Se você acha que a Assembleia Legislativa de Sergipe anda devagar, é porque não viu a última semana. Teve grito, teve gesto, teve vaia implícita e até pedido de desculpas o que, na política, é quase milagre. Alguns parlamentares brilharam, outros tropeçaram nas próprias falas, e teve até quem conseguiu fazer cultura parecer pauta de urgência. Spoiler: é mesmo.
Enquanto Linda Brasil denunciava censura com força, mas sem efeito prático, Luizão Donatrampi subia a tribuna como um trator ideológico sem marcha ré. Já Kitty Lima e Georgeo Passos, do mesmo partido, seguiram por trilhas opostas — ela abraçada ao governo, ele de lupa na planilha e dedo no freio.
Cristiano Cavalcante prometeu asfalto com sotaque eleitoral, Manuel Marcos entregou demandas e esperança (mas sem garantias), e Paulo Júnior reacendeu a chama da cultura no meio da mesmice.
Teve também Áurea Ribeiro, que mostrou que é possível criticar com elegância e pedir união sem parecer ingênua. E Georgeo, mais uma vez, fez o que se espera de um bom deputado: fiscalizou com dados, sem fanatismo.
Pra fechar, dois momentos que merecem destaque: a homenagem ao jornalista Ivan Valença, o escriba que não passava pano nem por decreto, e o gesto de Luciano Pimentel, que errou, reconheceu e corrigiu — feito raro em plenário e ainda mais raro na política.
E no alto da Casa, Jeferson Andrade, sem holofote e sem barulho, fez o que poucos fazem: construiu pontes entre os poderes e mostrou que articulação também é trabalho e dos bons.
Quer entender quem falou com propósito, quem só fez pose, quem perdeu a mão e quem surpreendeu? Então role pra baixo e leia as notas da semana.
Porque se a política sergipana é um teatro, aqui a gente entrega o roteiro, sem cortar as falas incômodas.
Jeferson Andrade: quando articulação institucional vira avanço concreto – Na recepção dos novos projetos do Tribunal de Justiça de Sergipe, o presidente da Alese, Jeferson Andrade (PSD), mostrou mais uma vez que a política também se faz com diálogo, não só com discurso. Ao receber as propostas que criam a Vara Regional do Júri e o Núcleo Estadual de Garantias, Jeferson reafirmou a importância da parceria entre os poderes — e não é da boca pra fora. A boa relação que ele mantém com o TJ, o Ministério Público, o Executivo e instituições como a OAB tem rendido frutos reais. Alese deixou de ser apenas um balcão de projetos e passou a ser ponte entre justiça, modernização e sociedade. E isso, em tempos de vaidade institucional, é um mérito raro. Jeferson não grita, não polariza — costura. E quem ganha com isso é o povo sergipano, com um Judiciário mais ágil, processos mais rápidos e um Legislativo que assume seu papel de protagonista institucional com responsabilidade. Jeferson Andrade entende que política boa não é só fazer lei, é saber com quem se faz. E, nesse caso, parceria virou progresso. E progresso, justiça.
Linda Brasil: fala alto, mas acerta pouco – Linda Brasil (Psol) denunciou, mais uma vez, um projeto de lei que tenta censurar escolas. O discurso? Forte, indignado, cheio de termos como “autoritarismo” e “resistência”. Mas na prática, ficou no grito. Falta articulação política, estratégia de comunicação e ação concreta além do microfone. Enquanto a extrema direita avança com vídeos manipulados e discursos simples, Linda ainda responde com textão e nota de repúdio. Linda tem causa legítima, mas atua como quem protesta, não como quem enfrenta. E em tempos de guerra política, quem só reage, perde espaço.
Kitty e Georgeo: um partido, dois rumos – Kitty Lima, agora vice-líder do governo, trocou o discurso independente pela cadeira do poder. Diz que não perdeu a essência, mas quem entra no governo, entra no jogo e assume seus custos. Já Georgeo Passos, do mesmo partido, está na direção oposta: faz oposição firme e fiscaliza o governo que Kitty agora defende. Enquanto ela constrói pontes com o Palácio, ele segue erguendo barreiras com planilha na mão. Kitty virou base. Georgeo virou freio. Mesmo partido, dois estilos e uma pergunta no ar: quem vai representar melhor o eleitor quando o governo errar?
