PUBLICIDADE

Claudinha: a pobre juíza rica… que horroorrr!

Puxa, passei minha vida inteira dando aula na Universidade, saindo de manhã, voltando à noite, preparando aula, preparando prova, orientando aluno angustiado com bolsa atrasada e laboratório sucateado, e quando comecei não existia essa tal de inteligência artificial para montar plano de aula em cinco minutos. Não havia plataforma digital salvadora, não havia nuvem, não havia glamour tecnológico. Havia pilhas de livros, xerox mal cortada e o compromisso quase ingênuo de formar gente pensante. Estou aqui, aposentada, ganhando meus quase dez mil reais, depois de décadas de serviço público, e aparece uma juíza, com salário encostando nos cem mil reais e bem acima do teto constitucional, para dizer que magistrado não tem carro, não tem café, não tem lanche. Eu francamente não entendo essa vida.

Quando a juíza aposentada Cláudia Márcia de Carvalho Soares resolve declarar que juiz “não tem carro”, “não tem café”, “não tem lanche”, o Brasil real interrompe o gole de café frio feito em casa e pergunta se isso é um esquete ou um pedido formal de empatia. Porque o cidadão comum não tem carro oficial, não tem apartamento funcional, não tem auxílio coisa nenhuma. Ele tem boleto. Ele tem aluguel, água, luz, internet parcelada e o medo permanente do cartão não passar. Ele não reclama no microfone institucional. Ele reclama no caixa do supermercado, em silêncio constrangido.

O professor universitário, que ganha quinze mil reais quando muito, também não tem lanche subsidiado nem combustível pago. Ele corrige prova de madrugada, escreve artigo para pontuar na Capes, disputa edital como quem disputa oxigênio e ainda escuta que tem férias demais. Forma advogados, juízes, promotores e parlamentares, mas paga o próprio café na cantina. E nunca vi professor fazer discurso emocionado porque não recebeu biscoito institucional no intervalo da aula.

O advogado recém-formado que fatura cinco, oito, dez mil reais quando o mês ajuda, também não tem carro oficial nem auxílio metafísico. Ele paga anuidade da OAB, paga aluguel da sala, paga sistema jurídico, paga imposto e paga o preço psicológico de começar do zero. Ele entra na audiência às nove da manhã com a beca alugada e o cliente dizendo doutor depois eu transfiro. E curiosamente não há vídeo viral dele reclamando da ausência de coffee break republicano.

O policial militar sai de casa sem saber se volta e não tem auxílio cafezinho filosófico. Ele entra na viatura com colete vencido, enfrenta risco real, salário comprimido e tensão permanente. O máximo de adicional que recebe é o da exposição constante ao perigo. Não o vi lamentar em público a falta de snack institucional como se isso fosse tragédia civilizatória.

O médico que tira vinte ou trinta mil reais, com plantão acumulado também não tem apartamento funcional pago pelo contribuinte. Ele passa madrugada em hospital lotado, segura a mão de família desesperada e toma café frio na copa, se der tempo. Ninguém o vê dizendo que a República falhou porque o lanche não foi servido no horário adequado.

O técnico judiciário, que ganha entre seis e oito mil reais, é quem faz o processo andar. Ele digitaliza, carimba, organiza pauta, atende advogado nervoso e segura a estrutura do fórum nas costas. Não tem carro oficial, não tem verba criativa, não tem penduricalho poético. Sem ele, o prédio vira arquivo morto com ar-condicionado.

O analista judiciário, que estudou anos para passar em concurso difícil, assume carga pesada de trabalho e, também paga o próprio sanduíche. Não tem auxílio lanche, não tem auxílio elegância, não tem auxílio autoestima. Tem prazo, tem meta, tem pilha de processo. E, curiosamente, não transformou isso em performance pública de escassez gourmet.

Enquanto isso, o discurso do coitadismo togado tenta convencer o país de que quarenta e seis mil reais é quase voto de pobreza franciscano. Quarenta e seis mil reais só, é “pouco” na bolha onde o contracheque vem acompanhado de adicionais com nomes sofisticados e rodapé explicativo. Para noventa e nove por cento do Brasil, isso não é salário. É prêmio de loteria com estabilidade e décimo terceiro.

Se faltam juízes, que se faça concurso sério, transparente, aberto a gente preparada e disposta a trabalhar muito por esses míseros quarenta e seis mil reais. Garanto que a fila dobra o quarteirão. Se faltam servidores, que se abram vagas. Se o Judiciário é lento, que se invista pesado em tecnologia, gestão moderna, metas reais. Processo não pode andar a passo de tartaruga com orçamento de lebre.

Mas talvez o ponto não seja o café. Talvez seja a percepção. Quando alguém no topo da pirâmide reclama da falta de lanche, o que ecoa na base não é solidariedade, é incredulidade. É a sensação de que há dois países convivendo no mesmo território, um discutindo cappuccino institucional e outro discutindo como pagar o gás.

Se a intenção de Cláudia era entrar para a sociedade com essa fala, virar meme, ganhar corte de vídeo e trending topic, missão cumprida. A internet é implacável e não costuma perdoar desconexão. Só que meme passa, constrangimento fica. E talvez fosse prudente, antes da próxima declaração, trocar o microfone por alguns bons livros sobre desigualdade brasileira.

No fim das contas não é sobre café nem sobre carro. É sobre sensibilidade, que aparentemente não vem no kit da toga. Porque quando alguém que recebe no teto constitucional resolve fazer drama pela falta de lanche, o Brasil que vive de salário-mínimo não pensa “coitada”. Pensa “é pegadinha, né?”. O sujeito que divide o gás em três vezes no cartão ouve aquilo e quase oferece um biscoito Maria por solidariedade. A palavra de quem está no topo não ecoa como desabafo, ecoa como stand-up involuntário no ouvido de quem conta moeda no fim do mês.

E convenhamos, com o sobrenome Carvalho o trocadilho muda, mas a ironia continua servida. Carvalho é árvore forte, tronco firme, raiz profunda. Era de se esperar sombra, solidez, equilíbrio institucional. Mas o que vimos foi quase uma árvore reclamando da qualidade do adubo. Enquanto milhões trabalham como formigas organizadas, silenciosas e exaustas, carregando o PIB nas costas, o carvalho togado resolve balançar as folhas porque o coffee break não veio na bandeja de prata. O problema não é o nome imponente. É o discurso frágil. Quando privilégio começa a se apresentar como penúria gourmet, a plateia não aplaude a robustez do tronco. A plateia ri do espetáculo. E quando a plateia ri da toga, não é o café que esfria. É a credibilidade que começa a rachar pela raiz. E aí Claudinha vamos ao coffee break! Eu pago, pago com salário de professoa aposentada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *