A política da Barra dos Coqueiros tem uma característica fascinante: ninguém permanece inimigo por tempo suficiente para devolver as fotografias antigas. Airton Martins, Alberto Macedo e Pastora Salete não começaram essa história em trincheiras opostas. Em 2019, Alberto e Salete integravam o agrupamento político comandado por Airton, que preparava a própria sucessão municipal. Alberto acabou escolhido, venceu a eleição de 2020 e recebeu a chave da Prefeitura das mãos daquele que depois se tornaria seu principal adversário. Salete também caminhou naquele campo político, afastou se, aproximou se de Alberto em 2023 e, em 2024, disputou a eleição pelo PL, partido integrante da coligação que tentou reelege-lo. Em resumo, os três já estiveram politicamente próximos, já se separaram e agora protagonizam uma espécie de novela tropical em que o elenco não muda, apenas troca de núcleo, discurso e grupo de WhatsApp.
A ruptura entre Pastora Salete e Airton ganhou musculatura depois que ele retornou à Prefeitura em janeiro de 2025. A vereadora passou a questionar a criação de cargos comissionados, estimando uma folha superior a R$ 3,4 milhões, criticou a interrupção inicial do Cartão Comida na Mesa, apontou falta de transparência nos gastos com publicidade, levantou dúvidas sobre a autorização para um empréstimo de R$ 400 milhões e assumiu a linha de frente na defesa das catadoras de mangaba contra a retomada de uma área pelo Município. São pautas relevantes, e Salete merece reconhecimento pela disposição de fiscalizar, ocupar a tribuna e colocar o dedo em feridas que muitas vezes preferem permanecer cobertas por uma bela faixa de inauguração. O problema é que, em determinados momentos, a fiscalização ganha temperatura de culto de avivamento político, com denúncia, indignação, convocação dos órgãos de controle e quase uma trombeta anunciando o fim dos tempos administrativos. Airton, naturalmente, considera parte dessas críticas exagerada ou politicamente motivada, enquanto sua base afirma que a vereadora transforma divergências administrativas em batalha pessoal.
Com Alberto Macedo, a história foi ainda mais cinematográfica. Airton ajudou a elegê-lo em 2020, mas o casamento político começou a desmoronar no início de 2023, quando os dois passaram a disputar o futuro da Prefeitura e o controle do agrupamento. Alberto reclamava que Airton funcionava como uma sombra pesada sobre sua administração, enquanto Airton acusava Alberto de falta de palavra, ingratidão e afastamento dos antigos aliados. Depois da ruptura, Alberto aproximou se de adversários históricos de Airton, tentou a reeleição e acabou derrotado por uma diferença apertada: Airton venceu com 49,30 por cento dos votos, contra 47,44 por cento de Alberto. Já no novo mandato, Airton acusou o antecessor de má gestão, obras mal executadas e de ter deixado uma obrigação financeira de R$ 15 milhões. Alberto negou as acusações e respondeu que, havendo irregularidades, elas deveriam ser apresentadas aos órgãos de controle, e não utilizadas como munição sem prova. Alberto merece elogio pela longa experiência administrativa e pela coragem de enfrentar eleitoralmente o antigo padrinho; Airton merece reconhecimento pela impressionante capacidade de voltar ao poder. Mas convenhamos: quando criador e criatura brigam desse jeito, até Frankenstein pede mediação.
Agora surge um capítulo especialmente saboroso. Na entrevista que motivou esta matéria, Airton afirmou não guardar raiva de Salete, disse que a perdoa, recordou a antiga amizade, as visitas à casa da vereadora e o espaço que teria oferecido ao grupo dela, chegando a mencionar duas secretarias. Também declarou que ela deseja ocupar seu lugar, mas, no mesmo fôlego, abriu as portas para uma reconciliação e até admitiu apoiá-la no futuro, caso ele próprio não seja candidato. É o equivalente político de dizer: “Você me ataca, quer minha cadeira, mas venha tomar um café porque podemos resolver isso”. Airton, com quatro mandatos de prefeito e reconhecida habilidade de articulação, sabe que política não se faz apenas derrubando pontes, mas reconstruindo algumas quando aparece uma eleição no horizonte. Salete, em seu terceiro mandato, sabe que uma oposição ativa aumenta visibilidade e musculatura eleitoral. Alberto, advogado, assistente social, delegado aposentado e duas vezes prefeito, sabe que derrotas eleitorais não significam necessariamente aposentadoria. Os três conhecem a máquina, conhecem o povo e, principalmente, conhecem uns aos outros, talvez até demais.
A conclusão é simples e quase alegre: as brigas políticas da Barra costumam ser intensas, barulhentas e profundamente efêmeras. Hoje há acusação de traição, amanhã há fotografia sorridente; hoje alguém é chamado de incompetente, amanhã pode virar aliado indispensável; hoje a porta está fechada, amanhã aparece um convite para entrar pela garagem. Pastora Salete tem coragem, presença popular e capacidade de fiscalização. Alberto Macedo carrega experiência, formação e uma história política que não desaparece com uma derrota. Airton Martins possui liderança eleitoral, poder de articulação e uma longevidade política que poucos conseguem alcançar. O humor está justamente aí: os três são fortes demais para desaparecer, experientes demais para jurar inimizade eterna e inteligentes demais para ignorar uma aliança conveniente. Na Barra dos Coqueiros, a maré sobe, a maré desce e os palanques também. O povo apenas espera que, entre uma reconciliação, uma denúncia e outra troca de abraços, sobre algum tempo para governar, fiscalizar e cuidar da cidade.




