Em Sergipe, o cachorro de salvamento vai ter assistência veterinária prevista por cinco anos. Cinco! Enquanto muito cidadão mal consegue marcar uma consulta para o mês seguinte, o Corpo de Bombeiros publicou, em 6 de outubro, o Pregão nº 394/2026, de R$ 233.273,52, para cuidar dos seus heróis de quatro patas. Antes que alguém lata de indignação, os cães merecem atendimento: trabalham em buscas e resgates e não podem depender de improviso. Mas o edital não prevê R$ 233 mil por ano, como alguém poderia imaginar. São 60 meses, com possibilidade de reajuste anual. Pelo menos nisso a conta é mais comportada que certas promessas de campanha!
Agora vem a matemática, que não morde. O planejamento começa com nove cães, sobe para dez, depois onze e chega a doze nos dois últimos anos. São 54 cães-ano. Dividindo o orçamento global pelo plantel projetado, temos R$ 4.319,88 por cachorro ao ano, ou R$ 359,99 por mês. Não é preço individual contratado, mas média do orçamento, sem reajustes futuros. E o cardápio veterinário impressiona: consultas especializadas, vacinas, exames, cirurgia, internação e emergência, com atendimento 24 horas previsto. Se existisse cartão de fidelidade, o cão ainda ganhava milhas por abanar o rabo! A questão não é retirar cuidado dos animais, e sim mostrar a conta completa ao contribuinte.
A comparação com gente de carne e osso é inevitável e exige ressalvas. Uma tabela comercial anunciava Unimed Sergipe empresarial a partir de R$ 110,46 mensais, preço de entrada para perfil específico, com coparticipação; não é cotação equivalente à cobertura canina. A Bradesco Saúde comercializa planos coletivos, sem uma mensalidade individual universal. A CASSI, ligada ao Banco do Brasil, tem regras de custeio próprias, inclusive contribuições vinculadas à remuneração. Ou seja: não dá para declarar o cachorro “mais bem segurado” apenas comparando etiquetas. Mas dá para perguntar, com um sorriso amargo, por que a saúde humana ainda depende tantas vezes de peregrinação, senha e espera, enquanto o edital canino já nasce com horizonte de cinco anos.
A deputada Kitty Lima, defensora dos animais, provavelmente encontraria aqui um ótimo assunto para debate. Na tribuna imaginária da nossa redação, o cão mostraria a carteirinha e o cidadão perguntaria onde faz o cadastro para virar labrador! A graça termina onde começa a fiscalização: por que não avaliar cooperação com o veterinário e oficial Amaury Luz, integrante da Polícia Militar, somada a atendimento especializado sob demanda? Existe estudo comparativo de economicidade, rede veterinária disponível 24 horas e controle de serviços prestados? Um oficial sozinho não substitui hospital, cirurgia e plantão. Os Bombeiros precisam explicar as alternativas, o custo real e a execução. Cuidar de quem salva vidas é dever; prestar contas de como se faz isso também.




