A COP30 poderia ter sido o grande momento do Brasil no palco climático mundial, maquele desfile bonito, alinhado, como as rendeiras de Divina Pastora fazem com o ponto mais delicado que existe. Mas, como boa sergipana que enxerga o mundo com ironia e olho afiado, eu digo: o país subiu na passarela parecendo vestido de festa junina feito às pressas, com a barra torta e a etiqueta pedindo clemência.
Belém, transformada às pressas na “vitrine verde”, acabou mostrando mais remendo do que renda. Foi saneamento tropeçando igual moça atravessando a Passarela do Caranguejo de salto alto, ruas esburacadas lembrando estrada de interior depois de chuva e serviços públicos que pareciam ter passado a noite toda arrastando asa no forró. De longe, bonito. De perto, a manequim segurando o vestido com grampo.
A cereja do bolo, ou melhor, a castanha quebrada de Itabaiana, vendida por Fiote, pai de Natanzinho ou o caranguejo de andada, foi o iate de R$ 500 mil por dia usado pelo presidente. Um negócio tão fora de contexto quanto usar casaco de frio na praia da Cinelândia em pleno janeiro. Com esse valor, dava para urbanizar pedaço de Belém e ainda sobrava para fazer uma praça nova, com direito a lâmpada de LED.
Dentro da conferência, a inflação brilhou mais do que camisão de quadrilha: água e refrigerante a R$ 25, coxinha a R$ 40, e, por esse preço, a coxinha deveria vir recheada de consciência ambiental e um panfleto explicando o desmatamento. O absurdo não é só o valor, é a falta de sensibilidade com um povo que já carrega problema demais nas costas e não pediu para ser figurante desse espetáculo.
Lula, no discurso, fez um “mix de estilo” daqueles que ninguém tem coragem de usar: falou em fim de combustíveis fósseis, mas justificou exploração de petróleo na foz do Amazonas. É como querer usar vestido de gala e havaiana ao mesmo tempo. Não combina, não conversa, não convence.
E o momento mais comentado? A gafe de Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia, interrompendo Macron na hora da fala por causa da tradução. A cena teve a mesma energia de quando alguém entra no meio da quadrilha achando que está no passo certo, mas causa aquele silêncio constrangido que dá até pena do sanfoneiro.
E já que estamos falando de espetáculo, vamos ao figurino de Janja, que virou conversa de mesa de bar, salão de beleza e redação de moda. Ela apareceu com uma alfaiataria futurista, meio conceitual, meio “estação espacial de Itaporanga d’Ajuda”. Jornalistas comentaram que o look oscilava entre “arte moderna” e “secretária de evento tecnológico”. O corte assimétrico era ousado, mas parecia mais instalação do que roupa para Amazônia. Esteticamente interessante? Sim. Com cara de COP na floresta? Nem de longe. Belém pedia leveza; Janja veio ficção científica.
Fora da política, a vida real seguiu: hotéis e restaurantes subiram preços como se Belém fosse sede da Copa do Mundo, da final do Confiança e do Pré-Caju ao mesmo tempo. Quando estourou a repercussão, veio o famoso “desculpa aí, gente”, aquele recuo padrão que o Brasil já conhece melhor do que conhece o horário do BRT.
Trinta e três anos depois da Rio-92, seguimos repetindo o mesmo figurino: discurso pomposo, execução frágil. A COP30 poderia ter sido o nosso vestido de gala sustentável; virou pano de chita tentando parecer renda. O planeta esquenta, a política esfria e o contribuinte… ferve. Sempre ele. E como boa sergipana que sabe diferenciar brilho de purpurina, digo sem medo: quisemos fazer alta-costura ambiental sem revisar as costuras. Faltou coerência, faltou preparo, faltou sensibilidade e faltou alguém com coragem de dizer: “Meu bem… não ficou bom, não.” Pronta para a próxima?




