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Do rock à xenofobia: o abismo entre Rita Lee e Arthur Duval

E, como de costume, não saiu discurso, saiu descarga. Nada de poesia, argumento ou crítica com cérebro. O que Duval despejou foi puro esgoto verbal: encharcado de raiva, respingando preconceito, e temperado com aquele ranço elitista típico de quem “nunca soube o que é o amor, nunca teve que dançar no calor” de um arrasta-pé. E o alvo? O povo sergipano, o nosso Forró Caju, e de lambuja, o Nordeste inteiro, como se a alegria nordestina fosse um problema a ser combatido e não um patrimônio cultural a ser celebrado.

Em 1997, Rita Lee, a rainha do rock nacional, causou polêmica ao desrespeitar abertamente a briosa Polícia Militar de Sergipe durante um show na Barra dos Coqueiros. Foi presa, sim, e com razão. Errou o tom, exagerou na dose, e atacou quem apenas fazia seu trabalho. Mas havia ali uma diferença crucial: Rita mirava o que julgava ser truculência estatal, e não o povo. Sua rebeldia, mesmo falha, era política. Ela era a artista que gritava: “Eu sou da pá virada, eu sou a tal Rita Lee”, e não uma influenciadora frustrada querendo palco com discurso podre. Já Arthur Duval, longe de qualquer palco, bem protegido por paredes de concreto e ar-condicionado, resolveu destilar arrogância em série contra quem estava apenas… curtindo um show. 

Vamos aos fatos crus, sujos e registrados em vídeo. Arthur chamou os sergipanos de “povo burro”, “povo bosta”, “chimpanzé”, “retardado”. Publicou com orgulho, como se estivesse ditando uma verdade de Estado. Como se destilar ódio fosse ato de lucidez. Mas não foi. Foi só ignorância com assinatura. O problema aqui não é discutir o uso de emendas parlamentares para financiar cultura. Isso é saudável. O problema é usar isso como desculpa para vomitar preconceito em quem apenas celebrava sua identidade. “Dizem que sou louca por pensar assim”, já cantava Rita. Mas louco mesmo é quem acredita que pode construir qualquer argumento político ofendendo o povo no atacado.

E enquanto Arthur despejava preconceito com pose de profeta incompreendido, quem teve coragem e compostura foi o deputado Ícaro de Valmir. Sem estrelismo digital, sem lacração ensaiada, ele fez o que se espera de quem tem mandato e dignidade: reagiu. Protocolou notícia-crime no Ministério Público Federal contra o ex-deputado. Não por palanque, mas “porque se eu não puder fazer o que eu quero, faço questão de não fazer o que eu não quero”, como diria Rita. Ícaro agiu com firmeza, não para agradar bolha nenhuma, mas porque sergipano nenhum merece ser tratado como lixo por quem fala besteira e depois corre pro YouTube pra monetizar o veneno. Como canta Wesley Safadão, “faz o teu nome, não precisa falar de mim”, e Ícaro fez o dele com decência, sem precisar rebaixar ninguém.

O ataque de Arthur Duval é só mais um capítulo do manual ultrapassado do preconceito sudestino, aquele que enxerga o Nordeste como um puxadinho mal iluminado da República. Como se a cultura nordestina,forjada em suor, luta, talento e riso pudesse ser tratada como nota de rodapé. Como se em Sergipe, no Nordeste, o São João ou o forró fossem enfeite, e não estrutura. Como se o Brasil fosse uma multinacional e o Nordeste, o estoque.

E sejamos claros: usar a desculpa de “campanha antecipada” para espalhar preconceito não é coragem, é recalque mal disfarçado. Criticar a prefeita Emília Corrêa? Pode. O deputado Tiago? Também. Isso é democracia. Agora, insultar o povo inteiro? “Isso não se faz, criança”, como ensinava a Rita, com menos ódio e muito mais classe.

E pra quem ainda acha que “trazer Wesley Safadão com verba pública” é burrice, talvez esteja precisando de uma boa aula de economia da cultura popular. Um show desse porte aquece o turismo, alimenta ambulantes, costureiras, manicures, taxistas, policiais, garçons, vendedores de milho e sonhos. Gera autoestima, identidade e memória coletiva. E sim, dinheiro público também serve pra isso. Porque povo feliz não incomoda, só incomoda quem nunca suportou ver o povo dançando com dignidade.

No fim das contas, Arthur Duval tenta posar de gênio incompreendido. Mas entrega a performance de um menino mimado expulso da sala por gritar palavrão pra diretora. O problema é que, dessa vez, ele xingou a escola inteira. E a escola reagiu. Com dignidade, com fúria e com o peito inflado de ser  um Sergipe com S maiúculo, sotaque firme e cabeça erguida. Arthur, se ainda não entendeu o que é burrice, a gente canta pra você: “Desculpe o auê, eu não queria magoar você…”, Mas magoou. E agora, além do palco, ganhou também os tomates.

Por Bia Muniz

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