Roma amanheceu sem Francisco. O Vaticano, sem bússola. E o mundo católico, sem o único papa que ousou colocar ternura no centro do poder. Jorge Mario Bergoglio, o argentino que se tornou Papa Francisco, foi o capítulo mais improvável e necessário da Igreja Católica contemporânea. O homem que, diante de uma instituição milenar enrijecida pelo formalismo, optou por uma fé encarnada no cotidiano: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído às ruas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.”
Ele não apenas mexeu nas estruturas, sacudiu os alicerces com leveza e método, como quem sabe que tradição sem alma vira peça de museu, e dogma sem compaixão é apenas opressão disfarçada de santidade. Francisco reformou a Cúria Romana não como quem lidera uma reestruturação administrativa, mas como quem lava os olhos da instituição para enxergar o povo que a sustenta. Descentralizou decisões, internacionalizou o colégio de cardeais, colocou os marginais no centro e os centros de poder na berlinda. Criou um Sínodo onde, pela primeira vez em séculos, os leigos, inclusive mulheres, tinham mais do que lugar decorativo: tinham voz, pauta e escuta real.
E aí, já começou o incômodo. Porque escutar, num espaço que por tanto tempo só soube mandar, é subversivo. E Francisco sabia disso. Sabia que estava mexendo em estruturas de concreto com palavras leves. E por isso era perigoso.
Falou de sexualidade como quem entende que a alma humana é mais complexa do que listas de proibições. Denunciou abusos com firmeza, enfrentou o próprio clero, recolocando a dignidade das vítimas acima da reputação da instituição. Sobre o meio ambiente, lançou a encíclica Laudato Si’, um chamado radical à responsabilidade planetária, lembrando: “O clamor da terra e o clamor dos pobres são o mesmo clamor.”
Sobre a pena de morte? Não teve rodeios. Aboliu do catecismo. “Toda vida humana é sagrada. Não há exceção.” Esse era Francisco. Doutrinariamente claro. Evangelicamente coerente. Humanamente insuportável… para os que lucram com a rigidez.
Mas foi com as mulheres que ele desferiu o golpe mais simbólico no coração patriarcal da Igreja. Ele não lhes ofereceu apenas palmas nas missas ou lugares na cozinha litúrgica. Ofereceu poder institucional. Nomeou mulheres para cargos importantes no Vaticano, autorizou que participassem de votações sinodais, e colocou na mesa a discussão formal sobre ordenar diaconisas. Isso, num universo eclesial onde a palavra “diácono” parecia cláusula pétrea masculina, foi mais do que audácia: foi profecia. E como toda profecia, foi incômoda. Teve cardeal engasgando com a hóstia e bispo fingindo que não ouviu.
Francisco não tinha medo da tensão. Ele entendia, como poucos, que uma fé viva não evita o conflito, dialoga dentro dele. E por isso afirmava: “O tempo é superior ao espaço.” Ou seja: melhor plantar processos do que ocupar tronos. Melhor caminhar junto do que fingir unanimidade de fachada.
Mas agora, com sua partida, a pergunta que se instala é: e depois de Francisco, quem terá coragem de continuar essa obra aberta? O conclave se aproxima. A fumaça branca logo subirá. Mas os ventos conservadores sopram com força por trás das cortinas de veludo carmesim. Há quem deseje um papa que “recolha os cacos” e leia-se: que feche as portas abertas, que silencie as vozes que finalmente estavam sendo ouvidas, que revogue a coragem com liturgia.
Querem um papa mais paletó do que povo. Mais altar do que abraço. Querem a volta da Igreja que se preocupa com o decote da catequista, mas ignora a dor da mãe solo. Que fala em pecado, mas esquece que o amor, seja ele qual for, também é santo.
O risco é real. A Igreja que caminhava, agora pode parar. Pior: pode recuar. E esse retrocesso virá mascarado de “retorno à doutrina”. Mas como bem dizia Francisco: “Uma doutrina que não conhece a misericórdia não é doutrina cristã. É ideologia.”
Porque, no fundo, o que está em disputa não é o ritual, é a alma da Igreja. É a tensão entre uma instituição que deseja segurança e uma fé que exige vulnerabilidade. Entre um sistema que ama o poder e um evangelho que diz: “O maior entre vós seja o menor.”
Francisco ousou amar com coragem. E pagou o preço. Foi taxado de “pop”, de “progressista”, de “perigoso”. Tudo isso por dar um beijo no leproso e não no anel. Ele acolheu migrantes enquanto outros queriam muros. Deu atenção aos pobres enquanto parte do clero seguia acumulando ouro. E teve a audácia de lembrar que Jesus nasceu num estábulo, não num palácio.
Agora, sem ele, o risco é que a Igreja volte a se esconder nos brocados, no latim que ninguém entende, no moralismo seletivo que condena corpos, mas acoberta pecados. Mas aqui vai meu aviso, com batom vermelho e o microfone ligado: O mundo mudou. A fé que não muda junto, morre em silêncio. A Igreja que quiser sobreviver ao século XXI vai precisar falar menos de céu e mais da terra. Vai ter que entender que mulher no altar não é ameaça, é reparação histórica. Que LGBTQIA+ não é desvio de rota, mas parte do mapa de Deus. Que tradição não é prisão, é herança viva e herança que não evolui, vira fardo.
Francisco morreu, sim. Mas seu legado não será enterrado com ele. Porque ideias não morrem. E quando elas nascem do amor, resistem mesmo sob ataque.O novo papa que se prepare. O mundo está de olhos abertos. As mulheres estão de pé. E os pobres, os marginalizados, os que Francisco chamou de “centro do Evangelho” estão esperando continuidade.
Portanto, que venha o próximo pontífice. Mas que venha sabendo: Não aceitaremos mais uma Igreja onde o silêncio seja mais forte que a compaixão. Onde o altar seja mais sagrado que o abraço. Onde a fé seja mais temor do que amor. Com uma bênção à ousadia!