Cristiano Cavalcante: asfalto, agro e voto no mesmo caminho – O deputado Cristiano Cavalcante (UB), líder do governo na Alese, protocolou a Indicação nº 92/2025 pedindo a pavimentação da SE-160, entre Capela e Aquidabã. A promessa? Reduzir 20km de trajeto, melhorar o escoamento da produção agrícola e garantir conforto pra quem vive entre leite, gado e abacaxi. O discurso é redondo, o asfalto ainda não, mas já vale manchete em rádio local e foto no Instagram com bota suja de propósito. Cristiano acerta ao mirar na infraestrutura rural, mas a pergunta que fica é:
vai sair do papel ou vai virar mais um projeto encalhado entre a planilha e a promessa? Porque, em ano pré-eleitoral, poucas coisas correm mais que trator em discurso e menos que trator em obra. Cristiano quer ligar Capela a Aquidabã com asfalto e voto. Se o projeto sair, ótimo. Se não sair, já deu pra pavimentar o marketing.
Manuel Marcos e a visita da esperança (ou do protocolo) – Na semana passada, o deputado Manuel Marcos (PSD) foi até a Emsurb para entregar demandas da população, aquelas mesmas que aparecem em época de chuva, buraco ou eleição. Recebido pelo presidente Hugo Esoj e o diretor de Orlas e Parques, Fabiano Oliveira, o parlamentar reforçou que está “sempre pronto a cobrar”. Bonito, né? Só faltou combinar com o resultado. Manuel reforça que está ouvindo o povo e dialogando com o executivo. Só não ficou claro se o diálogo vira ação — ou só visita com foto e promessa protocolar. Manuel levou o recado da comunidade. Agora a gente espera que a resposta da Emsurb não seja só aquele “vamos analisar com carinho” que já asfaltou muita paciência por aí.
Paulo Júnior: quando o parlamentar acende a tocha da cultura – No meio de tantos discursos reciclados sobre asfalto, emendas e promessas que cabem num panfleto eleitoral, o deputado Paulo Júnior (PV) fez diferente: defendeu a cultura popular como política de memória e identidade. E isso, meu amigo, em tempos de corte de verbas e apagamento simbólico, vale mais que mil requerimentos. Ao destacar a tradicional Procissão do Fogaréu, em São Cristóvão, Paulo Júnior não apenas homenageou um evento religioso, ele reafirmou a importância de preservar o que nos une como povo. A encenação da Paixão de Cristo, o cortejo de tochas, o teatro a céu aberto… tudo isso é patrimônio vivo, e o deputado teve sensibilidade (e coragem) de dar espaço a isso na tribuna. Paulo Júnior lembrou que cultura não é gasto, é investimento na identidade. E, desta vez, foi mais do que deputado: foi guardião da chama.
Luizão Donatrampi: dedo em riste e discurso na jugular – O deputado Luizão Donatrampi (UB) subiu à tribuna da Alese como quem entra em campo pra final de campeonato: falando alto, mirando certeiro e sem medo do rebote. Criticou o que chamou de “militância político-partidária” em escolas públicas e bateu de frente com a deputada Linda Brasil (Psol) após a repercussão de um vídeo polêmico em Nossa Senhora das Dores. Concorde ou não com o tom, Luizão mostrou coragem política, coisa rara num plenário onde muitos preferem o conforto da omissão ao desgaste do embate. Fez o que acredita, bancou a fala, peitou sindicato, bateu no uso político do ambiente escolar e cobrou providências do governo. Não tergiversou, não se escondeu atrás de assessoria, falou o que pensa, com todas as letras. Luizão não foge da briga. Pisa na polêmica com os dois pés e, certo ou não, mostra que tem espinha e não balança com o vento da repercussão. Quem quiser rebater, que suba na tribuna — ele já tá lá, esperando.
