A tenente coronel Manuela Gomes entrou na política como quem invade uma operação especial: entrevista marcada, discurso ensaiado, tropa mencionada, família consultada e planejamento estratégico anunciado. Disse que estava pronta para trocar parte da vida no quartel por uma cadeira na Assembleia. O problema é que, quando a ata oficial do PL chegou, havia 23 candidatos a deputado estadual, coronel, delegado, Bolsonaro Sergipano, doutora, professora, projeto de bicicleta roubada e até Pripri do Povo. Manuela, porém, não estava. Relatos de bastidores apresentados à coluna falam em discussão, bate boca e outro aliado de Rodrigo Valadares igualmente barrado. O que o documento comprova é mais simples e igualmente barulhento: o nome de Manuela não entrou na lista aprovada. A candidatura chegou marchando, bateu continência e descobriu que seu nome não estava na escala de serviço.
E não foi por falta de currículo. Manuela ingressou na Polícia Militar em 1996 como soldado, tornou-se cabo, entrou no oficialato e passou por Cavalaria, Rádio Patrulha, CPTran, Choque, 5º Batalhão, Gati, BPati, 6ª Companhia, 1º Batalhão e CFAP. Foi pioneira feminina em estruturas historicamente dominadas por homens e acumulou quase três décadas de comando, operação e formação profissional. É um currículo de guerra com candidatura de quinze dias. A biografia tem tamanho de série documental; a articulação partidária parece vídeo curto de rede social. Manuela planejou a carreira militar durante 30 anos e a carreira eleitoral no intervalo entre uma entrevista e o fechamento da convenção.
Existe ainda um detalhe jurídico que talvez tenha tocado a sirene dentro do partido. Em 10 de abril de 2026, Manuela continuava apresentada como comandante do CFAP. Para militar que exerce função efetiva de comando, a jurisprudência reunida pelo TSE trabalha com afastamento seis meses antes da eleição, o que, neste pleito, significava 4 de abril. Não localizei ato público demonstrando que ela tivesse deixado o comando antes desse marco. Isso não autoriza afirmar automaticamente que seria inelegível, porque o caso concreto dependeria do registro, das atribuições efetivamente exercidas e da documentação apresentada. Mas também não era um detalhe do tipo “depois a gente vê”. Era mais parecido com chegar ao aeroporto seis dias depois da partida e perguntar se o avião ainda está fazendo hora na pista.
A trilha sonora ajuda a explicar a novela. Quem diria que uma relação política anunciada nos últimos dias terminaria antes do casamento eleitoral? O PL parecia cantar: “E o nome dela era Manuela”. A ata respondeu: “próxima música”. Houve namoro na imprensa, noivado no programa de rádio e separação no CANDex, tudo em velocidade suficiente para deixar aplicativo de relacionamento com inveja. Manuela explicou que a decisão fora conversada, planejada e construída coletivamente. Faltou apenas conversar com quem segurava a caneta da nominata. A ata, contudo, concedeu à direção estadual poderes para substituir nomes e preencher vagas remanescentes, e os pedidos de registro podem ser apresentados até 15 de agosto. Portanto, a porta técnica ainda não está completamente soldada, embora politicamente Manuela tenha sido deixada do lado de fora procurando a chave.
A disputa pela representação da segurança pública também não estava vazia como sugeriu o discurso da pré-candidata. A própria nominata do PL já contém Coronel Fábio, Coronel Pontual e Delegado Marcelo Paes. Em outra frente partidária, o ex-comandante geral Alexsandro Ribeiro apresenta se como pré-candidato estadual pelo PSD e afirmou ter cumprido a desincompatibilização do comando. Ribeiro aparece ainda com 0,12% numa pesquisa espontânea divulgada em julho, percentual pequeno e insuficiente para prever eleição, mas que demonstra que seu nome já circulava antes da campanha oficial. São trajetórias diferentes: Ribeiro deixou o comando e iniciou publicamente seu projeto; Manuela permaneceu identificada como comandante do CFAP depois do prazo de seis meses e surgiu na política perto da convenção. A urna decidiria quem representa a tropa. O calendário, porém, decidiu primeiro quem conseguiu chegar ao portão.
Tudo indica, portanto, que Manuela não será candidata pelo PL, salvo uma alteração formal promovida pela direção partidária antes do encerramento dos registros. Não é uma derrota de sua biografia militar, que é extensa e respeitável. É o naufrágio de uma operação política montada tarde, anunciada depressa e aparentemente executada sem conferir o relógio, a ata e a legislação. Manuela saiu do programa de rádio falando em novos postos e desafios, mas pode retornar ao quartel com uma lição prática: na política, planejamento estratégico não é dizer várias vezes que houve planejamento estratégico. É ter partido, prazo, afastamento e nome na lista. A candidatura nasceu no microfone, cresceu no WhatsApp, brigou na convenção e desapareceu na ata. Foi uma carreira eleitoral tão rápida que nem deu tempo de o eleitor decorar o refrão: Eu to amando ela///
Amando ela/// E o nome dela /// É Manuela!




