Déda pensava, Venâncio agitava, Chiquinho cortava, Ana ensinava e Antônio Passos calava e todos, à sua maneira, faziam a Assembleia tremer. Hoje, o silêncio é tão grande que daria pra ouvir o eco da saudade se o microfone ainda funcionasse.
Antes de tudo, peço licença aos fantasmas da boa política. Se esqueci algum tribuno ilustre nesta crônica de doze anos de plenário, não foi por desatenção, mas porque o eco das vozes fortes virou sussurro. Quando a Assembleia silencia, até a memória se aposenta. Falar de quem fazia o plenário tremer é quase um ato arqueológico, como procurar brasas antigas num chão de cinzas frias. Mas é preciso fazê-lo, porque a história de um Parlamento não morre: às vezes, só adormece em silêncio esperando alguém bater o martelo da lembrança.
Dito isso, há algo estranho, quase melancólico, batendo no coração da política sergipana. A Assembleia Legislativa de Sergipe, que já foi coliseu de debates, virou uma sala de espera com microfone e ar-condicionado em 18 graus. Pouca emoção, pouca ação e nenhuma faísca de ideia. Um teatro mudo onde a plateia foi embora e os atores esqueceram o texto. É trágico ver um Parlamento que já pulsou com o sangue do povo virar um auditório de eco. Thomas Hobbes dizia que “a experiência é a mãe da sabedoria” e a Alese já teve muitas mães e madrinhas de sabedoria. Ali nasceram embates que pareciam rounds de UFC com toga parlamentar.

Venâncio Fonseca subia à tribuna em chamas. Não discursava: incendiava o regimento. “Vasculhem a minha vida!”, bradou uma vez, cercado de acusações. E o plenário pegou fogo. Entre uma denúncia e outra, ainda encontrava tempo pra ironizar a política da laranja: “as dificuldades só aumentam, mas a beleza da Rainha da Laranja também”, dizia. Se o mundo fosse acabar, Venâncio faria o último discurso com microfone em punho e metáfora em brasa.

Do outro lado do ringue, vinha Chiquinho Gualberto, o homem do facão. Ele mesmo dizia: “Sou o facão que corta o mato da hipocrisia política”. Falava sem anestesia, sem adereço e, muitas vezes, sem paciência, um cabra de verbo afiado e punho retórico. Se Venâncio Fonseca fazia rir com o humor da laranja: “Eu sou o homem da laranja, mas tem gente que só sabe chupar e jogar o bagaço fora”, provocava, Chiquinho fazia tremer com o golpe seco do facão. E lá vinha Ana Lúcia, firme, levantando a voz entre eles: “Pois eu sou a mulher da educação!”. E quando Marcelo Déda ainda cruzava aqueles corredores, completava com elegância e ironia de professor de república: “E eu sou o homem republicano, a política é diálogo, não duelo de facas.” Assim era o tempo em que a tribuna fervia, o verbo suava e o plenário cheirava a pólvora e paixão.

Aí vinha Ana Lúcia, professora de ofício e deputada de punhos, não de discursos de vitrine. Quando tomava a tribuna, transformava o plenário em sala de aula e usava a paciência como ferramenta, até o ar-condicionado parava pra escutar. Subia com o giz da experiência e riscava verdades no quadro negro do poder: cobrava o pagamento do piso dos professores, denunciava governos que jogavam a categoria nas cordas. Em 2012, por exemplo, ela voltou a reafirmar suas críticas ao então governador, dizendo que “não é esse o papel de um estadista” insistir no descumprimento do piso salarial da educação, um recado que não era retórico, mas uma convocação à responsabilidade.

Iran Barbosa era o contraponto, falava de estatísticas como quem dissecava um paciente político, nada de show, só precisão. Por exemplo, em discurso na Assembleia ele já afirmou que “não podemos tolerar qualquer tipo de manifestação que tente fragilizar a nossa incipiente democracia”, frase curta, certeira, sem floreios inúteis.

E quando Antônio Passos abria a boca, ou, pior ainda, quando calava, a Casa parava. Não era retórica: era instinto parlamentar. Se falava, decretava. Se ficava emudecido, trazia um silêncio que pesava como pedra no púlpito. Sob sua presidência, implementou mudanças estruturais, TV Alese, sessões itinerantes, programas parlamentares e não em discursos decorativos, mas em atos com impacto. Era o tipo de figura que, quando fazia aparte, muitos prendiam o fôlego: sabia que cada palavra vinha com selo de compromisso, como o silêncio falasse por ele.

