando com quem fazer fofoca jurídica. O Panda, sempre ponderado, respondeu: — “Macaco… essas coisas acontecem. Mas nós, advogados da floresta, temos que nos proteger. Inclusive… de nós mesmos.”

E assim, o fabulista que havia jurado nunca mais escrever uma fábula, respirou fundo, riu alto e rabiscou a última linha: “Na Floresta Jurídica, até o Mico acredita que pode ser Leão. Mas quem tenta matar com palavras, acaba condenado pelo próprio eco.”

Moral da Fábula: Quem confunde prerrogativa com permissão, termina perdido entre a justiça dos bichos e a sanidade do ninho. Fim. Ou melhor… até a próxima audiência.

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