O dia de ontem amanheceu com uma pergunta que dispensa economista, advogado e curso de finanças públicas: cadê o dinheiro da Deso? Valmir de Francisquinho resolveu colocar o assunto no centro da campanha e cobrar do governo Fábio Mitidieri explicações sobre os bilhões arrecadados com a concessão do saneamento. A provocação encontra terreno fértil porque o leilão não envolveu trocado esquecido no porta-luvas: a Iguá ofereceu R$ 4,536 bilhões pela outorga, num contrato de 35 anos, além da previsão de R$ 6,3 bilhões em investimentos. Evidentemente, nem todo esse dinheiro pertence livremente ao caixa estadual, pois existem repasses, parcelas e destinações específicas. Mas isso só torna a pergunta mais necessária: quanto entrou no Estado, quanto foi para os municípios, quanto permanece aplicado, quanto já foi gasto e em quê? Bilhão é um bicho grande demais para desaparecer atrás da frase “está tudo sendo aplicado corretamente”.
O próprio governo informou, em abril, que mantinha R$ 1,254 bilhão aplicado, referente às duas primeiras parcelas destinadas ao Estado, e que ainda aguardava uma parcela prevista para o fim de 2026. Ao mesmo tempo, uma mudança legislativa ampliou as possibilidades de utilização desses recursos. Pois então ficou ainda mais fácil resolver a polêmica: abra-se a planilha. Conta por conta, aplicação por aplicação, rendimento por rendimento e despesa por despesa. Não precisa vídeo com drone, música emocionante nem governador de capacete visitando obra. Extrato bancário não precisa de marqueteiro. Se o dinheiro está aplicado, mostre onde. Se rendeu, mostre quanto. Se foi utilizado, mostre para quê. Governo que comemora bilhões quando eles entram não pode desenvolver timidez contábil quando alguém pergunta onde eles estão.
E a cobrança deixou de ser apenas briga de candidato. Tribunal de Contas, Ministério Público de Contas e outros órgãos de controle já vêm exigindo rastreabilidade e transparência rigorosas sobre os recursos da outorga. O FOCCO chegou a recomendar movimentação em conta específica e divulgação dos valores recebidos e pagos; o TCE também já identificou, em municípios, problemas como ausência de planejamento, pulverização de recursos e uso inadequado em despesas correntes. Isso não prova qualquer desvio pelo governo estadual, e seria irresponsável insinuá-lo sem evidência. Mas prova uma coisa muito mais simples: esse dinheiro exige lupa. Receita extraordinária de bilhões não é mesada administrativa para guardar na gaveta e explicar depois. É patrimônio público que talvez uma geração inteira de sergipanos não veja entrar novamente nessa escala.
Politicamente, Fábio tem diante de si um problema que não será resolvido chamando a cobrança de oportunismo. Valmir encontrou uma pergunta curta, compreensível e venenosa: “cadê os bilhões?” E pergunta curta em eleição costuma correr mais rápido que resposta de secretário com 47 slides. O governo tem o direito de defender a concessão, apresentar os investimentos e lembrar que a Deso continua responsável pela captação e tratamento enquanto a Iguá opera distribuição e esgotamento. Mas agora precisa fazer algo ainda mais básico: prestar contas centavo por centavo do dinheiro extraordinário recebido pelo Estado. Porque água pode até seguir por adutora, mas dinheiro público precisa deixar rastro. Se está tudo correto, Fábio tem uma ótima oportunidade de encerrar a discussão: publique o mapa completo dos bilhões. Caso contrário, a pergunta vai continuar pingando durante a campanha. E todo sergipano sabe: torneira pingando incomoda; bilhões pingando numa eleição incomodam muito mais.




