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Blindagem cara, blindagem cênica: Aracaju merece mais que uma Emília 

Confesso: eu, Bia Muniz, acordei com vontade de escrever sobre moda. Pretendia comentar os looks deslumbrantes da última coleção resort da Chanel. Mas aí me dei conta de que, em Aracaju, o verdadeiro desfile da semana foi outro. A passarela? As manchetes. A modelo? Emília Corrêa. E o figurino? Uma blindagem de R$ 312 mil que não é exatamente couture, mas é, no mínimo, cara pra burro.

Sim, minha gente. Emília, aquela que chegou na posse a bordo de um Fusca como se fosse a Cinderela da periferia política, agora circula em uma carruagem anti-balas paga com dinheiro público. Ah, os tempos mudam… E como mudam.

Se antes ela se apresentava como a heroína da simplicidade, hoje se transforma na versão municipal da Mulher de Ferro. Só que sem Tony Stark, sem tecnologia de ponta e sem o carisma. E com um detalhe crucial: o povo paga a conta.

Enquanto o governador Fábio Mitidieri, num surto de modéstia marqueteira, declara com um sorriso de propaganda de pasta de dente que está “blindado por Deus” (quem precisa de segurança quando se tem um convênio direto com o Altíssimo, não é?), Emília parece ter firmado contrato com a Divina Proteção… e com uma locadora de SUVs blindadas. Luxo celestial com boletos terrenos.

Não que eu seja contra medidas de segurança. De forma alguma. A segurança de autoridades públicas, especialmente de mulheres na política que sofrem ataques sexistas e ameaças reais é uma pauta urgente e séria. Mas o que nos choca, o que ofende a mim, a tantas outras mulheres sergipanas e a todo cidadão minimamente consciente, é a incoerência gritante entre o discurso e a prática.

Cadê a Emília da escassez? Cadê a Emília fiscalizadora, a Emília da praça, da feira, do banquinho, do olho no olho, dá radio defendendo os direito das mulheres? Trocar o Fusca por um tanque com ar-condicionado e vidro fumê é um salto e tanto. Aliás, se continuar nesse ritmo, em dezembro ela chega ao trabalho de helicóptero, desce de rapel na Olaria, jato na Terra Dura e vai passear de iate no rio Sergipe. 

E vamos combinar: justificar a blindagem com “áudios de WhatsApp” e relatórios de inteligência que ninguém viu é o novo “meu cachorro comeu o BO”. A segurança pública virou justificativa de PowerPoint. Enquanto isso, a população continua andando de ônibus velho e suando no calor de terminal lotado. Se fosse pra blindar alguém em Aracaju, que blindassem o povo da incompetência e do populismo disfarçado de zelo.

E ainda tem o plot twist teológico. Quando Emília blindou o carro, Fábio blindou a alma. Ele não precisa de carros reforçados porque, segundo ele, está sob a proteção divina. Parece que, em Sergipe, a segurança virou competição de fé. O próximo passo é saber qual político vai andar de jegue dizendo que está “ungido pelo Espírito Santo”. Talvez, quem sabe o ex-prefeito de Frei Paulo, Anderson das Canas, que fica lindo com aquele chapéu de tabaréu. Beijos “caninha”! 

Mas voltemos à prefeita. Aracaju está, sim, fazendo história: é a primeira vez que temos uma gestora municipal que inicia seu mandato usando o slogan “É desse jeito” e já virou “Desse jeito NÃO, Emília!”. A máscara caiu, ou melhor, foi guinchada junto com o Fusca para o depósito das promessas eleitorais não cumpridas.

E se for verdade que as ameaças vieram porque ela “está incomodando”, como tentam justificar, então que se aja com transparência. Que se mostrem os registros, os BOs, os riscos reais. Do contrário, soa como aquela desculpa clássica de quem quer furar a fila: “foi o médico que recomendou”.

O mais engraçado (ou trágico, depende da lente que se usa) é ver alguns setores da mídia correndo pra abraçar a blindagem como se fosse sinônimo de coragem. Me desculpem, mas coragem não é andar escondida atrás de lataria espessa. Coragem é encarar o povo, explicar os gastos, priorizar saúde, educação e mobilidade, e não airbags de luxo.

Emília diz estar sob risco. Fábio diz estar blindado por Deus. E nós, pobres mortais pagadores de impostos, estamos blindados contra o quê? Certamente não contra o cinismo institucional que nos cerca.

E se querem mesmo proteção, eu deixo aqui uma sugestão mais em conta que os R$ 312 mil do carro ou os milhões em SUVs: respeitem nossa inteligência. Isso, sim, seria revolucionário. Porque, minha querida Aracaju, o problema não é o carro blindado. O problema é a cara de pau sem nenhum revestimento.

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