Brasil: Um País em Coma, Entubado com Bandeirinhas e Pix de Prefeitura
Por Marco Aurélio Pinheiro Tarquínio
Há um silêncio no ar que não é paz é anestesia. Uma anestesia coletiva, gelada, que transformou o Brasil num paciente entubado, preso entre o retrocesso institucional e a cumplicidade de quem deveria estar operando a máquina da democracia, mas prefere tirar um cochilo em berço esplêndido.
Enquanto o povo luta com boletos e boletins escolares de filhos que não sabem ler nem somar, os Poderes da República jogam um xadrez esquisito em que as peças fingem se mover, mas ninguém joga de verdade. A Constituição? Um enfeite de prateleira que só é lembrado quando convém ao iluminado da toga. Os direitos individuais? Amassados feito prova de Enem molhada. E a democracia? Uma palavra bonita que virou bordado em almofada de gabinete.
O Senado, que um dia foi “Casa da Federação”, virou quitinete da omissão. Não é mais “Senado da República”; é o “SPA dos Acometidos por Covardia Crônica”. Muitos dos que ali estão não vigiam a Constituição, vigiam seus próprios prontuários judiciais. São parlamentares reféns do Judiciário, que em troca de lealdade cega, cobre seus pecados privados com capa preta e cafezinho no gabinete.
E no Brasil real, aquele da poeira e do pão com mortadela sem ideologia, o que temos? Prefeitos que viraram promotores de eventos. Em cidades onde não tem pediatra nem paralelepípedo, a prioridade é contratar trios elétricos com cachês de seis dígitos e fazer a “festa do milho” custar mais que o orçamento da merenda escolar. Porque o eleitor gosta mesmo é de forró e fogos, e saúde a gente vê depois (se sobreviver).
O escárnio é completo: mais de 80% dos municípios vivem exclusivamente de FPM — Fundo de Participação dos Milagres. O PIB per capita nas planilhas é R$ 48 mil, mas nas feiras livres, o que circula é o fiado e a promessa. Em milhares de cidades do interior, esse PIB é só sigla bonita pra esconder que o povo vive com menos de R$ 10 mil por ano. Ou seja, sobrevive. Porque viver, ninguém vive.
Na educação, o desastre é tão grande que, se o Enem fosse hoje, metade dos estudantes errava até o nome. Sete em cada dez alunos do 5º ano não dominam leitura e matemática básicas e os outros três ainda estão tentando entender por que têm aula de espanhol e não de lógica. No Nordeste profundo, 27% dos adultos são analfabetos funcionais e o resto assina recibo em branco em época de eleição.
E o mais assustador: ninguém faz nada. Não há panela batendo, nem buzina soando, nem meme viralizando. O povo está dopado. E não é por falta de coragem, mas por excesso de dependência do Estado. Quem trabalha pra prefeitura, recebe do governo ou tem contrato com o sistema, cala. E quem ainda tem consciência, se esconde com medo de ser “cancelado”. Faltam heróis, sobram cúmplices.
Enquanto isso, no cenário internacional, o Brasil troca os EUA, o Japão e a Alemanha por reuniões calorosas com Venezuela, Cuba e Rússia. O país que deveria estar sentado à mesa com as democracias mais inovadoras do planeta, prefere o cafezinho com regimes que não suportam liberdade de imprensa e tratam oposição com porrete e exílio.
E aí vem a grande ironia: tudo isso avança, o autoritarismo, o populismo, o jeitinho antirrepublicano, não porque um tirano impôs à força. Mas porque os guardiões do sistema preferem o silêncio. Porque os homens de toga, de terno ou de diploma decidiram que a neutralidade é mais confortável que a coragem. E isso não é omissão. É parceria. É conivência. É vergonha.
O Brasil não precisa de um novo salvador da pátria. Precisa de cidadãos que tirem a venda dos olhos, a mordaça da boca e o cabresto da consciência. Porque, em tempos de anestesia, quem cala não está em paz, está cúmplice. E a história vai cobrar. Com juros. E sem anistia.





Respostas de 4
Isso sim é um posicionamento de um cidadão que tem a preocupação com o sua Cidade, com o seu Estado e com o seu país! Essa indignação dever servir de inspiração pra que todos nós Brasileiros lute por um país com dignidade, seriedade, patriotismo. Vamos a luta!
Muito bem retratado situação atual do Brasil. Pena que as pessoas que precisam ler esse texto, não tem capacidade para entender o conteúdo. Parabéns ao autor.
Realista e cirurgico: “O Brasil não precisa de um novo salvador da pátria. Precisa de cidadãos que tirem a venda dos olhos, a mordaça da boca e o cabresto da consciência.”
Excelente texto