Garibalde Mendonça, o mediador nato, parecia aquele juiz de ringue que evita o nocaute, mas sabe a hora de deixar bater. Nicodemos Falcão, moralista no melhor sentido: um homem de fé pública e convicção privada. E Pastor Heleno, voz de púlpito e coração de praça pública, pregando e brigando ao mesmo tempo, como quem sabe que o céu também tem eleição.

Marcelo Déda, ainda nos tempos em que ocupava cadeira de deputado estadual, já era aquele orador capaz de unir poesia e pragmatismo, de recitar ideais com voz firme e olhar de quem constrói. Ele dizia que “a sorte não ajuda o preguiçoso”, frase curta, direta, tomada de autoconsciência e esperança. Mesmo antes de assumir o poder executivo, ele falava como quem plantava destinos, não como quem decorava promessas. Quando falou que “não me caibo na solidão do pronome eu, aqui e agora sou muitos”, estava afirmando que seu mandato transcendia sua figura, era espelho coletivo. Nesses momentos, Déda não se limitava a discursar: ele lançava sementes para uma política que se quer resistente, orgânica e viva.

Belivaldo Chagas, sucessor legítimo do verbo e da veia, foi o político que entendeu que memória não é decoração, é direção. Ao inaugurar a Sala Gov. Marcelo Déda, disse: “Déda construiu uma grande história, e nada mais justo que preservá-la”. Belivaldo, como quem acende uma vela no altar da política, mostrou que lealdade não é herança, é continuidade.
E hoje? Hoje, o Parlamento parece mais um grupo de WhatsApp silenciado. Maiakóvski já avisava: “sem renovação, a experiência apodrece”. Pois é: a Alese não está envelhecendo, está apodrecendo em silêncio. Os discursos soam como atas de reunião de condomínio, e o púlpito, outrora palco de ideias, virou tripé de celular.
Salvam-se raros. Georgeo Passos é uma exceção: filho de governo (Antônio Passo), virou opositor convicto. Mostra que coerência vale mais que sobrenome. Kitty Lima e Linda Brasil resistem com coragem, a primeira com a energia felina da juventude; a segunda com a serenidade de quem sabe que diversidade é política, não desfile.
O presidente da Casa, Jefferson Andrade, merece um parêntese e daqueles em que a gente para pra respirar antes de criticar, justamente porque há o que reconhecer. Ele tem conduzido o Parlamento com método e sobriedade, e o projeto Assembleia Itinerante é prova disso: levou o Legislativo para o interior, abriu portas, descentralizou debates e mostrou disposição para ouvir o povo fora do ar-condicionado da capital. Jefferson é o tipo de gestor que prefere o resultado ao ruído, o bastidor à tribuna. Mas, talvez por isso mesmo, falta-lhe o tempero da política em ebulição, aquele fogo que transforma pauta em paixão. O motor é bom, o piloto é experiente, mas o tanque ainda está com álcool aguado.
Enquanto isso, na capital, o microfone da Câmara de Aracaju ainda fuma. Elber Batalha bate de frente com a Prefeitura; Moema Valadares defende o bolsonarismo como se fosse tese de doutorado; Ricardo Vasconcelos transformou a presidência em palco de protagonismo, fala baixo, mas o efeito é terremoto. E Pastor Diego não foge da briga e briga também é forma de fé democrática.
O caminho é simples: misturar o sangue novo com o DNA antigo. Renovar não é destruir, é trocar a lâmpada sem demolir o teto. Ter jovens com coragem de subir à tribuna e veteranos que saibam o peso de cada palavra. Kant dizia que “a liberdade é o que dá valor às virtudes”. Pois está faltando liberdade e virtude. Platão completaria: “a ignorância é a raiz de todos os males”. E o mal maior, hoje, é a apatia com ar-condicionado e crachá funcional.
Este texto não é saudade, é cobrança com CPF e endereço conhecido. É o grito de quem ainda acredita que a Alese pode voltar a ser o que já foi: coração que pulsa, não sala de eco. O povo não quer deputados com crachá de enfeite nem plenário que funcione no modo soneca. Quer ver faísca, debate, coragem, tropeço, gargalhada e até briga boa, daquelas que fazem a democracia suar a camisa. Porque política sem conflito é novela sem vilão: ninguém acredita. A Assembleia precisa acordar, tirar o pijama institucional e voltar a falar alto, com o povo, por ele e, se preciso, contra ele. Porque quando o Parlamento cochila, o autoritarismo prepara o café da manhã. E se a democracia continuar dormindo nesse berço esplêndido, o próximo que acorda é o pesadelo.
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Fausto Leite




