Em Sergipe, falar do MDB é como falar daquele tio rico que já foi dono da cidade inteira, mas hoje aparece no almoço de domingo contando história do passado e pedindo para alguém pagar a conta do restaurante. O MDB de Ulysses Guimarães era outra categoria. Era trincheira, era Constituição, era peito aberto contra ditadura. Não era partido que pedia licença para existir, era partido que escrevia a regra do jogo. Quando Ulysses falava, Brasília prestava atenção. Hoje, quando o MDB sergipano fala, o povo pergunta primeiro “quem ainda ficou lá dentro?”.
O MDB de Antônio Carlos Franco, pai de Marcos Franco, tinha comando, tinha pulso, tinha aquela coisa de liderança que não precisava de enquete no Instagram para decidir rumo. Era partido organizado, com base, com voto estruturado no interior. Depois veio o MDB de Benito Figueiredo, sério, firme, respeitado. O de Jackson Barreto, com musculatura política real, com grupo, com bancada, com densidade. Não era unanimidade, mas era força. Hoje o MDB parece mais reunião de condomínio discutindo se pinta a fachada ou troca o porteiro.
Aí chegamos à versão 2020+ do MDB sob Alessandro Vieira. Alessandro, político técnico, articulado, inteligente, que já vestiu camisas diferentes ao longo da carreira, agora administra o MDB com lógica seletiva. Diz que não forma chapa com quem não vota nele, que prefere poucos alinhados a muitos dispersos. É o famoso “troca oito por um”, versão minimalista. Só que partido político não é grupo de WhatsApp para silenciar quem incomoda. É estrutura eleitoral. Se começa a encolher demais, vira boutique ideológica.
E no meio dessa equação está Marcos Franco, herdeiro do sobrenome que já comandou o partido em Sergipe. Marcos circula, aparece, mantém postura tranquila, quase zen. Mas eleição não é retiro espiritual. É base, é voto, é articulação. E quando se comenta que nem Juca de Bala nem Petinho de Riachuelo estariam alinhados com seu projeto federal, a pergunta surge naturalmente: onde está o grupo fechado? Política não é campeonato de sobrenome. É campeonato de apoio declarado.
O MDB de outrora lançava candidato para ganhar. O de hoje parece discutir se consegue montar time completo. Fala-se em risco de não formar chapa competitiva para federal, de dificuldade na estadual, de isolamento estratégico no Senado. E enquanto isso, o fundo partidário está lá, garantido, esperando estratégia que transforme recurso em voto. Porque dinheiro parado não vira mandato sozinho.
No fim, o contraste é quase didático. O MDB que já foi protagonista nacional, que teve Ulysses, que teve força em Sergipe com lideranças consolidadas, hoje enfrenta desafio de identidade. Alessandro tenta organizar com método. Marcos tenta sobreviver com tradição. Mas política não vive de nostalgia. Vive de sintonia fina, base real e articulação viva. Se não houver ajuste rápido, 2026 pode transformar o antigo gigante em coadjuvante de luxo. E em política, meu amigo, coadjuvante não escolhe roteiro. Apenas participa.




