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Beto e Daniel os “atrasildos” no despertar atrasado da Ordem

Há algo de curioso, para não dizer constrangedor, nesse súbito despertar institucional da Ordem dos Advogados do Brasil. Depois de anos assistindo em silêncio a episódios que atingiram diretamente a advocacia, a entidade agora aparece com reuniões, notas públicas e discursos inflamados sobre equilíbrio entre poderes. O problema não é cobrar o Supremo. Cobrar é obrigação. O problema é o relógio. A OAB acordou tarde. Muito tarde. A imprensa nacional já vem há mais de um mês debatendo decisões e excessos dos tribunais superiores e só agora a Ordem resolveu perceber que havia algo acontecendo.

Durante boa parte do mandato de Beto Simonetti, o roteiro foi outro. Discursos solenes defendendo o Supremo Tribunal Federal, presença em cerimônias da Corte e declarações exaltando a importância de proteger o tribunal. Defender instituições é correto. O curioso é que, enquanto isso, advogados eram constrangidos, revistados, silenciados em sessões e tratados como suspeitos dentro de tribunais. Nesse período, a OAB nacional parecia mais preocupada em proteger o prédio do que quem trabalha dentro dele.

Entre muitos advogados, Simonetti ganhou um apelido pouco elegante, mas muito repetido nos bastidores da advocacia: o atrasildo da Ordem. Para muitos profissionais, ele transformou a presidência nacional em uma espécie de assessoria institucional das cortes superiores, deixando a defesa concreta das prerrogativas em segundo plano. Quando advogados foram humilhados em tribunais, a reação veio sempre depois, quando veio.

Em Sergipe o problema ganhou contornos ainda mais caricatos. A condução da seccional pelo presidente Daniel Alves virou exemplo clássico do que muitos colegas passaram a chamar de gestão pós fato. Primeiro o problema explode, depois o silêncio se instala e só então aparece alguma manifestação protocolar.

O caso do advogado Ricardo Ramos ilustra bem esse roteiro. Ricardo denunciou ter sido agredido dentro de uma delegacia enquanto exercia a profissão. A expectativa da advocacia era simples. Uma reação imediata da Ordem. Uma defesa firme das prerrogativas. O que veio foi uma resposta burocrática que entrou para o folclore jurídico local.

Quando procurado, o presidente Daniel Alves respondeu da seguinte forma: “Li seu relato, vou apurar isso com a comissão e a diretoria. Após o carnaval te dou um retorno e confirmo. Faremos os ajustes necessários.” O problema é que o carnaval passou, os confetes já foram varridos da rua e até agora, segundo advogados que acompanham o caso, o retorno prometido não apareceu. A defesa das prerrogativas parece ter ficado presa no bloco da procrastinação.

E agora, como num passe de mágica institucional, surge a OAB levantando a voz contra abusos nos tribunais superiores. O gesto chega num momento curioso. Depois que o debate já está na imprensa, nas redes sociais e nas rodas de advogados. Em outras palavras, quando o incêndio já virou notícia nacional, a Ordem aparece trazendo um balde de água.

Isso não significa que a cobrança ao Judiciário esteja errada. Pelo contrário. É necessária. Mas a advocacia brasileira não precisa de reações tardias. Precisa de vigilância permanente. A Ordem existe justamente para agir no momento em que o abuso acontece, não anos, meses ou semanas depois.

A verdade é que muitos advogados passaram a sentir que a instituição anda sempre um passo atrás da realidade. Atrasada no debate, atrasada na defesa das prerrogativas, atrasada nas respostas institucionais. Um atraso que se repete tanto na esfera nacional, com Simonetti, quanto na esfera estadual, com Daniel Alves.

A OAB continua sendo uma das instituições mais importantes da democracia brasileira. Mas a advocacia espera algo simples de seus dirigentes. Coragem no momento certo. Porque quando advogados são constrangidos e a Ordem demora a reagir, a impressão que fica é que a defesa da classe entrou em modo soneca.

E numa profissão que vive de prazos, atraso institucional não é detalhe. É erro grave. Afinal, justiça atrasada já sabemos o que é. Agora, advocacia defendida com atraso também não ajuda ninguém. Nem os advogados. Nem a própria Justiça.

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