“Acorda, amor”. Foi mais ou menos esse o clima que tomou conta dos corredores frios do Tribunal de Justiça de Sergipe depois que publicamos ontem o texto sobre o eterno episódio dois da novela chamada quinto constitucional. Porque até então o tribunal parecia estar num sono profundo, daqueles em que o despertador toca, toca, toca e ninguém levanta. Bastou um burburinho correr pelos corredores para que a música de Chico Buarque começasse a tocar simbolicamente nos gabinetes. “Acorda, amor”. Porque alguém bateu no portão da consciência institucional.
“Acorda, amor. Eu tive um pesadelo agora. Sonhei que tinha gente lá fora batendo no portão”. E não era exatamente pesadelo, não. Era apenas a advocacia perguntando por que uma vaga do Quinto Constitucional consegue completar três aniversários com direito bolo, vela e sem solução. O curioso é que o barulho não veio apenas do Portal. Veio do cafezinho, da vassoura, da portaria, da sala dos técnicos e analistas, dos corredores onde os comissionados cochicham em vez de falar. De repente todo mundo percebeu que a novela estava ficando longa demais.
“Acorda, amor. Não é mais pesadelo nada. Tem gente já no vão da escada”. E tem mesmo. Porque quando um tribunal demora demais para resolver algo simples, começa a aparecer gente em cada canto comentando. O policial da portaria comenta, o assessor comenta, o analista comenta, o juiz auxiliar comenta e, naturalmente, os desembargadores também comentam. A pergunta era uma só. Como é que uma vaga do Quinto Constitucional consegue passar tanto tempo em banho maria institucional.
“Acorda, amor. Eu não gosto de passar vexame”. Pois foi justamente para evitar vexame maior que o tribunal resolveu se mexer. No final da manhã de ontem, sexta-feira, a engrenagem finalmente girou e o desembargador Roberto Porto foi informado para apresentar suas razões. Nem defesa formal, veja só. Apenas razões. Porque o próprio desembargador entende que continua apto a votar no processo mesmo sendo concunhado do candidato Márcio Conrado. O Brasil é mesmo um país de relações familiares generosas.
“”Acorda, amor. Se eu demorar uns meses convém você sofrer”. Só que neste caso não foram meses. Foram anos. Três anos de espera por uma vaga que pertence à advocacia sergipana. Três anos em que os advogados repetiam a mesma pergunta simples e direta enquanto o presidente da Ordem, Daniel Alves, parecia assistir a tudo como quem canta baixinho “E eu aqui parado de pijama, eu não gosto de passar vexame”, mas acabou passando. Porque enquanto a vaga dormia no calendário e a advocacia aguardava resposta, a condução do tema pela Ordem virou constrangimento público. O que se pedia nunca foi favor, privilégio ou milagre. Pedia se apenas aquilo que a lei já garante..
“Acorda, amor. Que o bicho é brabo e não sossega”. E quando a imprensa começa a bater na porta institucional, o bicho realmente não sossega. Foi assim que o tribunal finalmente acordou, espreguiçou a burocracia e começou a se movimentar. Nesse ponto é justo registrar o papel da presidente do Tribunal de Justiça, desembargadora Yolanda de Guimarães, que resolveu colocar o despertador institucional para tocar.
“Acorda, amor”. Porque quando o Judiciário acorda todo mundo dorme mais tranquilo. A advocacia, a sociedade e até o próprio tribunal. Afinal, justiça que demora demais começa a parecer aquele pesadelo que Chico Buarque descreveu. A gente acorda assustado e percebe que o problema não estava no sonho. Estava na demora para abrir os olhos. E agora que o tribunal acordou, que siga acordado. Porque dormir três anos em cima de uma vaga já foi sono demais até para a mais paciente das instituições.




