O Brasil vive um momento educacional curioso, quase uma comédia pedagógica. De um lado o governo comemora programas como o Pé de Meia, que paga bolsa para o aluno continuar no ensino médio. Do outro lado a realidade mostra que o jovem precisa receber dinheiro para não abandonar a escola. É quase uma política pública baseada na lógica do seguinte raciocínio. Estude, meu filho, que tem mesada. A educação brasileira virou uma espécie de programa de fidelidade escolar. Compareça às aulas e ganhe pontos, bônus e talvez até um futuro.
O estudo citado aponta que um em cada quatro jovens deixa de abandonar o ensino médio por causa da bolsa. O governo comemora como se fosse um grande avanço civilizatório. Mas a pergunta que fica no ar é simples e incômoda. Se o jovem só fica na escola quando recebe dinheiro, então a escola deixou de ser um projeto de vida e virou um bico educacional. O aluno não vai porque quer aprender, vai porque tem PIX educacional. É a pedagogia do extrato bancário.
Enquanto isso o país segue discutindo se a juventude deve estudar por vocação, por ambição ou por transferência bancária. O curioso é que o próprio estudo diz que aumentar o valor da bolsa não melhora o resultado. Ou seja, o jovem até aceita o incentivo, mas não é exatamente isso que resolve o problema educacional. É como pagar para alguém ir à academia. Funciona nas primeiras semanas, depois o sujeito descobre o sofá de novo.
E o cenário fica ainda mais curioso quando se olha para o ensino superior. Muitos estudantes estão abrindo mão de vagas em universidades federais para estudar em faculdades privadas perto de casa. Não porque a federal perdeu qualidade, mas porque morar longe custa caro, viver de macarrão instantâneo não é tão romântico quanto parecia e a geração atual prefere saúde mental a sofrimento acadêmico. O sonho da universidade pública continua existindo, mas agora ele disputa espaço com a logística da vida real.
Para completar o roteiro educacional brasileiro, temos o capítulo das obras escolares. O governo anunciou mais de seis mil construções ou retomadas de escolas e creches. Até agora apenas cerca de 12% foram entregues. Ou seja, a escola que deveria existir ainda está no papel enquanto o governo paga bolsa para manter aluno dentro de um sistema que muitas vezes nem tem estrutura pronta. No ritmo atual parece que o aluno recebe para estudar hoje e a escola talvez fique pronta quando ele já estiver no doutorado.