Áurea Ribeiro: tradição, firmeza e voz serena no meio do barulho – Áurea Ribeiro (Republicanos) mostrou que política também pode ser feita com sensibilidade e coerência. Homenageou os 145 anos de Lagarto, celebrou a tradição solidária da distribuição de peixes na Semana Santa e, com classe, criticou a atual gestão municipal sem transformar o discurso em ringue eleitoral. Relembrou o legado do saudoso Ribeirinho, elogiou ações feitas “sem holofote” e fez um apelo raro, mas necessário: mais união e respeito no Parlamento. Em tempos de gritos e tretas, Áurea usou a tribuna pra lembrar que empatia, quando sincera, também é ato político.Áurea Ribeiro falou com o coração, cobrou com firmeza e pediu união sem perder a elegância. Fez política como deve ser: de gente pra gente — e com memória no discurso.
Georgeo Passos critica reajuste no transporte e cobra sensibilidade do governo – O deputado Georgeo Passos (Cidadania) subiu à tribuna com uma bronca justa: quase 16% de aumento nas tarifas dos ônibus intermunicipais em Sergipe. O reajuste, publicado no Diário Oficial, pesa direto no bolso de quem depende da Coopertalse pra trabalhar, estudar ou buscar atendimento médico. Georgeo reconheceu que o setor precisava de reequilíbrio, mas cobrou do governo uma medida mais justa: subsídio em vez de repasse direto ao usuário. “Não dá pra tirar 16% do bolso de quem já tem pouco”, disparou, lembrando que o Estado tem alta arrecadação e pode e deve aliviar o impacto nos trabalhadores. O deputado também aproveitou para cutucar o ritmo lento da CNH Social, pedindo mais agilidade e propondo a ampliação do programa para alunos do 3º ano do ensino médio e da EJA. Citou até o exemplo do Piauí, que distribuiu 10 mil CNHs, enquanto Sergipe segue patinando com números tímidos. Georgeo foi direto: não é justo equilibrar planilha com o bolso do trabalhador. Fez o que se espera de um parlamentar atento: criticou, propôs e comparou — tudo com dados, sem gritaria.
Alese presta homenagem a Ivan Valença: o escriba que nunca passou pano Deputados – Os deputados prestaram homenagem ao jornalista Ivan Valença, que faleceu na noite anterior, deixando um legado de mais de 60 anos de jornalismo crítico, ético e incômodo, do jeito que deve ser Jeferson Andrade, Luciano Pimentel, Georgeo Passos, Garibalde Mendonça, Adailton Martins, Linda Brasil e Kitty Lima usaram a tribuna para reconhecer o papel de Seu Ivan, como era carinhosamente chamado, na história da imprensa sergipana e da própria Alese. Georgeo Passos lembrou um dos artigos mais emblemáticos de Ivan, “O Legislativo que não legisla”, publicado em 2015 e fez questão de dizer que, infelizmente, o texto segue atual. Ivan escrevia com coragem, sem bajulação, sem se vender a tapinha nas costas. Não buscava elogio, buscava impacto. Ivan Valença foi mais que jornalista: foi cronista da política, crítico do poder e guardião da cultura. Uma mente que pensava antes de escrever e escrevia pra provocar quem precisava ser provocado. Sergipe perdeu uma referência. A política, um observador implacável. E a imprensa, um mestre que escrevia com alma — e publicava com coragem.
Luciano Pimentel: errou, voltou e corrigiu — o que já é um feito raro na política – O deputado Luciano Pimentel (PP) protagonizou um momento raro na política sergipana: subiu à tribuna não para atacar, mas para se retratar. Após denunciar supostos encargos abusivos do IPTU em Aracaju, o parlamentar voltou atrás e reconheceu publicamente o erro da sua assessoria e o seu, por não conferir os dados antes do discurso. A cobrança que parecia escandalosa era, na verdade, legal e prevista por lei, e o valor elevado se devia a uma parcela atrasada de 2024, não de 2025. Pimentel agradeceu ao deputado Georgeo Passos, que o alertou para o equívoco, e reconheceu a lisura da Prefeitura de Aracaju no processo. Luciano errou, mas teve a coragem de assumir, corrigir e pedir desculpas em plenário, algo que vale mais que muitos discursos bonitos. Numa política onde o ego pesa mais que a verdade, admitir falha é quase ato revolucionário.
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