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Editorial: 24 horas depois da canetada de Salomão

A política sergipana acordou de ressaca depois da canetada de Luiz Felipe Salomão. Não foi decisão judicial, foi um terremoto político. Em poucas horas, alianças começaram a ranger, discursos perderam firmeza e o governador Fábio Mitidieri deve ter sentido aquela dor conhecida no estômago de quem percebe que o tabuleiro mudou sem pedir licença. Gente que até ontem falava alto passou a cochichar. Porque quando a Justiça entra em cena, ninguém sabe mais qual papel está lendo.

O clima já não era exatamente de tranquilidade. Havia um esfriamento elegante, aquele gelo fino que não quebra em público, mas faz barulho nos bastidores. O anúncio de apoios fora do script acendeu o alerta e o fantasma do rompimento de AM e FM começou a circular pelos corredores. Enquanto isso, André seguia no modo raiz, rodando o Estado, conversando, acumulando capital político e assistindo de camarote a ansiedade alheia.

Aí veio a virada. Rápida demais para ensaiar naturalidade. O povo de Itabaiana traduziu sem juridiquês: o Pato voltou pro jogo. E quando o Pato entra, ninguém continua dançando a mesma música. Em questão de horas, o governador apareceu usando o boné de André Moura. Em Sergipe, boné não é acessório, é declaração pública. Ninguém veste a marca de quem virou figurante. A miopia política foi curada num piscar de olhos. André voltou ao foco sem precisar dizer uma palavra. Quem tem voto nunca some por muito tempo, só sai de cena para aumentar o suspense.

Valmir virou objeto de desejo. Telefonemas, convites, abraços e festa em Itabaiana. Experiente, ele observa, mede, não se empolga. Enquanto isso, a direita começou a se reorganizar, menos briga interna, mais conversa de pé no chão. A decisão judicial, ironicamente, juntou o que andava espalhado.

As visitas também começaram a falar. Todas com o mesmo endereço: Belivaldo Chagas. Valmir foi acompanhado de aliados. Eduardo Amorim apareceu, médico, mas ali para auscultar cenário político. Tiago de Joaldo também passou. Belivaldo, que até outro dia recebia basicamente o silêncio, virou ponto de convergência. Na política sergipana, visita não é gentileza, é recado.

No meio desse rearranjo, surge com força Priscila Felizola. Durante anos apresentada pelos sobrenomes, agora reconhecida pela própria trajetória. Uma eventual vice deixa de ser símbolo e vira estratégia. Aquilo que parecia especulação começa a ganhar forma.

Enquanto a imprensa fala em diásporas e traições, o fato é mais simples. A canetada não escolheu vencedor, mas desmontou narrativas prontas. E isso incomoda. Especialmente quem já estava confortável demais no roteiro.

No fim, a ironia maior é essa. André Moura virou peça central sem reagir. Não falou, não atacou, não reclamou. A política falou por ele. O boné falou. O silêncio falou. E o governador, provavelmente, ainda está recalculando a rota, tentando entender como um Pato conseguiu, mais uma vez, bagunçar a lagoa inteira.

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