A entrevista de Dr. Helton Monteiro na TV Sergipe colocou o candidato do PSOL em confronto direto com o modelo administrativo do Governo do Estado. Médico, servidor público e ex dirigente sindical, Helton apresentou o Palácio dos Despachos como uma gestão que, em sua avaliação, enfraqueceu o funcionalismo, ampliou vínculos temporários e transferiu responsabilidades públicas para empresas e organizações privadas. Ao declarar que “servidor público não é criminoso”, atacou a relação do governo com as categorias e procurou ocupar o espaço do candidato que conversa com quem bate ponto, enfrenta plantão e espera valorização. A frase tem força, rende manchete e circula bem nas redes. O desafio será fazê-la conversar com a calculadora, porque concursos, novos planos de carreira e jornada de 30 horas sem redução salarial produzem uma conta que não cabe apenas no discurso.
Na saúde, Helton foi além de criticar filas, terceirizações e condições de trabalho. Ele prometeu retirar as Organizações Sociais da administração das unidades estaduais e devolver a gestão ao controle direto do Estado. É uma ruptura com a estrutura defendida pelo atual governo e uma crítica ao argumento de que a iniciativa privada consegue administrar com mais rapidez e eficiência. Para Helton, o Estado não pode funcionar como um porteiro que entrega a chave do hospital e aparece depois apenas para pagar a fatura. A proposta, contudo, exigiria concursos, ampliação da estrutura administrativa, transição de contratos e definição sobre trabalhadores atualmente vinculados às terceirizadas. Trocar o modelo é possível; fazer isso sem paralisar serviços, provocar insegurança jurídica ou estourar o orçamento será a cirurgia mais delicada.
O candidato também abriu fogo contra o modelo adotado no saneamento e prometeu reestatizar a Deso. “Água é vida. É um monopólio natural e precisa ser tratada como direito, não como mercadoria”, afirmou. A declaração atinge diretamente uma das decisões mais importantes e controversas do governo estadual. Helton procura transformar torneira, tarifa e abastecimento em símbolos de duas visões opostas: de um lado, a participação privada defendida pelo governo; do outro, o controle público proposto pelo PSOL. A frase é forte, especialmente num estado em que falta d’água vira assunto antes mesmo do café. Mas contrato público não evapora como água no sol de Sergipe: uma reversão exigiria dinheiro, avaliação dos investimentos realizados, negociação de obrigações e enfrentamento de possíveis disputas judiciais.
No transporte, Helton voltou a desafiar o modelo existente ao defender passe livre na Grande Aracaju, expansão gradual para outras regiões e criação de uma empresa pública. “Com planejamento e investimento, é possível avançar para a tarifa zero”, declarou. Para o passageiro que paga caro para viajar apertado, a proposta soa como música tocada dentro de ônibus com ar-condicionado. Falta, entretanto, apresentar a partitura financeira: quanto custaria, de onde sairia o subsídio, qual seria a participação dos municípios e como evitar que a empresa pública se transforme numa garagem de indicações políticas. Na educação, prometeu concursos, retomada das carreiras e diálogo permanente com os professores. “Nosso gabinete vai ser aberto”, disse. Porta aberta é um bom começo, mas professor também quer encontrar, lá dentro, calendário, orçamento, reajuste e alguém que não peça para voltar depois do recreio.
Helton apresentou, assim, um projeto que pretende desmontar pilares importantes do atual governo: menos contratos temporários, menos terceirização, revisão do modelo da saúde, retomada pública da Deso e presença estatal no transporte. É uma candidatura que não propõe apenas trocar o motorista; quer mudar o ônibus, a rota e até a empresa responsável pela viagem. Na atualização mencionada de 17 de setembro, porém, sua candidatura aparecia sob discussão recursal relacionada ao DRAP, situação que não deveria ser tratada como encerramento definitivo sem decisão final. Politicamente, Helton mostrou direção, coragem e um adversário bem definido. Agora precisa apresentar os números, os prazos e o caminho jurídico. A receita está sobre a mesa; falta dizer quanto custam os ingredientes e quem pagará a conta quando o garçom chegar.




