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CRM DOS OUTROS, PLANTÃO DOS OUTROS E RESPONSABILIDADE DE TODO MUNDO

O caso de Umbaúba é daqueles que fazem a população olhar para a porta do hospital e perguntar: “meu Deus, quem é que está de plantão aí dentro?”. Uma paciente de 60 anos morreu após ser atendida no Hospital de Pequeno Porte, e a história começou sendo vendida como “falso médico”.Mas calma lá. A novela tem mais capítulo do que prontuário mal preenchido. O cidadão não era exatamente um falso médico no sentido clássico, aquele sujeito que acorda, compra um jaleco na internet e decide brincar de Dr. House no interior. Ele tinha RMS, registro vinculado ao programa Mais Médicos. O problema é que RMS não é CRM, minha gente. RMS não é passaporte diplomático da medicina. É autorização limitada, com endereço, função e regra. Não é “vale-plantão” para sair atendendo onde quiser.

A diferença é simples, até para quem acha que CRM é só aquela sigla que aparece no carimbo bonito. CRM é o registro do Conselho Regional de Medicina, que permite ao profissional atuar regularmente como médico, fazer plantões, atender em hospital, clínica e serviço de urgência. Já o RMS é o registro do Ministério da Saúde dentro do Mais Médicos, com atuação restrita ao programa, normalmente na atenção básica e no município designado. Ou seja: o sujeito pode até ter autorização para atuar em determinado contexto, mas não para virar coringa de plantão em outra cidade. Medicina não é Uber: não dá para ligar o aplicativo e sair aceitando corrida em qualquer hospital.

A irregularidade, segundo as informações já divulgadas, estaria justamente aí: ele estaria atuando em Umbaúba fora da função permitida, fora da cidade designada e, para completar o roteiro do absurdo, usando o CRM e o carimbo do próprio irmão, médico regular da unidade. Aí, meu amigo, a coisa deixa de ser erro administrativo e começa a cheirar a escândalo de porta aberta. Porque uma coisa é confusão de escala. Outra é atender paciente com carimbo emprestado. CRM não é Netflix para dividir senha em família. Muito menos pode ser usado quando o assunto é vida, dor, urgência e morte.

E aí vem a pergunta que derruba qualquer nota oficial escrita com sabão: se ele não era o médico escalado oficialmente para aquele plantão, como entrou, atendeu, carimbou e ninguém percebeu? O hospital não conferia escala? Ninguém olhava documento? Ninguém sabia quem era o profissional de plantão? Ou a saúde pública virou aquela festa em que o segurança pergunta “você conhece alguém lá dentro?” e a pessoa entra só dizendo “sou irmão do médico”? É grave. Muito grave. Porque paciente não procura hospital para ser atendido por dúvida cadastral, gambiarra funcional ou improviso fantasiado de atendimento.

A prefeita Juliana do Mamão acertou ao agir rápido. Foi à Secretaria de Segurança Pública, pediu investigação rigorosa, exonerou o secretário municipal de Saúde e afastou a médica responsável pela contratação. E fez certo. Quando a bomba explode dentro da saúde, não dá para responder com nota fria dizendo “estamos acompanhando”. A população não quer acompanhamento literário, quer responsabilidade. Juliana usou a caneta no lugar certo. Doeu? Claro que doeu. Mas gestão pública é isso: quando a casa pega fogo, não adianta abraçar o extintor e fazer live. Tem que apagar o incêndio e descobrir quem deixou o fósforo aceso.

A Polícia Civil também merece reconhecimento. O caso precisa ser investigado com técnica, sem linchamento, mas também sem passar pano. O laudo do IML será essencial para esclarecer se a morte teve relação direta com o atendimento, se houve erro, omissão, conduta inadequada ou se o óbito decorreu de outra causa. Justiça não se faz no grito, mas também não se faz com silêncio conveniente. Agora é seguir a linha da prova: quem escalou, quem autorizou, quem contratou, quem fiscalizava, quem conferiu o registro e quem permitiu que um atendimento dessa gravidade acontecesse nessas condições.

No fim das contas, Umbaúba não precisa apenas saber se era “falso médico” ou “médico com atuação irregular”. Precisa saber quem falhou na cadeia inteira. Porque na saúde pública, o detalhe mata, o improviso machuca e a omissão costuma chegar vestida de burocracia. RMS não é CRM. Carimbo do irmão não salva paciente. E hospital não pode funcionar como balcão de favor. A prefeita fez sua parte ao cortar na carne. A Polícia Civil começou a fazer a sua ao investigar. Agora falta a verdade inteira aparecer. Porque quando uma mãe entra num hospital sentindo dor, ela não quer uma aula sobre siglas. Ela quer atendimento seguro, profissional habilitado e respeito pela vida.

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