Virou moda. Em academias, grupos de WhatsApp, consultórios improvisados e até em mesas de bar, a conversa é uma só: “qual canetinha você está usando?”. O Brasil entrou de cabeça na febre dos medicamentos injetáveis para emagrecimento, e Sergipe, como sempre, não ficou de fora. O problema é que, junto com a promessa de corpo novo, veio um mercado paralelo, uma ilusão perigosa e um risco real à saúde pública.
As chamadas “canetinhas”, vendidas como solução mágica contra a balança, estão sendo usadas por milhares de pessoas sem acompanhamento médico, sem avaliação clínica e, em muitos casos, compradas ilegalmente, fora de farmácias, sem receita, sem controle e sem qualquer garantia de procedência. Em Sergipe, profissionais de saúde e fontes do setor estimam que já exista um comércio paralelo robusto, alimentado por redes sociais, atravessadores e o velho boca a boca. É o emagrecimento por delivery.
O discurso é sedutor. Aplica uma vez por semana, sente menos fome, perde peso rápido. Parece milagre moderno. Mas a ciência, essa inconveniente, insiste em estragar o marketing. Estudos recentes mostram que cerca de 50% dos usuários abandonam o uso em até um ano. E quando abandonam, a balança se vinga. O peso perdido costuma voltar, rápido e com juros. Em média, o reganho pode chegar a 18 meses, acompanhado da volta de problemas que haviam melhorado, como glicemia, colesterol e pressão arterial.
Ou seja, vem a caneta, vai-se o peso. Vai-se a caneta, vem o peso. Simples assim. O que pouca gente conta é que esses medicamentos não curam obesidade. Funcionam enquanto estão sendo usados. São ferramentas, não soluções definitivas. Fora dos ensaios clínicos, onde tudo é controlado, a realidade é outra. Náuseas, vômitos, tonturas, perda de massa muscular, alterações gastrointestinais e efeitos psicológicos não são raros. E isso quando o produto é original. Quando é comprado no mercado clandestino, o risco deixa de ser estatístico e vira roleta russa.
É importante dizer com todas as letras: é crime vender esses medicamentos sem receita médica. E também é ilegal comprar fora dos canais autorizados. Não se trata de burocracia nem de proteção à indústria farmacêutica. Trata-se de saúde pública. Uma injeção aplicada sem critério não é autocuidado. É aposta.
Em Sergipe, o problema ganha contornos ainda mais graves porque o uso vem se popularizando entre pessoas sem indicação clínica, que não têm obesidade, diabetes ou qualquer condição que justifique o tratamento. É o emagrecimento estético travestido de medicina. A lógica é simples e perigosa: se fulano emagreceu, serve para mim. E se não servir, paciência. O corpo que aguente.
Enquanto isso, programas clássicos de mudança de estilo de vida, alimentação equilibrada, atividade física, acompanhamento profissional, são tratados como coisa do passado. Dá trabalho. Exige disciplina. Não rende antes e depois em 30 dias. Mas curiosamente são eles que apresentam menor reganho de peso no longo prazo. A ciência mostra isso, mas o algoritmo não entrega.
Nada disso significa demonizar os medicamentos. Eles têm indicação, utilidade e benefícios claros quando bem prescritos, bem acompanhados e bem explicados. O problema é transformar remédio em moda, saúde em atalho e corpo em experimento.
O que Sergipe precisa agora não é de mais canetinha circulando em bolsa térmica de carro. Precisa de informação, fiscalização e responsabilidade. Precisa que autoridades sanitárias, conselhos profissionais e órgãos de controle enfrentem o mercado ilegal. Precisa que médicos falem mais, que influenciadores falem menos e que a população entenda que emagrecer rápido pode custar caro depois.
Porque no fim das contas, não existe milagre sustentável. Existe escolha.
E trocar acompanhamento médico por uma caneta clandestina não é escolha. É risco. E risco, diferentemente do peso, não desaparece quando se suspende a aplicação.




